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Crônicas da retificação do horário do meu mapa

Após ser iniciado na Astrologia, o estudante ousa fazer certas coisas, como por exemplo a retificação de horário do próprio mapa natal. Digo ousar porque nem sempre há conhecimento suficiente para isso. Foi o meu caso...

Na minha certidão, consta o horário de 7:00 AM. É possível que esse seja o verdadeiro horário, mas não é provável, dada a tendência humana ao arredondamento. Instigado por essa verdade, comecei a testar o meu mapa com as técnicas preditivas ditas mais precisas, como as direções primárias, a fim de descobrir o horário que melhor se sincronizasse com as configurações que indicavam eventos marcantes da minha vida.

À época em que usava direções primárias, concluí que meu horário poderia ser de 6:52 AM: 8 minutos a menos que na certidão. Tudo isso só para sincronizar a direção "Ascendente oposição Júpiter" com um único evento notável da minha vida até então entediante: a época do início da faculdade.

Hoje em dia, tenho mais eventos marcantes para retificar meu horário segundo as direções primárias, mas tenho evitado esse caminho por uma razão conceitual: as direções primárias ficam anos 'ativadas' e não é porque eu entrei na faculdade em dezembro de 2001 que a direção do Ascendente ao regente da Casa 9 obrigatoriamente aconteceu na mesma época: Ela poderia ter sido ativada antes.

Assim sendo, não adianta eu ter 200 eventos marcantes, se todas as direções que os representam não se iniciaram na data exata dos eventos. Ao contrário: elas podem ter acontecido meses e até mesmo ANOS antes!

As direções primárias são uma técnica que depende de um esforço homérico de cálculo para se se chegar a uma data que na verdade não marca um evento específico, mas sim o início de uma tendência a uma série de eventos. Na Astrologia Helênica e para Abu Ma'Shar, ela era concebida dessa forma.
Com o tempo, porém, começou a se pensar que cada configuração dela indicaria um evento pontual e marcante, com o qual deveria ser sincronizada perfeitamente.

De alguma forma, as direções primárias receberam um estigma de "técnica de ouro" da Astrologia: uma técnica precisa, que indica eventos pontuais: o sonho de consumo de todo o astrólogo.

É comum ver as pessoas falando "meu pai morreu apenas um mês depois da direção Sol oposição Saturno". Então está aí embutida uma fantasia de que essa técnica indica eventos pontuais e sempre as configurações por ela formadas acontecerão muito próximas ao evento que ela representa. Isso é uma mentira das mais canalhas.

Talvez essa fama de precisão tenha sido construída porque essa técnica depende de conceitos de trigonometria esférica para se calculá-la (hoje se faz tudo automaticamente nos softwares). Como tudo que envolva matemática avançada recebe o estigma da precisão, não foi diferente com as direções. Mas não se engane: o cálculo das direções é um trabalho hercúleo para se chegar a um resultado que não refletirá um evento pontual somente.

A data em que acontece uma direção primária não representa a data de um evento, mas sim a data do começo de uma época que terá as qualidades da direção.

Os eventos representados pela direção só acontecerão a depender da ativação simultânea por outras técnicas preditivas, como a profecção e a Revolução Solar.

E foi assim que desisti de usar as direções primárias para retificar meu horário de nascimento... e voltei a usar o horário da minha certidão, as sete badaladas da manhã do dia 27 de março do ano do Nosso Senhor de 1982...

Comentários

  1. Opa Rodolpho,

    esse é um ponto complicado, mas eu discordo parcialmente desse post. As direções primárias realmente cobrem um lonho período de tempo, no qual sua representação simbólica fica ativada por algum tempo. Para delinear isso, existem 'n' técnicas, que às vezes são mais complexas que o próprio cálculo da direção primária.

    O que eu não concordo é que a direção não cai no dia do evento. Isso não acontece sempre, mas já observei que existem casos em que a direção primária cai exatamente no dia de um evento marcante, similar ao que ocorre com trânsitos.

    Não estou falando daquelas direções em que vc obtêm 200 direções diferentes para um mesmo dia, com aspectos não-ptolomaicos, direções conversas, pontos imaginários e um monte de bobagens, mas sim daquelas que realmente indicam um evento claramente. Do mesmo modo, existem muitas direções que se perdem no emaranhado de outras, pois não conseguimos identificar exatamente o que elas representam.

    Acho que a direção tem a ver com incepção, nesse caso. A direção primária representa uma incepção de algo na vida do nativo. Assim, algumas direções representam um tema que se desdobra, mas a modalidade/temporalidade desse tema determina a percepção que temos.

    Vou dar um exemplo simples. Na minha carta, Saturno rege a 11, Marte rege a 8. No dia 7 de fevereiro desse ano, a direção da quadratura de Marte a Saturno ocorreu. Um dia antes, um grupo de amigos próximos (casa 11) sofreu um acidente de carro (Marte) e todos morreram (casa 8).

