2 de mai. de 2026

Carta de ingresso do Sol em Áries para o Brasil em 2026

1º de Maio completou-se 21 anos da existência desse blogue e, em comemoração à sua maturidade, apresento este artigo.

Vamos delinear a carta de ingresso do Sol em Áries para 2026 no Brasil usando de alguns princípios de interpretação descritos por Teófilo de Edessa, astrólogo da corte Abássida no século VIII d.C.


O Ascendente da Carta é Gêmeos, signo mutável. Segundo autores como Abu Ma'Shar, quando o Ascendente é mutável, o ano é melhor explicado por duas cartas de ingresso: a carta do Sol em Áries definiria melhor o que acontece até o 21/22 de setembro, enquanto a carta do Sol em 0˚Libra definiria melhor o que acontece até 20/21 março de 2027. Entretanto, Teófilo não considera tal distinção.

A escolha do Regente do ano

Este ano, segundo Teófilo, três planetas podem ser os regentes neste mapa: 
  • Júpiter faz uma estação a menos de cinco dias antes do ingresso
  • Marte fará uma ascensão helíaca sete dias depois do ingresso
  • Mercúrio apareceu nos céus - ou seja, fez uma ascensão heliacal - três dias antes.
Não há necessidade de “desempatarmos” os três. Cada um pode ter indicações importantes para o ano. E o fato de haver três regentes demonstra que o ano será muito intenso, com vários acontecimentos importantes. Considero que Mercúrio ganha mais destaque do que Marte e Júpiter por reger o Ascendente, embora a força de Júpiter seja maior por estar visível, estacionário e exaltado. Além disso, Júpiter conta com um número surpreendente de testemunhos: quatro dos seis outros planetas se aplicam a ele, comprometendo a ele suas disposições e virtudes. Para astrólogos árabes, isso era um sinal inequívoco da importância desse planeta este ano. 

Apesar de termos três planetas importantes para o ano, há dois núcleos de significação. Isto porque Marte e Mercúrio estão em conjunção no 10º signo, enquanto Júpiter está no segundo signo, avançando em direção ao Ascendente. 

Primeiramente, gostaria de delinear a combinação Mercúrio + Marte.

Mercúrio em queda indica que os significados mercuriais geram humilhação, vergonha e dejeção ao governo, uma vez que ele se encontra na casa 10 anual. Indica falhas de comunicação oficial, declarações contraditórias ou mal interpretadas, erros técnicos em políticas públicas, problemas em comércio, finanças ou legislação. Essas coisas são ajudadas pelo dispositor de Mercúrio, ao qual ele se aplica, garantindo salvação.

Marte na 10 pode significar aumento de medidas coercitivas (polícia, força, repressão), decisões rápidas e duras vindas do topo do poder, conflitos entre governo e outras instituições.

A combinação (Mercúrio + Marte) representa decisões agressivas baseadas em cálculo falho, crises políticas geradas por fala ou informação, uso de retórica combativa que piora conflitos, medidas duras que provocam reação ou instabilidade. Mercúrio/Marte também é uma mistura tradicionalmente relacionada a trapaceiros e ladrões.

Estamos em 2 de maio. Passados quase um mês e meio desde o ingresso em 20 de março, é impressionante o número de fatos que podem corroborar os posicionamentos planetários descritos. Claro que, para fazer essa pesquisa, contei com a ajuda de inteligência artificial para fazer um Survey de notícias rápido e eficaz. Eu uso IA como uma preciosa ferramenta, e não como substituta do meu cérebro. 

Mercúrio em queda na 10

1. Erros Técnicos e Falhas em Políticas Públicas

O exemplo mais direto de "erro técnico" mercurial ocorreu no final de abril com a Receita Federal. Uma mudança no sistema de coleta de dados para as declarações pré-preenchidas do Imposto de Renda causou um transtorno massivo: cerca de 257 mil contribuintes foram enviados indevidamente para a malha fina. A falha ocorreu na transição da antiga Dirf para os novos sistemas eSocial e EFD-Reinf, gerando uma onda de reclamações e a necessidade de correções urgentes em uma das políticas públicas mais sensíveis para a classe média.

2. Falhas de Comunicação e Articulação (Humilhação Política)

A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se o símbolo da falha de cálculo e comunicação entre o Palácio do Planalto e o Senado. Apesar de avisos prévios de que o nome não teria apoio suficiente, o governo insistiu na indicação. Resultado: Em 29 de abril, o Senado impôs uma rejeição histórica, com projeções de até 50 votos contrários. A última vez que a indicação de um ministro do supremo pelo governo foi rejeitada ocorreu em 1894, durante o governo Floriano Peixoto! A mídia política classificou o episódio como a "segunda maior humilhação" do mandato atual, evidenciando uma desconexão profunda entre a estratégia do governo e a realidade legislativa.

3. Problemas Legislativos e Contradições

Em 30 de abril, o governo sofreu outro revés significativo com a derrubada do veto à "Lei da Dosimetria". O Congresso Nacional rejeitou a decisão presidencial, mantendo um texto que altera o cálculo de penas para condenados pelos atos de 8 de janeiro. Essa medida é vista como uma derrota política direta, pois abre caminho para a revisão de condenações e beneficia figuras da oposição, gerando uma percepção de fraqueza na agenda de justiça e segurança do governo.

4. Crise Financeira e Desconexão de Narrativas

Dados divulgados no final de abril indicam uma "epidemia de endividamento": 67% das famílias brasileiras possuem dívidas, e o superendividamento tem sido o principal ponto fraco da popularidade governamental. Contradição Mercurial: Existe um abismo entre o discurso oficial de "melhora macroeconômica" (queda do desemprego e alta do PIB) e a percepção popular de perda de poder de compra e estrangulamento financeiro. No pronunciamento de 1º de maio, o governo tentou reagir a esse cenário anunciando o "Novo Desenrola", mas a sensação de "correção tardia" de um problema já instalado reforça a ideia de uma comunicação que corre atrás do prejuízo.

5. Retórica e Autocrítica Tardia

Durante a Reunião da Mobilização Progressista Global em Barcelona (18 de abril), o governo apresentou um discurso de autocrítica sobre a dificuldade de converter conquistas econômicas em apoio popular. Analistas políticos apontaram que essa percepção de que a "comunicação falhou" chega em um momento de estreitamento do espaço de manobra, corroborando a tese de uma inteligência estratégica (Mercúrio) que não está operando em sua plenitude.

Marte na Casa 10

Aqui saímos da falha técnica e entramos na demonstração de poder bruto e no conflito direto entre as cadeiras mais altas da República.
  • A "Guerra das PECs" contra o Judiciário: Em abril, o Congresso avançou com a PEC que limita decisões monocráticas e mandatos para ministros do STF. Uma instituição (Legislativo) usa sua força máxima para "enquadrar" outra (Judiciário).
  • Retaliação Pós-Messias: Após a rejeição de Jorge Messias, o governo não recuou para negociar. A resposta foi uma série de exonerações rápidas de cargos indicados por senadores que votaram contra o governo. É a "decisão dura vinda do topo" para punir a insubordinação.
  • Uso da Força Nacional: Houve um aumento crítico no envio da Força Nacional para conflitos de terra e áreas de fronteira em março, uma resposta "marcial" e centralizada para tentar conter crises de segurança que a articulação política não resolveu.

A Mistura Mercúrio + Marte: O Cálculo Agressivo e Falho

É a agressividade baseada em informação errada ou em uma retórica que incendeia o que deveria apagar.
  • A PEC da Segurança Pública: O governo tentou empurrar uma centralização das polícias (Marte/Coerção) através de uma medida que foi tecnicamente muito criticada por governadores (Mercúrio/Falha). Tentaram ser duros, mas o cálculo político de apoio dos estados foi totalmente falho.
  • Retórica de Confronto (Lula e Boulos): As falas de abril, chamando o Congresso de "adversário do povo" e convocando militância para as ruas após derrotas legislativas, são o exemplo perfeito de retórica combativa que piora conflitos. Em vez de acalmar o mercado ou o Congresso para aprovar pautas econômicas, o governo usou o verbo (Mercúrio) como arma (Marte), o que travou ainda mais a pauta de finanças.

"Trapaceiros e Ladrões" (A Face Obscura)

A mistura Mercúrio/Marte tradicionalmente aponta para astúcia voltada ao ganho ilícito ou manobras de "espertalhões".
  • Escândalo das "Emendas Digitais": No final de março, estourou uma investigação sobre um esquema de desvio de verbas através de aplicativos e plataformas digitais de prefeituras (o uso da tecnologia/Mercúrio para o roubo/Marte).
  • O Caso da "Abin Paralela" 2.0: Novas descobertas em abril sobre o uso de ferramentas de espionagem para monitorar adversários políticos. É a inteligência (Mercúrio) a serviço da agressão e da vigilância (Marte), operando nas sombras como um "trapaceiro" institucional. O governo Lula não é o responsável, mas sofre com isso. A oposição argumenta que, ao assumir em 2023, o atual governo manteve quadros técnicos e parte da estrutura operacional que já utilizava esses métodos, demorando para realizar uma "limpa" interna. E existe a tese de que o governo atual sabia da existência de estruturas de monitoramento, mas, inicialmente, tentou usá-las para seus próprios fins antes de decidir que o custo político de mantê-las (após as denúncias da mídia) seria alto demais.

Júpiter exaltado na 2: o lado bom (e questionável) do ano.

Júpiter na Casa 2 exaltado e estacionário indica recursos financeiros e materiais abundantes para o país esse ano. Claro que isso não contraria a estrutura social definida na gênese dessa República. Levando-se em conta a manutenção do status quo de muita desigualdade social, as camadas menos favorecidas podem ter algum benefício módico a mais se comparado aos anos anteriores e, obviamente, as elites e os bancos prosperarão muito mais. Pode haver recorde nas produções de algumas safras, principalmente nos grãos indicados por Júpiter - mas, geralmente, os grãos beneficiados tendem a ser os mais cultivados no país, mesmo que eles não sejam significados por Júpiter. Júpiter rege as casas 7 (adversários e parceiros comerciais do país) e 10 (governante) e esses elementos se beneficiarão diretamente do que ocorre na Casa 2. 

