"você reclama do meu apogeu" - seu uso na astrologia

É... até parece que o amor não deu

Até parece que não soube amar

Você reclama do meu apogeu

Do meu apogeu

E todo o céu vai desabar

Ai desabou
Arte popular 

Lendo os textos introdutórios da astrologia, nos deparamos com uma série de conceitos que são praticamente esquecidos hoje. O apogeu é um deles.

Apogeu é, literalmente, quando o planeta está mais distante da Terra. Seu oposto é o Perigeu.

Provavelmente, ele não deve ser tão importante assim. Eu vivi anos e anos sem usar apogeu pra nada, acertei e errei previsões, e provavelmente as causas dos erros e dos acertos passam longe de se aplicá-lo ou não... Mas quem quer desbravar a astrologia, nos seus diversos ramos, precisa estar munido do maior número de definições possíveis, de modo a entender quando as mesmas são citadas. O apogeu é um conceito que pode ser importante na avaliação de conjunções e na atribuição das qualidades a um planeta (quente, frio, seco, úmido).

O problema da sua definição é que eu me deparo com duas definições do mesmo, uma no livro da Helena Avelar e do Luís Ribeiro (Tratado das Esferas), e outra no Introductions to Astrology: Abu Ma'Shar and Al Qabisi, uma compilação de definições astrológicas editada pelo incansável Benjamin Dykes.

O primeiro livro citado, de Helena & Luís, coloca o apogeu simplesmente como o momento em que o planeta está em conjunção com o Sol, o que o coloca imediatamente em oposição ao planeta Terra e, portanto, mais distante da gente. Simples, mas é uma condição embutida noutra, o que nos deixa de mãos atadas para testar sua função enquanto variável independente. Uma vez que o apogeu é considerado uma boa qualificação na descrição de um planeta, será que essa seria uma das razões para entender que o Cazimi (quando o planeta está no mesmo grau que o Sol) seja um critério de força?

A segunda definição de apogeu que apresentarei, na verdade é, historicamente, a mais antiga. Vem dele mesmo, nosso querido Ptolomeu. E haja paciência pra mostrar a vocês como funciona.

Astronomia Ptolomaica in a nutshell

Ptolomeu utilizava formas consideradas perfeitas para entender o cosmos. A ideia de perfeição é uma "mania" antiga dos Gregos, muito presente na obra de Platão. Os planetas - incluindo Sol e Lua - eram considerados esferas perfeitas, constituídas de um material etéreo, cujas influências eram transmitidas à Terra por intermédio da Lua, que usava como material os quatro elementos do planeta e gerava formas imperfeitas, oriundas das ideias perfeitas representadas pelos planetas.

(Digressãozinha: É por isso que alguns autores ficavam meio cabreiros de julgar os significados lunares em alguns textos, ou até mesmo de dar à Lua a regência do ano pela profecção, porque sua simbologia é quase sempre misturada com os planetas com os quais ela entra em contato por aspecto ou conjunção numa dada carta.)

As formas terrenas das pessoas, dos animais, das planetas e das coisas, seriam imitações imperfeitas das formas eternas, e sujeitas à geração e corrupção no nosso mundo, chamado carinhosamente de mundo sublunar.

As pessoas acreditavam tanto nesses conceitos que, quando Galileu popularizou o telescópio e mostrou que a Lua estava cheia de crateras e vales, muito parecidos com o relevo terreno, foi uma decepção geral com a teoria das esferas dos planetas. Afinal de contas, pensavam que a Lua era uma enorme Genki Dama etérea, perfeita e linda.

Graças a evidências como a Lua esburacada de Galileu, pouco a pouco, a astronomia que ficou em voga por 1400 anos estava perdendo credibilidade ante aos estudiosos. E o descrédito à astrologia acabou vindo junto, aos poucos também.

Ora bolas, digo, ora círculos.

Nada de elipses, trazidas até nós por Kepler: círculos, círculos, muitos círculos. Ah, segmentos de reta também. Portanto, é de se imaginar o esforço que Ptolomeu fez para entender os movimentos irregulares dos planetas.

Ao invés de uma simples órbita planetária elíptica, Ptolomeu coloca a órbita do planeta - circular, óbvio, e chamada de deferente - girando em torno de um ponto que não era a própria Terra, mas próximo da mesma, chamada de "excêntrico":




Lembre-se, o modelo é geocêntrico, a Terra estaria parada e os planetas girariam ao redor dela, mas com um porém: eles não girariam exatamente em torno dela, como se o centro dos raios de suas órbitas se alinhassem com o centro da Terra. Não, a Terra apenas estaria próxima do centro da órbita deles, o nosso "Excêntrico".