    O que eu quero dizer com isso é que o evento foi súbito, e não é algo que se desdobrou. A vida se desenvolve em etapas, mas as etapas podem ter a duração de anos (até séculos, dependendo do tipo de ciclo) ou a duração de apenas alguns dias, como nesse caso que citei.

    Já a direção que representou a morte do meu pai não foi uma manifestação imediata. Foi sim, uma longa batalha contra o câncer, que começou, provavelmente, com diversas direções dois anos antes de sua morte.

    Perceba no caso da morte de meu pai, o evento teve desdobramento lento a partir de seu início, já no outro caso, houve um desdobramento imediatamente perceptível.

    Além disso, as direções primárias possuem variação grande, devido ao momento do nascimento, apenas por causa dos ângulos. Os únicos ângulos que interessam mesmo nelas, normalmente, são o AC e MC. Os planetas não variam muito em período sua direções, quando fazem aspectos entre si. São essas direções que devem ser analisadas com mais critério, na minha opinião.

    E é claro, que haverá variação nos resultados, dependendo da abordagem filosófica do astrológo, se é 1º a chave ou Naibod, qual o sistema de casas preferido, se o cálculo é in mundo ou zodiacal...

    Em suma, a direção constitui um testemunho, que isolado, diz pouco, então é preciso conferir outros mapas para que se tenha cruzamento de dados, mas isso não quer dizer que algumas direções primária não se manifestem como eventos discerníveis e outras como eventos prolongados sem picos visíveis. Afinal de contas, nossa percepção cognitiva categoriza as coisas prioritariamente por sua intensidade x tempo de ocorrência.

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  2. Paulo, na minha prática, um caso similiar ao você citou é muito raro de acontecer, mas eu respeito muito a verdade de que cada astrólogo tem a sua população e que ela pode trazer evidências diferentes da população de outro astrólogo. Em outras palavras: esse tipo de direção certeira e pontual pode acontecer mais com você do que comigo. Não sabemos se a distribuição dessas coisas é homogênea na população, né?

    Mas seu caso é o famoso 'caso de livro', belíssima amostra de como a astrologia funciona, não fosse tão trágico.

    Uma direção acontecer no mesmo dia ou um dia antes do evento para mim é algo raríssimo. Eu concluiria que isso pode ser um caso no qual algum trânsito ou profecção diária estava ativando a configuração marte-saturno. Só vendo mesmo.

    As direções entre planetas, de fato, não mudam muito com a retificação, e por isso que usava as direções do Ascendente e do Meio do Céu para esse propósito. São direções muito importantes e tradicionais, e foi quando eu as analisava que não percebia eventos pontuais, mas, como disse, épocas da vida da pessoa, na qual acontecem eventos - súbitos ou graduais, não importa - com um dentre os vários significados da direção. Ou também é comum que aconteça apenas um evento com o significado da direção, mas que comigo não costuma se sincronizar tão aproximadamente ao evento.

    É por isso que defendo que as direções não devem ser usadas para retificação, embora não as esteja desconsiderando como técnica preditiva.

    Uma coisa que você apontou, e eu concordo, é que há direções que representam eventos pontuais. Infelizmente, não dá para se saber com certeza se a direção representa um evento específico ou vários.

    Abu Mashar, se bem me lembro, fez menção aos signos do distribuidor e do participante como sendo representantes do número de vezes em que um evento acontecerá. Signos cardinais indicam eventos que se repetem, e portanto isso seria uma pista de que a direção indicaria uma época na qual acontecerá eventos similares.

    Por exemplo fictício, uma direção de maléficos em signos cardinais pode indicar uma intensificação do trabalho da pessoa, ou a ida dela a uma guerra, porque signos cardinais indicam várias coisas, então a pessoa na guerra vai ver toda a sorte de desgraças o tempo todo, dos modos mais diversos. Em tempos de paz, se a pessoa for médica, essa direção pode representar o ingresso num plantão médico de um hospital no qual acontecem verdadeiras atrocidades e que a carga de trabalho seja muito intensa.

    Só para finalizar, um adendo: aprendi com a ast. indiana que a casa 8 e marte representam eventos súbitos. Na ocidental, associam a 8 à morte e À angústia, mas não relatam esse aspecto 'súbito' dos eventos - algo que eu já percebia há alguns anos. Então, no caso do seu mapa, marte + casa 8 é juntar o fogo com a pólvora. Sobrou pros seus amigos porque saturno fazia contato com marte... Acredito que seu ascendente seja áries pra saturno reger a 11 e marte a 8.

    Marte é um planeta muito rápido na sua ação, mesmo não sendo muito rápido na sua velocidade se comparado à Lua ou Mercúrio. Portanto, essa coisa de velocidade de movimento não tem nada a ver com a velocidade da ação representada pelo planeta.

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