A dodekatemoria de Júpiter está em queda na Casa 8, demonstrando que o Brasil terá um ano próspero comercialmente porque os nossos parceiros comerciais estão passando por uma crise - causado pelos conflitos no Oriente Médio e pela política externa norte americana.

E que notícias confirmam até agora esses fatos?

1. Júpiter na 2: Recordes no Agro e Lucros Bancários

A "exaltação" dos recursos materiais é visível nos dados de fechamento da safra e nos balanços financeiros de abril de 2026:

  • Recorde da Soja: As projeções da CONAB e do IBGE para a safra 2025/2026 confirmam que o Brasil atingiu um novo recorde histórico na produção de grãos, com a soja liderando o volume e o valor bruto de produção. O milho também apresenta desempenho excepcional, consolidando o Brasil como o "celeiro" que lucra em momentos de escassez global.

  • Bancos e Elites: Os balanços do primeiro trimestre (1T26) dos grandes bancos brasileiros (Itaú, Bradesco, Santander) mostraram lucros líquidos que, somados, ultrapassaram os R$ 28 bilhões, um crescimento significativo em relação ao ano anterior. Isso corrobora a tese de que, enquanto a economia real patina, o topo da pirâmide financeira (Júpiter exaltado) prospera via juros e serviços.

  • Benefícios Módicos: Em 1º de maio de 2026, o governo anunciou o reajuste do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Embora apresentados com pompa, o ganho real é considerado "módico" por economistas, servindo apenas para manter o poder de compra básico das camadas menos favorecidas diante da inflação de serviços.

2. Júpiter rege a 7 e a 10: O Governante e os Parceiros

  • Casa 10 (Governo): O governo tem usado o superávit comercial gerado pelo agro para tentar equilibrar as contas públicas e manter programas de investimento. A figura do governante se beneficia da "sorte" jupiteriana de ter um setor exportador tão pujante, o que evita um colapso fiscal maior.

  • Casa 7 (Parceiros/Adversários): A diplomacia brasileira em 2026 tem focado em acordos bilaterais estratégicos, especialmente com o bloco do Sul Global, aproveitando a abertura de mercados que antes eram dominados por potências agora em crise.

3. Dodekatemoria na 8: Prosperidade via Crise Alheia

O Brasil está lucrando não apenas por mérito próprio, mas pela debilidade dos outros (Casa 8 - recursos dos outros/crises externas):

  • Conflitos no Oriente Médio: A escalada de tensões entre Irã e Israel e a instabilidade no Mar Vermelho em 2026 encareceram o frete global e a produção de energia em diversas regiões. O Brasil, sendo um exportador de alimentos e petróleo (Petrobras batendo recordes de exportação em março/abril), preenche o vácuo deixado por cadeias de suprimento rompidas.

  • Política Externa dos EUA: O endurecimento das taxas de juros americanas e o protecionismo comercial de Washington geraram uma fuga de capitais de mercados dependentes do dólar. O Brasil, com suas reservas cambiais robustas e produção física de alimentos (grãos), tornou-se um destino de "vôo para a qualidade" para investidores que buscam ativos reais em meio ao caos geopolítico.

  • A "Queda" na 8: Enquanto os parceiros comerciais enfrentam crises de dívida e inflação energética, o Brasil "bebe" desses recursos via balança comercial favorável. É a riqueza brasileira construída sobre a instabilidade externa.

Significador do governante - O lote real

O Lote Real é encontrado tomando a distância do Sol até a Lua e contando-se a partir do grau do Meio do Céu. Este ano, ele caiu aproximadamente em 10˚ Áries. É testemunhado por uma quadratura inferior de Júpiter e seu regente é Marte no 10˚ Signo.

Os regentes da triplicidade do Lote Real são, na ordem, o Sol e Júpiter. A primeira metade do ano será indicada pelo Sol, a segunda por Júpiter. As condições de ambos os regentes não são ruins, mas, representando a primeira metade, o Sol está em conjunção com um maléfico que ele recebe na sua exaltação, Saturno em Áries. Sol e Saturno são co-sectários, e o Sol recebe Saturno, que está fraco demais pela dignidade de queda. Isso indica o governante tentando fazer alguma coisa para encobrir as falhas de um ministro importante, indicado por Saturno em Áries na Casa 11. Soma-se a isso que Saturno rege a casa 9 (justiça e leis). Trata-se de uma representação muito convincente da rejeição à indicação de Messias como ministro do STF. 

A segunda metade do ano, para o governo, mostra uma bonança econômica e pode significar reeleição devido à excelente condição de Júpiter.

O Meio do Céu também é um significador do governante. Por estar num signo de água, seus regentes da triplicidade são, na ordem, Vênus e Marte. Vênus está em detrimento na casa 11 e Marte está em condição melhor no meio do céu. Portanto, o MC nos mostra a mesma coisa que o Lote Real: a primeira metade do ano será mais difícil para o presidente devido aos ministros - incluindo alguma figura feminina, representada por Vênus - em apuros. Vênus também rege a casa 5 este ano, significando que embaixadas ocorrerão em circunstâncias difíceis, ainda mais que Vênus rege conciliação e marte - regente do signo onde Vênus se encontra - significa exatamente isto: embaixadas em circunstâncias difíceis!

Como fatos que corroboram os posicionamentos dos regentes da triplicidade do meio do céu, temos:

Ministras femininas em apuros: O governo iniciou o segundo trimestre sob fogo cruzado por causa da gestão da crise de saúde e da área ambiental. Ministras como Nísia Trindade (Saúde) ou Marina Silva (Meio Ambiente) têm sido os alvos preferenciais do "fogo amigo" do Centrão e de falhas técnicas que geram desgaste público.

Embaixadas e Diplomacia (Vênus na 5): A situação diplomática do Brasil em 2026 é tensa. O país tem enfrentado "circunstâncias difíceis" com a escalada de conflitos no Oriente Médio e a pressão por posicionamentos mais duros, o que gera o efeito de "embaixadas em apuros". A conciliação (Vênus) está de fato enfraquecida diante de um Marte agressivo.

Vênus é regente do 5º signo (embaixadas) e está na Casa 11 (ministros). Teria alguma relação entre as dificuldades enfrentadas por alguma das ministras e as relações diplomáticas brasileiras? Sim. Embora a diplomacia seja tecnicamente da competência do Itamaraty, em 2026, a agenda ambiental tornou-se o principal motor da política externa brasileira. Marina Silva é o ponto focal de um detrimento venuziano (a incapacidade de conciliar ou de manter a harmonia):
  • O Problema da Gestão (Vênus na 11 - Casa dos Aliados/Congresso): A ministra enfrenta uma resistência feroz no Congresso. O modo como ela administra a pasta — muitas vezes vista como dogmática e resistente a acordos que envolvem exploração de recursos em zonas sensíveis — tem bloqueado pautas essenciais da base aliada.

  • O Impacto Diplomático (A "Embaixada Difícil"): As exigências rigorosas que ela impõe para a liberação de projetos de infraestrutura (como a exploração na Margem Equatorial) têm gerado tensão direta com parceiros comerciais. A percepção internacional é de que o Brasil tem uma "diplomacia paralela": enquanto o Itamaraty tenta vender uma imagem de abertura, o Ministério do Meio Ambiente impõe barreiras.

  • O "Modo" de Administrar: Ela é frequentemente criticada por não ceder, por manter uma postura de "isolamento" (o contrário da natureza sociável de Vênus). Em abril de 2026, isso culminou em episódios onde delegações estrangeiras, que buscavam acordos de investimento, deixaram o país frustradas, citando "falta de previsibilidade".

Conclusões

Os fatos mostram o poder que alguns planetas tem de fornecerem significados para os eventos mais importantes do ano. Para tanto, é necessário o princípio norteador do regente do ano. 

Acredito que seja necessário mais fatores para concluir se Lula se reelegerá ou não. Usando apenas os regentes da triplicidade do signo do Lote Real, sua condição é melhor no segundo semestre. Normalmente, a condição melhorada do governante no segundo semestre do ano é um sinal de continuidade. Em 2022, ano em que Bolsonaro não conseguiu se reeleger, o regente da triplicidade da segunda metade do ano era marte peregrino na casa 8.

10 de mar. de 2026

Como Valens usava uma revolução solar? (e mais alguns princípios de interpretação)

Sempre que encontramos uma transmissão em um ciclo (seja de um ou de muitos), examinamos o horóscopo reformulado para aquele ano, particularmente os trânsitos das estrelas, para ver se eles têm uma configuração semelhante à sua configuração na natividade em relação aos transmissores e receptores, e se eles têm as mesmas fases em relação ao sol. Se isso for verdade, dizemos que os resultados são certos.

Se as configurações forem diferentes e dissimilares, os resultados não ocorrerão na íntegra: algumas coisas acontecerão de forma geral, outras parcialmente. Por exemplo: se Júpiter ou Saturno detiverem a cronocracia geral e estiverem situados favoravelmente, e se a mesma estrela controlar a cronocracia no período atual, o nativo herdará ou se beneficiará de legados. Se Saturno ou Júpiter governarem o ano no segundo ou terceiro ciclo, mas não detiverem o cronocratismo geral, o nativo não herdará, mas ganhará algo: ele se beneficiará de legados ou alguma expectativa semelhante, ou da venda de bens, propriedades e outros bens.

Nos parágrafos anteriores, conhecemos o papel que Vettius Valens dava às revoluções solares. 

Valens chama a revolução solar de antigenesis, que Mark Riley traduziu como "horóscopo reformulado". Mas também usa o termo "trânsitos das estrelas" - termo este que é mais ambíguo do que o primeiro, porque também pode se referir ao movimento real das estrelas no céu ao longo do ano, não apenas levando em conta o instante do aniversário.

Enquanto nós herdamos de Abu Ma'shar (século IX d.C.) o costume de incluir, na previsão anual, a interpretação da figura isolada da revolução solar (é claro que ele não considerava apenas isso), o costume mais antigo, já encontrado na obra de Vettius Valens (século II d.C.), era usar a revolução solar nunca isoladamente, mas apenas como um confirmador ou intensificador do que fosse encontrado através do estudo da técnica da profecção do mapa natal. Isso ficará claro a seguir.

(O nome "profecção" é medieval. Valens não dá um nome a essa técnica, mas sempre se refere a ela quando usa o verbo "transmitir".  Portanto, posso também chamar a "profecção" de "transmissão").