O apogeu seria o ponto da deferente mais distante da Terra:



Um planeta em seu apogeu está pequeno em luz, magnitude e número. Entenda por 'número' que a velocidade do planeta diminuiria quando estivesse no seu apogeu o que, em outras palavras, significa que ele estaria subtrativo em números. Subtrativo porque se subtrairia dos números da sua velocidade média diária. Soma-se a isso que, por estar mais distante da Terra, seu brilho e seu tamanho seriam menores.



Quando considerar que a velocidade do planeta e seu tamanho passariam a diminuir? A partir da linha vermelha vertical da ilustração, quando o planeta vai em direção ao seu apogeu.
Lembrando que os movimentos retrógrados dos planetas não teriam a ver necessariamente com o apogeu. A velocidade do planeta é afetada por dois fatores: pela sua posição na deferente em relação ao apogeu (o que estamos estudando agora) e sua posição em relação ao Sol. Os planetas superiores (Júpiter, Marte, Saturno) estacionam seu movimento e passam a retrogradar quando estão em trígono superior ao sol.

Apogeus dos planetas segundo Al-Biruni, atualizado para 2010.

  • Saturno: 22°Capricórnio
  • Júpiter: 2°Libra
  • Marte: 23°30'Leão
  • Sol: 9°30' Câncer
  • Vênus: 9°30' Câncer
  • Mercúrio: 9°Escorpião
Essas posições progridem 1° zodiacal a cada 66 anos, o que dá 54 SEGUNDOS DE ARCO por ano. Então teríamos elas hoje 540 segundos a frente de 2010, o que dá 9 minutos de longitude a frente do que estariam em 2010.

Diz-se nos textos que um planeta no seu apogeu "é como um homem no seu cavalo" - tipo de analogia que não serve muito para nós, pós-modernos, mas a divulgo para pessoas mais inteligentes chegarem às suas conclusões sobre o que isso poderia representar na prática.

O fato é que o apogeu não deve ser superestimado. Ele tem aplicações específicas. É uma força usada em alguns aforismos, de modo confuso, pois nunca se sabe se o autor está se referindo a ele ou à máxima latitude norte. São coisas completamente diferentes. O apogeu é a máxima distância que um planeta tem da Terra; a latitude norte é a máxima distância que o planeta teria do zodíaco.

O apogeu seria usado para avaliar conjunções entre os planetas, confusamente dentro do celeuma com a latitude norte. Dois planetas em conjunção estão na mesma casa e no mesmo signo (na maioria dos casos), então como se sabe qual deles é o mais forte? Pela latitude ou pela proximidade do apogeu.

"Ah, eu resolvo isso vendo qual planeta tem mais dignidades" - pois é, o mais óbvio para nós seria pensar assim mas, pelo jeito, os autores não usavam isso pra comparar força nesses casos, senão eles não usariam conceitos como latitude e apogeu. Mas nos casos onde ambos os planetas estariam em signos peregrinos numa conjunção, nenhuma dignidade nos ajudaria a definir qual seria o mais forte. Quanto mais estudo, mais me parece que dignidade serve para ver o grau de responsabilidade do planeta sobre um tema, mas não propriamente força.

A próxima conjunção Júpiter-Saturno será no signo de Aquário, no final deste ano. Saturno estará muito próximo do seu apogeu (22°09' Capricórnio para 2020), e Júpiter já estaria descendo rumo ao seu perigeu, em mais da metade do caminho. Nesta conjunção, Saturno é mais forte que Júpiter, então os próximos 20 anos terão o predomínio da retração sobre a expansão, em todos os níveis sócio-econômico-culturais do mundo. Os autores antigos simplesmente diriam que, devido a proximidade de Saturno do seu apogeu em comparação a Júpiter, essa conjunção não nos seria benéfica...
Importante mencionar que este apogeu é o mencionado por Ptolomeu no Almagest, e não o apogeu moderno, que é mencionado no livro de Avelar e Ribeiro, "Tratado das Esferas". Neste livro, o apogeu é definido como o momento em que o planeta estaria em conjunção com o Sol, pois assim ele estaria em oposição ao planeta Terra, logo, mais distante de nós... Se essa definição fosse a utilizada pelos antigos, ela seria impossível se ser aplicada para discernir o poder de dois planetas em conjunção, visto que ambos estariam sempre à mesma distância do sol.









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