Mas como se dá essa confirmação? Repetindo um trechinho da citação: 

ver se eles têm uma configuração semelhante à sua configuração na natividade em relação aos transmissores e receptores, e se eles têm as mesmas fases em relação ao sol

O primeiro exemplo que me vêm à mente é considerar dois planetas em aspecto que transmitem um ao outro: Imagine um mapa natal que tenha Vênus em trígono com Saturno: 



Oh! É o meu! Que coincidência...

Agora vamos pegar um dos planetas da configuração (apenas um para exemplificar) e avançá-lo na ordem zodiacal ao ritmo de um signo por ano. Esta é a técnica da profecção/transmissão. 

Segundo Valens, quando Vênus, por profecção, chegar ao signo de Saturno - ou, nas palavras de Valens, quando "Vênus for transmitida a Saturno" - aquilo que o aspecto representa na vida da pessoa pode acontecer. Isso ocorre de 12 em 12 anos. Acontece pela primeira vez aos 8 anos, depois aos 20, 32, 44... O aspecto também pode acontecer quando "Saturno for transmitido a Vênus", aos 4, 16, 28, 40 anos... Mas para simplificar, vamos usar a profecção/transmissão de Vênus a Saturno.

Se a transmissão de Vênus a Saturno ocorre a casa 12 anos, isto significa que o prometido pelo aspecto sempre acontecerá a cada 12 anos? 

A resposta: (1)Não, ou (2)Não com a mesma intensidade e do mesmo jeito. 

É importante responder à questão desta forma porque os planetas representam não apenas eventos concretos, mas também estados de espírito e sensações. É por isso que o conceito de "intensidade" vem a calhar: Astrologicamente falando, eu considero apenas pensamentos ou sensações manifestações planetárias de intensidade muito baixa. Por outro lado, considero eventos concretos com o significado do planeta a intensidade máxima de manifestação. 

Na manifestação de planetas e dos seus aspectos, vejo claramente três situações distintas:

  1. Em determinado ano, a pessoa pode sentir os efeitos de qualquer aspecto (no caso do nosso exemplo, Vênus em trígono com Saturno) de forma branda, apenas no comportamento ou na esfera psicológica: Vênus-Saturno, psiquicamente falando, pode significar frieza afetiva, distanciamento crítico nos relacionamentos afetivos, uma sensação de rejeição amorosa ou a percepção de frieza emocional da parceira. 
  2. Também pode acontecer anos nos quais o indivíduo não sentirá nenhum significado do aspecto, mesmo os mais sutis. 
  3. Por outro lado, em determinado ano, o nascido pode sentir o aspecto de uma forma tão intensa que ocorrerão um ou mais eventos que incluam os significados da mistura entre os dois planetas e suas determinações locais na natividade. Eventos concretos, e não emoções ou pensamentos!
Voltando ao nosso exemplo. Toda vez que Vênus se configurar (isto é, aspectar) com Saturno na RS, o significado natal do aspecto pode se repetir na vida, e de forma intensa. Não é preciso profecção para averiguarmos isso. Já sabíamos desta verdade há muito tempo, através dos ensinamentos de Morin de Villefranche no seu tratado sobre Revoluções - livro no qual ele sequer menciona a bendita profecção. 

Entretanto, não fazemos astrologia apenas seguindo as regras e os ensinamentos valiosos do astrólogo renascentista francês. Incluímos na nossa prática a profecção pelo sucesso que ela nos proporciona, por ser uma técnica fácil de executar (não é necessário programa de astrologia, dá pra fazer de cabeça) e por ser mais uma camada que nos auxilia a verificarmos a intensidade dos sinais preditivos: se a repetição do aspecto Vênus-Saturno na RS ocorrer no mesmo ano em que os dois participantes do aspecto natal entrarem em contato pela profecção, (no nosso exemplo, quando Vênus transmitir a Saturno, ou quando Saturno se transmitir a Vênus), a repetição será intensa ao ponto de ocorrer eventos concretos, notórios.

E aqui, há mais uma camada de sutileza: há quatro tipos de aspecto, cada um com uma intensidade maior que o outro. O sextil é mais fraco que o trígono. A quadratura é mais fraca que a oposição. Entretanto, os aspectos de quadratura e oposição são mais enérgicos do que os aspectos de sextil e de trígono. Portanto, se Vênus estiver em conjunção, quadratura ou oposição a Saturno na RS, os efeitos do aspecto natal serão mais intensos ainda. Em trígono ou sextil, nem tanto.

Valens também fala que a fase em relação ao Sol deve ser checada. Se Vênus está oriental em relação ao Sol no mapa natal, queremos que ela repita o aspecto com Saturno também oriental em relação ao Sol da mesma forma que ela estava na natividade.

Mas as coisas podem ficar mais intensas ainda. Se no ano em que (1)Vênus estiver fortemente configurada com Saturno na RS (2) Vênus e Saturno tiverem a mesma fase solar que tinham na natividade (3)Vênus se transmitir a Saturno ou vice-versa na profecção e (4) Vênus e/ou Saturno forem os regentes da profecção do Sol, da Lua ou do Ascendente para o ano em questão, então o significado do aspecto fica BEM concreto.

Vejamos dois exemplos do mesmo aspecto.



Tinha 20 anos em 2002, quando a profecção do Sol e do Ascendente chegaram ao nono signo/casa, Sagitário, e profecção da Lua chegou ao décimo signo, Capricórnio. Pela técnica da profecção/transmissão, todos os objetos do mapa - planetas, lotes, cúspides - estavam a nove signos de distância das suas posições no mapa natal. É por isso que sabemos que Vênus, em trígono com Saturno no mapa natal, se transmite a ele no mesmo ano. Entretanto, na Revolução Solar, Saturno estava em sextil com Vênus, mas o aspecto não era próximo, (isto é, não tinha orbe estreita), além de ser um sextil. Soma-se a isso que, ao contrário do mapa natal, Vênus e Saturno estavam ocidentais (à frente do Sol), não repetindo suas fases natais. Conclusão: apesar de Vênus ser transmitida a Saturno pela profecção, eles estavam fracamente configurados na RS e nada ocorreu em 2002 que pudesse simbolizar o aspecto na minha vida de forma mais evidente. Talvez eu tenha sofrido alguma rejeição amorosa da qual nem eu me lembre direito.

A cada 12 anos, a profecção repete o padrão. Em 2014 (2002 + 12), veremos novamente Vênus sendo transmitida a Saturno. 

A RS de 2014 teve Vênus em quadratura com Saturno, e ambos tinham as mesmas fases em relação ao Sol que tinham no mapa natal. Soma-se a isso que em 2014, assim como em 2002, um dos pontos mais importantes na profecção, a Lua, ingressava no signo de um dos participantes do trígono natal: Capricórnio, signo de Saturno. Portanto, era pra ser um ano em que eu sentiria com muita intensidade os efeitos de Vênus/Saturno - ainda mais que Vênus retorna à posição natal. 

A quadratura de um maléfico com um benéfico costuma ser problemática. O maléfico tende a impedir as benesses indicadas pelo benéfico. Entretanto, em 2014, NADA disto ocorreu. 

Neste ano, a quadratura de Vênus com Saturno apenas serviu para manifestar com grande intensidade (quadratura) ao longo do ano aquilo que prometia o trígono Vênus-Saturno no mapa natal - e, pelo jeito, o aspecto prometia coisas muito boas, como veremos a seguir. 

"Vênus em quadratura com Saturno na Revolução Solar, que terrível! Vocês vão se separar!" Entretanto,  não aconteceu NADA que justificasse a má fama do aspecto. Isto porque Vênus e Saturno, no mapa natal, não apenas estão determinados a casas boas mas também apresentam condições zodiacais de ok (Vênus peregrina) a excelente (Saturno exaltado). 

No meu mapa natal (o primeiro, lá em cima), podemos ver que Vênus está na Casa 11, e Saturno na Casa 7, ambos em recepção mútua e em trígono. Há ligação dos temas de casa 11 e casa 7: amigos, grupos e parceira. Do ponto de vista da parceira, seria a ligação de assuntos de casa 5 (criatividade, filhos) à Casa 1. (Este aspecto não indica a geração de filhos porque Saturno tende a esfriar e secar e isso prejudica a fertilidade - outras coisas no mapa significam que eu teria dois filhos, mas isto está fora de escopo no momento).

O que aconteceu em 2014 foi que minha mulher participou de uma exposição de artes expondo obras à base de lixo reciclado (consigo ver o significado de Vênus com Saturno aqui claramente...) e nós passeamos e saímos mais com os amigos dela e com os meus amigos. Fizemos inclusive uma viagem juntos, nós e um casal de amigos dela, a um bom hotel no litoral de São Paulo (não posso deixar de pensar que Vênus significa conforto físico/material e Saturno indica pessoas que viviam no litoral ou à beira de rios). 

Você deve ter achado super "classe média" e "morno" este relato (e é mesmo!), mas os astros também podem representar essas coisas! Observar e considerar eventos como esses são reflexos da maior lição que Robert Zoller me deu: você começa a aprender astrologia de verdade quando para de pensar como a realidade deveria ser (com base na sua visão do mapa) e passa a observar o que realmente ocorre e a correlacionar com o mapa natal e as técnicas preditivas!

Mesmo acontecendo coisas não tão fantásticas, posso dizer que 2014 foi um ano singular: apenas com o passar dos anos (e com uma análise minuciosa da minha biografia) se percebe que os tipos de eventos de 2014 não voltaram a acontecer até hoje, 12 anos depois... Minha mulher nunca mais se envolveu com exposições de arte e nunca mais viajamos juntos com amigos, por mais corriqueiras que essas coisas possam ser. 

Coisas incomuns para a pessoa dependem de uma representação astrológica mais pesada para ocorrerem. Algumas pessoas são muito mais sociáveis e fazem dessas viagens em grupo algo rotineiro; nós não. 

2 de set. de 2025

Os ângulos de um mapa astral. Simbologia e mecânica Celeste.

Os ângulos são as casas 1, 4, 7 e 10 do mapa astral. Eles são Centros de significação e de atividade. Entender isso pode levar anos para o estudante de astrologia.

Quando se redescobriu no ocidente os sistema de signos inteiros, os signos contados a partir do Ascendente passam a ser as casas. Portanto, os ângulos passam a ser o 1º, 4º, 7º e 10º signos contados a partir do Signo ascendente. Entretanto, muitos astrólogos que usam Signos inteiros desconsideram planetas nesses signos como "angulares" se eles não estiverem próximos do eixo Ascendente-Descendente nem do eixo Meio do Céu-fundo do Céu. 

Este assunto é cercado de confusões até hoje, e talvez o que discutiremos aqui pode nos ajudar a entender melhor aonde está a tal "angularidade": se nos signos contados a partir do Ascendente ou nas Casas Quadrantes.

Definições e Fundamentos.

Um ângulo do mapa era chamado Kentron pelos gregos. É dele, inclusive, que origina o termo "Centro" na nossa língua. 

A astrologia helenística chega à Índia por intermédio das rotas comerciais criadas por Alexandre, e com ela uma série de conceitos e seus nomes. "Kentron" é transliterado para o Sânscrito como "Kendra". Até hoje, o termo é usado frequentemente pelos Jyotishis (astrólogos da Índia ou seus seguidores mundiais), assim como Apoklima (as Casas Cadentes) e Panaphara (Sucedentes). Todos termos de origem grega.

No Sânscrito, a etimologia do termo "Kendra" não vai além do "empréstimo" da língua helênica. Não há nada na cultura indiana que se refira a este termo além dele representar os Ângulos de um mapa astrológico. No Grego, acontece o oposto. Há elementos quotidianos da cultura helênica definidos por esta palavra, e são desses elementos da vida quotidiana grega que se retiram os significados para o conceito astrológico.

No mundo helênico, Kentron era um instrumento pontiagudo usado para tocar o gado que levava o arado. O gado era espetado pelo Kentron, se assustava e avançava pelo campo. O boi, outrora parado, preguiçoso, voltava a se ocupar.

Essa analogia é perfeita para entender que planetas ocupando os Kentroi (plural de Kentron) estão ocupados, mas seja bem claro nas definições! Diferentemente do que os astrólogos dizem por aí, estar ocupado pode ser diferente de estar forte! Força em qual sentido?! Depende muito da definição de força. Se os Kentron representam algum tipo de força, é apenas a força de se manter ativo e ocupado! Eu mesmo me considero uma pessoa fraca e tenho me ocupado consideravelmente nos últimos meses.

Ao mesmo tempo, o kentron é até hoje usado nos compassos, para traçar circunferências. Ele é a agulha do compasso, e daí que vem a significação de "Centro" ou "Central". O centro da circunferência fica onde a agulha finca o papel. 

Todo o movimento do compasso depende deste ponto. Da mesma forma, tudo gira em torno dos Centros. Os signos angulares são os centros. Os signos sucedentes se dirigem aos centros. Os signos cadentes se afastam dos centros.

É dos Centros que partem os significados de quase tudo representado pelas Casas ou Locais. Um entendimento correto disto pode dar liberdade ao astrólogo de saber localizar qualquer tema dentro de uma carta, seja natal, horária ou mundial.

Os árabes também herdaram a significação dos ângulos de um instrumento pontiagudo. Chamavam os Centros de أوتاد (awtād), ESTACAS. Como se os ângulos fossem estacas que fincam as pontas das tendas no chão (e as mantém de pé).

O paradoxal movimento dos Centros

O centro de um compasso não se mexe, mas os centros/ângulos celestiais sim, e de uma forma um tanto estranha. Acontece neles um tipo de movimento interessante e ignorado por muitos.

Ao longo do dia, o ângulo do Ascendente oscila mais ao norte e mais ao sul, em torno do ponto cardinal Leste. O Ascendente e Descendente podem ser mais ao norte ou mais ao Sul do Leste/Oeste Geográficos.

É um movimento complexo de se descrever, mas podemos vislumbrá-lo com a facilitação dos programas de Astrologia. Basta colocar nos mapas dos softwares de astrologia o ponto extra chamado EAST POINT (EP) ou EQUATORIAL ASCENDANT (EA) e avançarmos o mapa no tempo: veremos que o Ascendente que nós conhecemos, ao longo do dia, vai oscilar em torno do EA, ficando acima ou abaixo deste ponto, na ordem dos signos. É o Ascendente "sambando" em torno do Leste!

Felizmente, também podemos entender esse movimento facilmente através desse vídeo:

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A Linha do Zodíaco é a vermelha. Note como ela se move em relação ao Leste, representado pela letra "E".

Mas isso não ocorre com o Meio do Céu...

A imobilidade horizontal do Meio do Céu

O meio do céu (Mc), chamado pelos Gregos de μεσουράνημα (mesouránēma, meso = meio, ouranos = céu), é o encontro do Meridiano com o Zodíaco.

O meridiano local é um grande círculo que liga o Norte geográfico ao Sul geográfico, passando pelo zênite (ponto acima da cabeça) e pelo nadir. Onde a eclíptica/zodíaco cruzar este círculo, ali é o Meio do Céu.

O Meio do Céu não balança como o Ascendente. Ele não balança horizontalmente, mas oscila "verticalmente", (em altitude), parecendo mais alto ou mais baixo ao longo do dia. É o que se pode ver no exemplo abaixo. A linha verde é o meridiano, enquanto o Zodíaco é a linha vermelha. Onde elas se cruzam, é o "Meio do Céu".



Perceba que a altitude do Meio do Céu muda ao longo do dia. Logo, a conclusão óbvia é que nem sempre o Mc será o ponto mais alto do céu, tampouco do Zodíaco! Isso acontece por causa da inclinação da eclíptica em relação ao horizonte e da latitude do observador.

Algumas implicações da imobilidade do Meio do Céu.

Se usarmos o Ascendente como o paradigma do que deve ser um Kentron, como devemos conceber o Meio do Céu? 

Em outras palavras: usando o Ascendente como referência, o Meio do Céu seria considerado um Kentron? Resposta: depende do referencial:
  • Se considerarmos que um Kentron deve se portar da mesma forma que o Ascendente, a resposta é não. O meio do Céu, como vemos, não se comporta como o Ascendente. Ele não "samba" ao redor do Meridiano, ele é o cruzamento da eclíptica com o Meridiano. 
  • Se considerarmos que o Ascendente não é paradigmático para definir qualquer ângulo, a resposta pode ser entre "sim" ou "talvez", a depender do referencial.
Há um segundo questionamento que se deriva do anterior: Existe alguma coisa ao redor do Meridiano, próximo à sua maior altitude, que pode se comportar da mesma forma que o Ascendente ao redor do Leste? Se o Ascendente gira em torno do Leste, o que gira em torno do meridiano? 

Sim, senhores, este ponto existe! Simplesmente o Ponto do Zodíaco que se comporta da mesma forma que o Ascendente e "samba" ao redor do Meridiano, (da mesma forma que o Ascendente "samba" ao redor do Leste) está a 270˚ de longitude zodiacal do Ascendente. Ele foi traduzido por Robert Schmidt como Place at the Peak, "local no pico", simplesmente a quadratura à direita do Ascendente. Assim como o Ascendente oscila em torno do Leste, o Local no Pico oscilaria em torno do meridiano, onde reside o Meio do Céu.

No sistema de Casas Iguais, que atribui o mesmo grau do Ascendente para todas as cúspides de Casas, o Local no Pico (ou apenas Pico) é simplesmente a cúspide da casa 10, como no exemplo abaixo:


Perceba que o Meio do Céu está quase no meio da Casa 10. A cúspide da mesma faz exatos 270˚ com o Ascendente - é o pico.

Agora veja uma coisa interessante. Vamos olhar exatamente o mapa acima, mas num programa de observação astronômica, o Stellarium:


Este mapa mapa tem uma grade azimutal. Nessa grade, o ponto mais alto do céu está na circunferência central, a bolinha menor. Quanto mais periférico na figura, mais baixo o ponto analisado.

Vamos comparar a altitude do Meio do Céu com a altitude do Pico. Basta ver quem está mais próximo da bolinha.

Como sabido, o Meio do Céu é o encontro da linha verde com a vermelha (zodíaco). Mas onde está o Pico? Ora, sabemos que ele está à direita do Meio do Céu e também faz parte da linha vermelha. Note que à direita do Meridiano (linha verde), a linha vermelha fica mais próxima do centro do mapa - ainda que seja uma diferença discreta.

Parabéns. Você acabou de ver que o Pico é assim chamado por realmente ser o local mais alto da eclíptica do céu em um dado momento.

Argumentos meia boca

Todo o exposto acima nos mostra que, assim como qualquer elemento da astronomia, os centros também são móveis. O Ascendente "samba" em relação ao Leste, o Pico "samba" em relação ao Meridiano e o Meio do Céu oscila sua altitude. Mesmo sendo móveis, são centrais, já que marcam regiões importantes de cruzamentos no céu.

Então cuidado com algumas eventuais argumentações que possam surgir por aí, baseadas em premissas astronômicas e etimológicas incompletas. Vamos simular aqui uma delas. O que vem a seguir não é o que eu penso, mas pode ser uma linha de argumentação a ser vista por aí:
Se os gregos chamavam as casas de Locais (Topos), e se os Locais, do ponto de vista do homem, são fixos no espaço, então isso significa que as casas devem se constituir em divisões fixas do espaço celeste. Divisões celestes que dividem o tempo ou o espaço celeste em porções fixas, como Placidus, Regiomontanus, Campanus, etc seriam escolhidas como sistemas de casas coerentes, ao invés do sistema de signos inteiros, que é uma simplificação grosseira da realidade astronômica, dada a precariedade em que vivia a maioria dos astrólogos do período helenístico. Pela mesma razão, devemos usar o Meio do Céu como a cúspide da Casa 10, porque ele é fixo no espaço. 
Não consigo pensar desta forma porque tal argumentação cai por terra quando aplicada ao Ascendente! Como vimos, o Ascendente não é imóvel! Ele "samba" em torno do Leste! E até mesmo o Meio do Céu não pode ser considerado totalmente imóvel, porque ele oscila em altitude!

Qualquer argumento de fixidez espacial cai por terra quando nos lembramos de que espaços são predominantemente fixos, mas podem ser móveis! Se eu moro num trailer, o local onde moro é móvel! Ao mesmo tempo, estamos vivendo num planeta que, para nós, parece ter sua superfície imóvel, mas que orbita em torno de uma estrela!

O que diz a filosofia do período sobre espaços móveis?

Em Platão, especialmente no Timeu, o espaço (chôra) aparece como um receptáculo vivo, uma espécie de matriz que recebe as formas e participa do movimento. O chôra não é simplesmente fixo: ele acolhe e sofre as transformações do devir, sendo, de certo modo, um “lugar móvel” que oscila entre o inteligível e o sensível.

Aristóteles, ao contrário, na Física, recusa essa noção de espaço fluido. Para ele, o lugar (tópos) é o limite imóvel do corpo que contém outro corpo: o espaço em si não se move, é o corpo que transita de um lugar a outro.

Assim, enquanto Platão concebe o espaço como algo dinâmico e instável, Aristóteles fixa a categoria de lugar como estável, transferindo toda a mobilidade apenas ao movimento dos corpos.

Como a astrologia foi supostamente alicerçada predominantemente por integrantes do Platonismo Médio, não seria absurdo pensar que os ângulos não seriam resultantes de divisões arbitrárias que ficariam imóveis no globo celeste.

Consideração temporal do Meio do Céu e um questionamento.

Estamos cansados de saber que o Ascendente é importante pelo fato de ser o local onde a eclíptica/zodíaco cruza com o horizonte. Muitas vezes, ele é erroneamente encarado como o próprio leste. Entretanto, como o Leste Geográfico é um conceito muito importante, por que ele nunca foi levado em conta como um ponto a ser interpretado? 

A resposta é auto evidente. Por mais que o Ascendente não se alinhe com o Leste o tempo todo, ele é importante por ser onde está a eclíptica: e é ao redor da eclíptica (ou nela mesma) que ficam os planetas. Portanto, o Ascendente é o local do horizonte mais perto de onde se contempla a "ação" dos planetas, e este local nem sempre recai sob o Leste. 

O Meio do Céu, entretanto, não se comporta como o Ascendente. E alguns dirão que esta é uma informação de importância interpretativa muito grande: Porque o Meio do Céu só oscila em altitude, nada mais adequado para ser o ponto para monitoras as oscilações de status social do indivíduo. 

Mas existe outra informação astronômica interessante do Meio do Céu. Quando o Sol o cruza, esse instante é o meio-dia verdadeiro* — o Sol já percorreu metade de seu caminho diário (de nascente a poente) em relação ao horizonte. 

Da mesma forma, o dia nasce quando o Sol nascia no Ascendente. E esta será a única correspondência entre o Meio do Céu e o Ascendente: ambos representam a passagem do tempo.

(*Não se confunda: o meio dia verdadeiro só coincide com o meio dia do relógio quando as horas locais se igualam às horas equatoriais, e isso acontece apenas quando a duração do dia for igual à noite, nos Equinócios).

Conclusões temporárias

Com tudo que vimos, podemos chegar a algumas conclusões temporárias. 

O Ascendente:
  1. Oscila em torno do Leste, mais para norte ou mais para o sul.
  2. Quando o Sol está ali, o dia começa.
Já o Meio do Céu:
  1. Não tem a oscilação similar ao Ascendente
  2. Não é o local mais alto do mapa, como muitos falam por aí.
  3. tampouco é o local mais alto do zodíaco
  4. A única coisa em comum com o Ascendente é representar a passagem do tempo. Quando o Sol está ali, é meio dia.
Por outro lado, o Pico:
  1. Se comporta da mesma forma que o Ascendente, oscilando em torno do Meridiano.
  2. É o local mais alto do zodíaco no mapa.
    1. Quando o Sol está ali, não tem nenhuma consideração particular, além de estar no local mais alto do mapa (e, portanto, teria uma simbologia para status muito mais evidente que o Meio do Céu).
Em termos de analogia, vê-se que o Meio do Céu não pode ser análogo ao Ascendente. São "animais" distintos, se comportam de formas diferentes. Tem coisas em comum, da mesma forma que cães são parentes dos lobos. E talvez por isso o Meio do Céu tenha uma função diferente do Ascendente ou de qualquer outra cúspide relacionada a Casas. 

Normalmente se diz que o Meio do Céu é a cúspide da Casa 10, mas isto pode ser uma grande confusão histórica. Talvez a cúspide da Casa 10 seja o "Local no Pico".

Já o meio do Céu seria usado para outras questões, bem específicas. Há quem defenda o uso do Meio do Céu para considerações temporais, como por exemplo no tópico da escolha do Predominador, também chamado de Hyleg. Mas este tópico é um pouco mais avançado e requer laudas e laudas de argumentações e citações.

Existem uma série de questões que ainda não me sinto à vontade para resolvê-las. Queria pontos de vista alternativos, desde que embasados em material consistente, e não meras epifanias. Infelizmente, receio que o exposto aqui não seja encontrado em mais lugar algum da internet, muito menos em língua portuguesa. 

Se você já leu discussão semelhante, com respostas similares ou não, sinceramente eu desejo muito saber. Mande-me o link.

5 de jun. de 2025

O Julgamento de Alan Leo e a Astrologia que Deixou de Prever o Futuro

Hoje, quando alguém fala em horóscopo, a maioria das pessoas pensa naquela coluna diária de jornal ou aplicativo que diz como será o seu dia com base no signo solar. Mas por trás dessa astrologia "de entretenimento" existe uma história bem mais profunda — e até um tanto dramática. E ela passa diretamente por um nome: Alan Leo.

Se você nunca ouviu falar dele, não se preocupe. Ele é praticamente o “pai invisível” da astrologia moderna, o responsável por tirar a astrologia do campo das previsões fatalistas e colocá-la no universo do autoconhecimento. Só que essa mudança não foi por acaso — foi consequência de um processo judicial real, movido contra ele em plena Londres do início do século XX.

Mas vamos por partes. As coisas não nascem "do nada" e uma longa cadeia de eventos merece ser destrinchada para entendermos aonde chegamos hoje.

Tudo começa na Inglaterra.

Breve história da Astrologia Inglesa

Durante séculos, astrólogos ingleses atuaram livremente. Desde a Idade Média, passando pelos tempos elisabetanos, era comum ver previsões em almanaques, astrólogos trabalhando com médicos e até mesmo influenciando decisões políticas. O protestantismo tinha tudo para não tolerar a astrologia, mas não foi isso que aconteceu.

Henrique VIII rompe com Roma e cria a Igreja Anglicana (1534). Mesmo assim, a astrologia continua firme e forte, principalmente nas cortes e universidades. Astrólogos como John Dee (conselheiro de Elizabeth I) eram figuras respeitadíssimas, misturando astrologia, alquimia e matemática. A astrologia era considerada parte do saber erudito, usada por médicos, nobres e militares. Mesmo com o protestantismo oficial, não houve perseguição direta à astrologia nessa fase. Ela era útil demais — inclusive usada para prever batalhas e nas decisões de Estado.

Durante as Guerras Civis Inglesas (1642–1651), astrólogos como William Lilly faziam previsões políticas nos panfletos. Lilly, inclusive, previu o grande incêndio de Londres (1666). A astrologia ainda era tolerada, mas começou a ser vista como “arma ideológica perigosa”. Com o avanço do racionalismo científico (Boyle, Newton) e do protestantismo puritano, a astrologia passou a ser atacada como superstição vulgar. Ainda havia espaço, mas começava uma guinada de desconfiança. A astrologia deixa de ser “ciência” e vira “crendice”.

Século XVIII – Iluminismo e repressão cultural

A influência do deísmo, do empirismo e do racionalismo protestante coloca a astrologia no mesmo saco que bruxaria e alquimia. A elite protestante vê a astrologia como resquício da ignorância medieval. Surge uma onda de leis contra fraudes, imposturas e charlatanismo, principalmente no século XIX — preparando o terreno para o Vagrancy Act de 1824. 

"Vagrancy Act" ou "Lei da Vadiagem"

Em 1824, o Reino Unido criou o Vagrancy Act — uma lei para combater a vadiagem, mendicância e práticas que, segundo o governo, ameaçavam a ordem pública. E adivinha o que entrava nesse balaio? Cartomantes, videntes, médiuns e... astrólogos que afirmassem prever o futuro. A lógica era simples (e cruel): se você dizia saber o que ia acontecer na vida de alguém, mesmo sem enganar ou causar prejuízo, isso já era ilegal. 

Perceba implícito aqui o teor cristão da lei. O VA foi criado antes da era vitoriana e do movimento positivista surgirem. Portanto, não podemos dizer que o moralismo vitoriano e o ideário positivista foram motivações para sua criação. O que nos é certo é que a Bíblia condena qualquer tipo de adivinhação, e isso já era sabido de longa data. Soma-se a isso o descrédito que a astrologia vinha recebendo desde o advento do iluminismo, e temos dois impulsionadores bem convincentes para entendermos a promulgação da lei. 

Mas não haveria uma lei se não houvesse uma motivação econômica. O dinheiro manda e cria novos bodes expiatórios cada dia que passa.

O Vagrancy Act é uma daquelas canetadas inúteis típicas dos governos para tentar resolver um problema de cima pra baixo, o que nunca dá certo. Visava pressionar o povo a largar os "subempregos" (na falta de um nome melhor) para procurarem as fábricas. Entretanto, isso saiu como amarrar o poste ao cachorro: as pessoas não estavam "vadiando" porque não queriam trabalhar: elas procuravam emprego, mas não havia!

O Vagrancy Act era uma resposta estatal ao cenário socioeconômico que se desenhava na Inglaterra do século XIX pós guerras Napoleônicas (1815 em diante). A Inglaterra havia saído vitoriosa, mas devastada economicamente. Milhares de soldados voltaram do front sem emprego, sem terra e sem assistência. O país foi tomado por desemprego em massa, aumento da pobreza e falta de oportunidades reais para as classes baixas. A falta de oportunidades instigou toda a sorte de esforços por parte da massa para sobreviver, sendo as formas de adivinhação algumas delas. 

A ocorrência do Vagrancy Act é um flagrante que a astrologia inglesa era popular, bem mais aproximada das classes menos favorecidas. Ao contrário do que vemos alguns astrólogos repetindo por aí (eu incluso), a elitização da astrologia é verdadeira apenas na Idade Média. Desde sua gênese, durante o período helenístico (séculos II a.C.  a VI d.C.) ela já era mais próxima das massas - vide o grande número de registros de mapas com biografias de personagens cujas vidas eram cheias de revezes, como pessoas que se tornavam escravas por dívidas.

O nascimento de Alan Leo

Alan Leo nasceu em 1860, numa Londres onde a astrologia já estava meio escondida, mas viva. Ele cresceu, estudou, se encantou com a Teosofia, começou a publicar livros e fundou uma revista chamada Modern Astrology. Seu objetivo era claro: popularizar a astrologia como uma ciência espiritual, ligada à evolução da alma e à psicologia.

E conseguiu. Em pouco tempo, Leo vendia milhares de mapas natais, fazia horóscopos por correspondência e reunia multidões interessadas em astrologia. Foi aí que chamou atenção demais.

O primeiro processo – 1914

Em 1914, Alan Leo foi processado pela primeira vez. O motivo? Enviar previsões por escrito para um cliente. O Vagrancy Act já estava em vigor há 90 anos. 

Ele foi absolvido, com um argumento engenhoso: “Eu não estou prevendo o futuro. Estou descrevendo tendências de caráter.”

Essa vitória abriu uma brecha e plantou a semente da astrologia psicológica. Mas o Estado britânico não esqueceu.

O segundo processo – 1917

Três anos depois, ele caiu numa armadilha. Um agente da polícia disfarçado encomendou um mapa astral. Alan Leo respondeu com uma frase que dizia algo como:

“Há a possibilidade de uma perda familiar por morte.”

Mesmo sendo uma previsão genérica, isso bastou. Ele foi condenado sob o mesmo Vagrancy Act de 1824 — e multado.

Curiosamente, ninguém reclamou da previsão. Não houve cliente ofendido. Foi uma ação movida pelo próprio Estado. O julgamento não julgou se ele estava certo ou errado, apenas o fato de ele ter dito algo sobre o futuro. E nunca saberemos se esse policial perdeu ou não um parente à época.

A virada histórica

Depois disso, Leo entendeu: se quisesse que a astrologia sobrevivesse, ela teria que mudar de roupa. Nada mais de previsão direta, nada mais de “vai acontecer isso ou aquilo”. Em vez disso, passou a focar em:

  • Potencialidades do mapa;

  • Traços de personalidade;

  • Caminhos de desenvolvimento da alma.

Essa reformulação abriu caminho para toda a astrologia que dominaria o século XX: humanista, psicológica, voltada para o autoconhecimento. Gente como Dane Rudhyar, Carl Jung e Liz Greene beberiam dessa nova fonte. Incluindo horóscopos de jornal - algo que merece um texto à parte.

A astrologia "tradicional" também tem instrumentos para a análise do temperamento, comportamento e motivações do indivíduo, mas o faz de maneira mais circunscrita a um ou dois significadores planetários. Enquanto a astrologia tradicional considera um ou dois planetas como significantes psicológicos, a astrologia moderna converteu o mapa inteiro como um representante da psique.

O legado de Alan Leo

Não podemos afirmar que Alan Leo tenha morrido por causa da condenação. Entretanto, é tentador pensar que o segundo processo o estressou suficientemente para que, no mesmo ano, morresse de AVC. Vítima das circunstâncias, ele deixou um legado que, a meu ver, considero infeliz: a limitação da arte astrológica no imaginário coletivo. 

A mudança que ele promoveu moldou tudo o que a astrologia viria a ser no século XX e XXI. Ele foi acusado, não porque errou uma previsão, mas porque ousou praticar astrologia publicamente num mundo que ainda a via como superstição perigosa. E foi justamente essa perseguição que obrigou a astrologia a se reinventar. 

E foi uma reinvenção varrendo muita coisa proveitosa pra debaixo de um tapete que Olivia Barclay, John Frawley, Deborah Houlding e tantos outros astrólogos britânicos (e não britânicos também) insistiram em levantar. E levantam até hoje.

Astrologia é muito mais do que uma leitura comportamental ou uma ferramenta para desenvolvimento pessoal.

14 de abr. de 2025

A Estrela Que Se Tinge de Branco: Reflexão sobre Anúbio e as Horas Planetárias

No primeiro fragmento do Carmen Astrologicum Elegiacum, Anúbio nos oferece uma imagem de rara beleza e ambiguidade simbólica:

Ἀστὴρ ἐν ὥρῃ λευκῇ χρωίζεται· ἤπερ ἔπειτα
τῆς ψυχῆς προοίμιον ἢ τὸ μέλημα Διός.

"A estrela, em sua hora, se tinge de branco; e então,
é o prelúdio da alma ou o canto de Zeus."


Ao refletir sobre esse dístico, é possível propor que Anúbio esteja se referindo à hora planetária — um conceito central na astrologia helenística que define momentos do dia governados ritmicamente pelos sete planetas visíveis. Essa interpretação é sustentada pelo uso da palavra ὥρα (hōra), que no contexto astrológico pode indicar tanto uma hora do dia quanto um período sob influência específica de um planeta (hora Saturni, hora Martis, etc.).

A expressão “se tinge de branco” (λευκῇ χρωίζεται) carrega uma ambiguidade rica e deliberada. Por um lado, pode sugerir que os significados planetários, quando manifestos em sua própria hora, tornam-se mais construtivos, virtuosos, ou arquetipicamente puros — mesmo nos casos de planetas tradicionalmente considerados maléficos. Por outro lado, também pode ser uma referência astronômica à aparição visual de um planeta após um período de invisibilidade, ou seja, uma phásis, quando o planeta emerge dos raios do Sol e volta a ser visível, geralmente brilhando com força — “tingido de branco” pela luz que o envolve no céu.

No mundo greco-romano e egípcio do século I–II d.C., a cor branca era símbolo de pureza ritual, favor divino, clareza e luz solar — conotações todas ligadas à harmonia cósmica e à revelação oracular. O branco era usado em sacrifícios, vestes sacerdotais e descrições de deuses benévolos.

Essa riqueza simbólica levanta uma questão fundamental na leitura de textos astrológicos em forma poética: estamos diante de uma imagem criada apenas para provocar beleza e comoção estética, ou há aqui um ensinamento técnico cifrado em linguagem simbólica? No caso do poema de Anúbio, cuja obra integra um corpus astrológico e foi citada por autores como Hephaestio e Firmicus Maternus, a hipótese mais consistente é a de que essas imagens poéticas não estão dissociadas da doutrina astrológica, mas sim traduzem seus princípios por meio de metáforas e alusões sutis. Em outras palavras, trata-se de poesia com função pedagógica e iniciática, cuja beleza serve de veículo para o conhecimento oculto.

Sob essas óticas combinadas, “tingir-se de branco” pode significar que o planeta, ao atuar em sua hora ou ao emergir em sua phásis, revela sua essência plena — ainda que normalmente seja classificado como maléfico. Assim, Saturno ou Marte, em sua hora ou visivelmente manifestos no céu, podem adquirir um brilho especial, uma função construtiva, organizadora, espiritual até. Eles “cantam o canto de Zeus” — ou seja, tornam-se instrumentos do logos divino, parte da harmonia universal.

Dessa forma, o verso de Anúbio pode conter uma verdade astrológica profunda:
O planeta em sua hora, ainda que seja severo ou difícil, pode se tornar uma via de expressão da alma e do destino divino.
Na perspectiva da filosofia neoplatônica, mesmo os corpos celestes de natureza considerada difícil ou maléfica são, em essência, manifestações de um Bem mais elevado. Quando um planeta age em sua própria hora, ele participa mais perfeitamente da Ideia que o governa — torna-se, assim, um canal ordenado do Nous para o mundo sensível. Ainda que Saturno imponha limites ou Marte introduza conflito, ao se manifestarem no tempo que lhes é próprio, esses planetas realizam a vontade do Intelecto divino ao infundir na alma encarnada uma forma particular de ordem, coragem ou sabedoria através das provações da existência. Sua influência, longe de ser um mal em si, pode ser compreendida como o projeto da alma que busca a realização do Uno por meio da expressão de sua natureza celeste.

Portanto, nascer na hora de Saturno não seria sinal de má sorte — ao contrário, poderia apontar para uma alma marcada pela disciplina, pela seriedade e por uma vocação profunda para o tempo e a eternidade, desde que Saturno esteja funcional. Anúbio, com apenas dois versos, nos oferece uma visão visionária: a de que a beleza do cosmos se manifesta quando compreendemos o tempo certo de cada estrela — mesmo as mais sombrias.

No contexto da filosofia neoplatônica — especialmente em Plotino, Porfírio e Proclo — o Nous (νοῦς) é o Intelecto divino, a segunda hipóstase da realidade, que emana do Uno (τὸ ἕν). Ele é o domínio das Ideias eternas e perfeitas, o plano arquetípico que contém todas as formas do ser.

Em termos simples:

  • O Uno é o princípio supremo, acima de toda definição, fonte da unidade absoluta;
  • O Nous é o primeiro desdobramento do Uno, contendo os arquétipos, os modelos inteligíveis de tudo que existe;
  • A Alma do Mundo (Psykhē) emana do Nous e anima o cosmos sensível, transmitindo as formas à matéria.

Aplicado à astrologia:

Quando dizemos que um planeta age como “canal do Nous”, queremos dizer que ele expressa no plano visível uma ideia arquetípica — por exemplo:

  • Saturno, no Nous, é a Ideia da estrutura, do tempo, do limite, da contemplação silenciosa;
  • Marte é a Ideia da ação decisiva, coragem, combate espiritual;
  • Vênus representa a harmonia, a coesão, a beleza que une.

Uma interpretação muito plausível destes dois versos de Anubio é esta. Quando um planeta atua “em sua hora” (como o texto do Anúbio sugere), ele reflete com mais pureza sua Ideia no plano material, mesmo que seja um planeta considerado maléfico. Ele participa mais diretamente da inteligência ordenadora do cosmos, e sua atuação se aproxima de um projeto espiritual — aquilo que a alma escolheu para se desenvolver ao longo de sua encarnação.

24 de set. de 2024

Quais livros eu mais usei na minha prática (de verdade)?

Estou pensando qual foi o livro de astrologia que eu mais usei e que me deu os melhores resultados.

De astrologia horária, são os livros de Masha'Allah (On Reception) e John Frawley, os dois empatados.

De revolução solar, o "Minha vida perante os astros" e o Livro 23 do Astrologia Gallica, além do livro de Revoluções Solares do Abu Ma'Shar.

Estes livros estão em ordem decrescente de quantidade de ideias que me foram mais úteis na minha prática. Quem disseca cada capítulo do primeiro mencionado vai aprender a ler uma Revolução combinada a direções primárias de um modo melhor que muito astrólogo figurão por aí.

De astrologia natal, vai soar vergonhoso, mas eu não sei dizer qual o livro mais importante!

Na hora de interpretar uma natividade, eu uso uma série de técnicas compiladas de diversos autores - e até hoje não estou plenamente satisfeito com nenhuma delas. Por isso que temporariamente não estou fazendo mapas natais.

Sinto que nenhum livro de astrologia natal é bom o bastante para merecer uma indicação definitiva, algo do tipo: "compre esse apenas". Minha abordagem, nesse caso, se aproxima dos estudiosos: "compre TODOS que forem surgindo ao longo dos anos, de autores até a idade média". Mas não recomendo isto se você for apenas um praticante casual.

Minha falta de indicação em livros natais vai demandar mais alguns parágrafos a seguir, porque suscita uma reflexão mais profunda.

Interpretar pode ser simples. Achar significadores que é complicado

Sinto que existe uma maneira de se interpretar o mapa natal que deve ser executada em todas os assuntos, e o autor que chegou mais perto disso foi Morinus. Só que ele não foi tão claro assim em exemplos e acho que estreitou demais sua busca.

Por exemplo, o tópico de doenças. Pela teoria das determinações planetárias dada pelo autor, doenças seriam indicadas pela Casa 6. Mas quem analisa apenas a casa 6 pode não ver coisas muito importantes - sendo que muitas vezes a casa 6 não representa doenças! Ela é o local onde Marte se regozija, é o local de má fortuna, e isto inclui uma série de azares além de doenças.

Uma pessoa pode ter sérios problemas oftalmológicos ao ter uma das "estrelas que ferem os olhos" no ascendente, portanto nada a ver com a Casa 6 - e os meus críticos dirão que isso é óbvio porque o Ascendente representa o corpo físico - logo, o que eu falei não seria nada de novo.

Mas eu acredito que nem mesmo estes críticos saibam analisar o Ascendente para se checar doenças, no típico caso de "chegar até a ilha do tesouro mas não saber onde o tesouro está" - algo que ocorre o tempo todo com astrólogos: não basta saber quais os significadores, mas como se deve analisá-los.

Eu sinto que basicamente, uma boa leitura natal deve compreender o entendimento amplamente conhecido das casas, conjugado a um entendimento profundo das indicações das estrelas fixas (geral e específico, pois há estrelas que causam danos específicos, como as mencionadas) e, da mesma forma que as estrelas, um entendimento tanto geral quanto específico do que os planetas representam. Adquirir estes dois últimos dependem unicamente da experiência e da intuição do autor, porque os autores ao longo dos séculos apenas deram os significados mais gerais.

Por exemplo, Marte é o significador essencial de irmãos na astrologia. Entretanto, Rhetorius nos diz que a Lua representa irmãs mais velhas, Vênus irmãs mais novas, Saturno e o Sol irmãos mais velhos, etc. Ou seja, o significador geral de irmãos é Marte, mas cada planeta contempla uma significação específica dentro deste tópico! E, infelizmente, apenas nos tópicos de irmãos e de filhos é que tomamos conhecimento dessas distinções!

Fico a pensar se o mesmo raciocínio acima poderia ser aplicado com qualquer assunto. Por exemplo, dizem que o Sol é o olho direito no homem (e o esquerdo na mulher). Mas, dentro dos olhos, qual planeta representaria a retina? Mais ainda: será correto estender esse raciocínio dos significadores específicos para qualquer tema? 

Colocando isto no contexto do estudo de doenças: Se ainda temos dificuldade em saber qual seria um significador ideal para um determinado órgão (autores divergem em muitos casos ou sequer os citam), mais difícil ainda seria deduzir qual seria os significadores para estruturas específicas desde mesmo órgão!

Indicando um livro batido e subestimado

Deixando de lado a complicação dos significadores por enquanto, voltemos ao que seria uma indicação de livro natal inusitada. Durante muitos anos, eu evitei me aprofundar muito neste livro que vou indicar por pensar ser uma obra bastante enviesada, mas meu pensamento tem mudado. No ano em que escrevo este texto (2024), tenho a intuição de que devemos insistir com o Tetrabiblos de Ptolomeu e com o Carmen Astrologicum, ou Pentateuco, de Doroteu de Sidon - entretanto, se for pra se concentrar e fazer a coisa direito, por enquanto, eu insistiria apenas com Ptolomeu.

De fato, Ptolomeu pode ter reformado a astrologia para se adequar ao seu pensamento naturalista aristotélico, mas muito do que ele trazia era coisa oriunda dos "fundadores" deste saber. Hefaísto de Tebas defendeu este ponto de vista dizendo que vários trechos de Ptolomeu são paráfrases do enorme livro de natividades do faraó Nechepso e do seu escriba Petosiris, que seria em tese o primeiro livro de astrologia natal. Portanto, a meu ver, é preciso desbravar o pedantismo e a inespecificidade do texto de Ptolomeu.

Para tanto, é mister uma tradução minimamente decente. Eu insistiria nas traduções mais recentes, a partir de Robert Schmidt - e não apenas este, mas qualquer tradutor de Ptolomeu que tenha surgido depois dele, de preferência astrólogo. E também incluiria traduções de comentaristas historicamente próximos de Ptolomeu, como Porfírio e Hefaísto de Tebas (que comenta não apenas Ptolomeu, mas também Doroteu).

7 de nov. de 2023

Parâmetros diferentes mudam o julgamento? Astrologia Clássica na Itália.


Atenção: o texto só é plenamente compreensível lendo-se as notas de rodapé à medida em que elas surjam. Não recomendo adiar sua leitura.

Recentemente, tenho me dedicado a estudar mais a fundo a produção dos astrólogos italianos de inspiração clássica. Conheço-os há mais de dez anos, mas havia tanto o que ser lido em inglês - língua que me é mais acessível - que negligenciei por um bom tempo o que eles fizeram e fazem até hoje.

Quem são os astrólogos clássicos italianos? Eu teria alguns que me admiro pelo que escrevem e pelo horizonte que descortinaram diante dos meus olhos: citaria o trabalho de Mario Constantino, Giacomo Albano, Margherita Fiorello, Giancarlo Ufficiale e Corrias Fabrizio (da escola de astrologia Almugea), e, no topo de todos eles - reconhecido pelos próprios - o grande Giuseppe Bezza, bem como Marco Fumagalli, da Escola de Astrologia e site Cielo e Terra.

O que tem me impressionado nestes autores, em síntese, são o rigor em seguir a interpretação clássica e os procedimentos de cálculo mais complexos e que entregam resultados discretamente diferentes. Essa diferença discreta, no entanto, pode gerar resultados diferentes na interpretação. Abaixo, posso listar alguns exemplos:

  1. O cálculo das Partes Árabes é realizado segundo Plácido e leva em conta parâmetros de cálculo do céu local do observador ao invés da longitude zodiacal. Como veremos no exemplo abaixo, isso pode fazer diferença na interpretação.
  2. O cálculo das profecções também leva em conta o primeiro movimento (aquele que “arrasta” as estrelas do leste ao oeste) e não a longitude zodiacal. Este cálculo já era citado por Ibn Ezra (século XIII) e foi aprofundado também por Plácido (Século XVII).
  3. Há a inclusão de configurações interplanetárias como paralelos, contraparalelos de declinação e equidistância horária, que significam a mesma coisa que aspectos.
  4. Parece-me que quase todos esses astrólogos defendem que o zodíaco deve ser invertido no Hemisfério Sul - conselho que, se não seguido à risca, não impede de desfrutarmos e testarmos os diferentes parâmetros acima, já que tudo que foi mencionado aqui funciona de modo independente.

Como semelhanças com a astrologia clássica praticada no resto do mundo, estes astrólogos usam o zodíaco tropical e tentam seguir o que está nos mesmos livros de referência da tradição astrológica: Ptolomeu, Rhetorius, Vettius Valens, Firmicus Maternus, et cetera. 1

Enfim, se eu pudesse sintetizar a experiência: o que um astrólogo acostumado com o que se faz nos Estados Unidos e no Brasil acha de diferente ou de mais saliente na astrologia clássica feita na Itália?

Resumiria que eles procuram seguir fielmente a teoria de interpretação astrológica dos clássicos (Ptolomeu, Paulo de Alexandria, Rhetorius et cetera), e na hora dos métodos de cálculo empregados para Partes Árabes e técnicas preditivas (como a profecção), procuram fazer tudo segundo as recomendações de Plácido de Tito.

Enquanto a astrologia ocidental em geral usa Placidus apenas para calcular as casas, os astrólogos italianos seguem o script placidiano completo: TUDO é calculado levando em conta o céu do observador, entregando uma experiência muito mais particular à localidade do nascido2.

Um exemplo do exposto

Como tudo que eu faço neste blogue, nada melhor que um exemplo para que vocês vejam a diferença.

Posto aqui um mapa3 de exemplo extraído da página em que Bezza explica como se calcula a profecção anual em natividades:

Gostaria que o leitor prestasse atenção nas posições em graus dos lotes em geral no mapa acima (as posições marcadas por palavras seguidas de graus ao lado), de modo a comparar com o mesmo mapa (mesma data, hora e local de nascimento), porém calculado no programa Janus:


A maioria dos lotes de ambas as figuras usam os mesmos planetas e o Ascendente no cálculo4. Entretanto, a diferença das suas posições nas duas figuras é discreta. Em alguns casos, ele difere apenas 2˚; em outros, os lotes mudam de signo. É o caso do Lote da mãe: na figura do site de Bezza, ele se encontra no começo de Leão, enquanto na figura do Janus ele está em 7˚ Virgem!

Com isso, já fica saliente a primeira grande diferença entre a astrologia dita clássica do resto do ocidente contra a astrologia italiana: estes astrólogos não calculam Partes Árabes a partir de coordenadas zodiacais (a longitude zodiacal dos pontos envolvidos na equação do lote), mas de coordenadas do céu local5.

O artigo de onde extraí a figura é um exemplo de como deve ser calculada a profecção no mapa natal; entretanto, antes de se julgar as previsões, Bezza se atenta ao passo primordial mais importante da astrologia clássica: técnicas preditivas só podem mostrar quando acontecerá o que está prometido na natividade. Estando na Itália, no Brasil ou no Sudão, me parece que todos os astrólogos de inspiração tradicional concordam com este preceito. Portanto, o primeiro passo é delinear a natividade.

O exemplo que Bezza nos traz é uma infeliz ocasião na qual a nascida foi violentada por um grupo de jovens em Roma. Primeiramente, ele checa no mapa natal se há algum risco dela sofrer uma violência sexual ao longo da vida. 6. Aqui vai minha paráfrase ao comentário de Bezza sobre a genitura.

Primeiro, talvez por uma influência pervasiva da psicanálise até mesmo no discurso astrológico clássico contemporâneo, Bezza investiga o papel do pai na vida desta moça7. A oposição do sol a Marte em signos contrários (marte em detrimento) indica um pai fraco em suas atribuições paternas (posto que ♂ é mais inclinado a cortar vínculos do que se aderir a eles) e violento.8.

Essa relação entre o Sol e Marte como indicadora de traços paternos fica mais clara quando percebemos que Marte está em ☌ ao Lote do Pai com orbe de aprox. 8˚ (usando como referência o mapa que Bezza postou).

Marte é um planeta noturno e angular numa genitura diurna. A contrariedade de séquito deste planeta o predispõe a violência. Leitura mais tradicional que isso, impossível. Note que Bezza não está preocupado em saber qual casa Marte rege. Como Marte está configurado com significadores paternos, o autor procura ligar os significados essenciais de marte que interessam ao tema do pai - um conselho que recomendo em qualquer análise.

Por marte estar configurado com dois significadores paternos (O Sol e o Lote do Pai), concluímos que o pai foi uma pessoa que cuidou pouco da família e que, além disso, foi adúltero: para explicar isto, Bezza diz que Marte está configurado com Vênus por declinação 9, mas para mim isso é claro porque Marte está no signo de Vênus, e permutações de domicílio ou termos entre estes dois planetas significam vexame por atividade venérea excessiva. 10

Bezza também diz que os pais não concordam entre si porque o Lote do Pai está em □ com o Lote da Mãe: Se usarmos o cálculo Placidiano dos Lotes - que leva em conta parâmetros do céu local, e não a longitude zodiacal, isso é verdade. Calculando os lotes usando apenas as longitudes zodiacais - aquilo que a maioria dos programas de astrologia faz - o Lote do Pai está em △ com o Lote da Mãe. A falta de concórdia entre os pais também pode ser simbolizada pela a ausência de aspectos entre a Lua e o Sol, e isso é intensificado mais ainda pelo testemunho de Marte: o planeta vermelho faz uma oposição ao Sol e está em equidistância horizontal com a Lua11.

Agora, a explicação da promessa do evento. Investigamos as instâncias do sexo na vida da pessoa - sejam elas experiências desejadas ou não - pelo significador essencial de sexo e desejo, que é o planeta ♀. Nota-se que ♀ é ocultada pelos raios do ☉ e está em ☌ com as estrelas da testa da constelação do Escorpião12, de natureza de ♄ e de ♂ e muito próximo do lote de ♄, Nêmesis, em 0˚ Sagitário pelo cálculo Placidiano de Lotes13. Tudo isso ocorre muito próximo da cúspide da Casa 8 (orbe de 3˚), a casa que representa angústias mentais, morte ou sofrimentos quase mortais.

Para completar, ♀ rege o Lote do Casamento das Mulheres, presente em ♉ tanto na figura calculada pelo Janus quanto pela figura do site italiano. O Lote do Casamento fala não apenas de casamentos, mas de qualquer união com um parceiro por questões afetivas. Ter esta ♀ regendo o lote liga esse tema a violência - o que pode indicar que o estupro partiu de um parceiro, e não de um homem desconhecido na rua14.

Conclusão, (como sempre, temporária…)

Eu tenho 20 anos de astrologia. Já passei da fase de me iludir achando que vou encontrar o Santo Graal numa técnica secreta ou pouco conhecida, ou em procedimentos alternativos de cálculo do mapa. Minhas retinas cansadas já viram todo o tipo de variação de cálculo astrológico: zodíaco sideral, zodíaco tropical, direções primárias in mundo ou zodiacais, profecções mundanas ou tropicais, zodíaco tropical invertido ou não no hemisfério sul, e por aí vai… Longe de aderir imediatamente a tais procedimentos, ainda estou na fase de conhecê-los antes de emitir qualquer julgamento.

De qualquer forma, sempre é bom procurar conhecer o máximo possível das variações de uma mesma técnica para sabermos o que funciona melhor na prática. Tudo se resume a isto: funcionar melhor na prática nada mais é do que os planetas se sincronizarem do modo mais perfeito à experiência de vida do consulente. Todo esse blogue, toda essa parafernália que monto em torno da astrologia, é simplesmente para encontrar isso.

Qualquer parâmetro de análise divergente do que se faz hegemonicamente na astrologia ao redor do mundo gera alguma mudança na interpretação dos mapas do astrólogo. O espectro dessa mudança no resultado final da interpretação pode ser bem variável, a depender do mapa: elas podem alterar radicalmente a interpretação ou apenas incliná-la mais para um lado que a interpretação com parâmetros hegemônicos já havia encontrado. É por isso que nem sempre estamos perdendo 100% da informação essencial ao preferirmos este ou aquele método de cálculo.

No exemplo acima, a mulher tem pais que brigam porque possuem os lotes em quadratura e os luminares sem configuração e ambos em algum tipo de contato com ♂; se usássemos os lotes com cálculo zodiacal (o parâmetro mais comum fora da Itália), poderíamos chegar à mesma conclusão, de forma mais fraca, já que os luminares não estão configurados entre si e isso não mudaria.

Muitos astrólogos preferem acreditar que a maior mudança necessária na interpretação não depende da mudança de métodos de cálculo, mas dos princípios de interpretação sobre os quais o astrólogo alicerça seus julgamentos. Minha visão tende a ser integradora: considero possível que, além de ser indispensável usarmos os princípios corretos de interpretação, talvez métodos de cálculo diferentes entreguem resultados melhores.

Notas de rodapé


  1. Percebo que eles tem um pouco de antipatia com Morin de Villefranche, mas nem mesmo franceses gostam de si mesmos… Brincadeiras à parte, eles preferem autores renascentistas italianos ao invés do autor francês.  ↩

  2. talvez alguns astrólogos possam discordar de parte desta metodologia, mas estou descrevendo aquilo que Giuseppe Bezza recomendava. Sendo ele uma grande influência destes astrólogos e, como o fruto não cai muito distante da árvore, por hora, deduzo que há pouca diferença entre o que ele e seus discípulos fazem  ↩

  3. não pedi permissão do site deles devido à frequente demora dos mesmos em responder, mas de qualquer forma, informo aqui o link de onde o extraí: http://www.cieloeterra.it/articoli.profezione/profezione.html  ↩

  4. talvez Bezza calcule diferentemente alguns dos sete lotes herméticos - Eros, Vitória, Nêmesis et cetera - não posso afirmar com certeza ainda  ↩

  5. Bezza explica isto no link http://www.cieloeterra.it/articoli.sorti/sorti.html  ↩

  6. isto não deve ser confundido com buscar culpabilidade da vítima  ↩

  7. não sei se iria por este caminho. Explorar o perfil psicológico da mulher só faz sentido se o estupro coletivo partiu do seu parceiro e apenas se ela possuísse uma tendência de se relacionar com homens violentos. Se o estupro foi por desconhecidos, é uma questão tão somente de segurança pública.  ↩

  8. Note que o Sol possui mais um testemunho, a co-presença de Júpiter - no entanto, isto parece não corroborar muito com o destino relacionado ao pai, o apenas o remedie após tê-lo ocorrido, como acontece com aspectos e conjunções com orbes mais distantes.  ↩

  9. Declinação é a distância de um ponto do Equador Celeste, medida em graus. A declinação de Marte é de +18 e a de Vênus de -20. Usando uma orbe de 2˚, pode-se dizer que estão contraparalelos e isso tem o efeito de uma oposição  ↩

  10. no caso, a mulher em questão sofre violência sexual de um grupo de jovens e isso é outro exemplo desta permutação. Veremos frequentemente essas repetições ocorrendo na astrologia, com dinâmicas parecidas com o que ocorre na psicanálise: Tanto o pai adúltero quanto a mulher violentada representam instâncias do excesso de atividade venérea, ou de atividades venéreas socialmente inadequadas - simbolizadas na astrologia como dois significadores diferentes sendo afetados pelo mesmo planeta capaz de representar isto, um ♂ angular em signo de ♀ contrário ao séquito do mapa .  ↩

  11. não costumo usar esta configuração, mas ela funciona como se fosse uma conjunção entre os planetas. Dois planetas estão com a mesma distância horizontal se ambos estão com a mesma distância horária acima e abaixo do ascendente. Este parâmetro não deve ser calculado usando graus zodiacais.  ↩

  12. Dschubba, em 01˚♐, creditada com a habilidade de pesquisa e investigação, mas também demonstra violência, inclinações destrutivas, crueldade e imoralidade, dada a natureza ♂/♄. Além disso, em 02˚ ♐ encontramos Graffias, também da testa do Escorpião, de mesma natureza, indicando malícia e crueldade.  ↩

  13. Calculando-o a partir das longitudes zodiacais, Nêmesis está em 17˚♑, em ☌ com o Meio do Céu  ↩

  14. e talvez isso justifique o procedimento de Bezza em incluir a análise do Sol  ↩

Carta de ingresso do Sol em Áries para o Brasil em 2026

1º de Maio completou-se 21 anos da existência desse blogue e, em comemoração à sua maturidade, apresento este artigo. Vamos delinear a carta...