10 de mar. de 2026

Como Valens usava uma revolução solar? (e mais alguns princípios de interpretação)

Sempre que encontramos uma transmissão em um ciclo (seja de um ou de muitos), examinamos o horóscopo reformulado para aquele ano, particularmente os trânsitos das estrelas, para ver se eles têm uma configuração semelhante à sua configuração na natividade em relação aos transmissores e receptores, e se eles têm as mesmas fases em relação ao sol. Se isso for verdade, dizemos que os resultados são certos.

Se as configurações forem diferentes e dissimilares, os resultados não ocorrerão na íntegra: algumas coisas acontecerão de forma geral, outras parcialmente. Por exemplo: se Júpiter ou Saturno detiverem a cronocracia geral e estiverem situados favoravelmente, e se a mesma estrela controlar a cronocracia no período atual, o nativo herdará ou se beneficiará de legados. Se Saturno ou Júpiter governarem o ano no segundo ou terceiro ciclo, mas não detiverem o cronocratismo geral, o nativo não herdará, mas ganhará algo: ele se beneficiará de legados ou alguma expectativa semelhante, ou da venda de bens, propriedades e outros bens.

Nos parágrafos anteriores, conhecemos o papel que Vettius Valens dava às revoluções solares. 

Valens chama a revolução solar de antigenesis, que Mark Riley traduziu como "horóscopo reformulado". Mas também usa o termo "trânsitos das estrelas" - termo este que é mais ambíguo do que o primeiro, porque também pode se referir ao movimento real das estrelas no céu ao longo do ano, não apenas levando em conta o instante do aniversário.

Enquanto nós herdamos de Abu Ma'shar (século IX d.C.) o costume de incluir, na previsão anual, a interpretação da figura isolada da revolução solar (é claro que ele não considerava apenas isso), o costume mais antigo, já encontrado na obra de Vettius Valens (século II d.C.), era usar a revolução solar nunca isoladamente, mas apenas como um confirmador ou intensificador do que fosse encontrado através do estudo da técnica da profecção do mapa natal. Isso ficará claro a seguir.

(O nome "profecção" é medieval. Valens não dá um nome a essa técnica, mas sempre se refere a ela quando usa o verbo "transmitir".  Portanto, posso também chamar a "profecção" de "transmissão").

Mas como se dá essa confirmação? Repetindo um trechinho da citação: 

ver se eles têm uma configuração semelhante à sua configuração na natividade em relação aos transmissores e receptores, e se eles têm as mesmas fases em relação ao sol

O primeiro exemplo que me vêm à mente é considerar dois planetas em aspecto que transmitem um ao outro: Imagine um mapa natal que tenha Vênus em trígono com Saturno: 



Oh! É o meu! Que coincidência...

Agora vamos pegar um dos planetas da configuração (apenas um para exemplificar) e avançá-lo na ordem zodiacal ao ritmo de um signo por ano. Esta é a técnica da profecção/transmissão. 

Segundo Valens, quando Vênus, por profecção, chegar ao signo de Saturno - ou, nas palavras de Valens, quando "Vênus for transmitida a Saturno" - aquilo que o aspecto representa na vida da pessoa pode acontecer. Isso ocorre de 12 em 12 anos. Acontece pela primeira vez aos 8 anos, depois aos 20, 32, 44... O aspecto também pode acontecer quando "Saturno for transmitido a Vênus", aos 4, 16, 28, 40 anos... Mas para simplificar, vamos usar a profecção/transmissão de Vênus a Saturno.

Se a transmissão de Vênus a Saturno ocorre a casa 12 anos, isto significa que o prometido pelo aspecto sempre acontecerá a cada 12 anos? 

A resposta: (1)Não, ou (2)Não com a mesma intensidade e do mesmo jeito. 

É importante responder à questão desta forma porque os planetas representam não apenas eventos concretos, mas também estados de espírito e sensações. É por isso que o conceito de "intensidade" vem a calhar: Astrologicamente falando, eu considero apenas pensamentos ou sensações manifestações planetárias de intensidade muito baixa. Por outro lado, considero eventos concretos com o significado do planeta a intensidade máxima de manifestação. 

Na manifestação de planetas e dos seus aspectos, vejo claramente três situações distintas:

  1. Em determinado ano, a pessoa pode sentir os efeitos de qualquer aspecto (no caso do nosso exemplo, Vênus em trígono com Saturno) de forma branda, apenas no comportamento ou na esfera psicológica: Vênus-Saturno, psiquicamente falando, pode significar frieza afetiva, distanciamento crítico nos relacionamentos afetivos, uma sensação de rejeição amorosa ou a percepção de frieza emocional da parceira. 
  2. Também pode acontecer anos nos quais o indivíduo não sentirá nenhum significado do aspecto, mesmo os mais sutis. 
  3. Por outro lado, em determinado ano, o nascido pode sentir o aspecto de uma forma tão intensa que ocorrerão um ou mais eventos que incluam os significados da mistura entre os dois planetas e suas determinações locais na natividade. Eventos concretos, e não emoções ou pensamentos!
Voltando ao nosso exemplo. Toda vez que Vênus se configurar (isto é, aspectar) com Saturno na RS, o significado natal do aspecto pode se repetir na vida, e de forma intensa. Não é preciso profecção para averiguarmos isso. Já sabíamos desta verdade há muito tempo, através dos ensinamentos de Morin de Villefranche no seu tratado sobre Revoluções - livro no qual ele sequer menciona a bendita profecção. 

Entretanto, não fazemos astrologia apenas seguindo as regras e os ensinamentos valiosos do astrólogo renascentista francês. Incluímos na nossa prática a profecção pelo sucesso que ela nos proporciona, por ser uma técnica fácil de executar (não é necessário programa de astrologia, dá pra fazer de cabeça) e por ser mais uma camada que nos auxilia a verificarmos a intensidade dos sinais preditivos: se a repetição do aspecto Vênus-Saturno na RS ocorrer no mesmo ano em que os dois participantes do aspecto natal entrarem em contato pela profecção, (no nosso exemplo, quando Vênus transmitir a Saturno, ou quando Saturno se transmitir a Vênus), a repetição será intensa ao ponto de ocorrer eventos concretos, notórios.

E aqui, há mais uma camada de sutileza: há quatro tipos de aspecto, cada um com uma intensidade maior que o outro. O sextil é mais fraco que o trígono. A quadratura é mais fraca que a oposição. Entretanto, os aspectos de quadratura e oposição são mais enérgicos do que os aspectos de sextil e de trígono. Portanto, se Vênus estiver em conjunção, quadratura ou oposição a Saturno na RS, os efeitos do aspecto natal serão mais intensos ainda. Em trígono ou sextil, nem tanto.

Valens também fala que a fase em relação ao Sol deve ser checada. Se Vênus está oriental em relação ao Sol no mapa natal, queremos que ela repita o aspecto com Saturno também oriental em relação ao Sol da mesma forma que ela estava na natividade.

Mas as coisas podem ficar mais intensas ainda. Se no ano em que (1)Vênus estiver fortemente configurada com Saturno na RS (2) Vênus e Saturno tiverem a mesma fase solar que tinham na natividade (3)Vênus se transmitir a Saturno ou vice-versa na profecção e (4) Vênus e/ou Saturno forem os regentes da profecção do Sol, da Lua ou do Ascendente para o ano em questão, então o significado do aspecto fica BEM concreto.

Vejamos dois exemplos do mesmo aspecto.



Tinha 20 anos em 2002, quando a profecção do Sol e do Ascendente chegaram ao nono signo/casa, Sagitário, e profecção da Lua chegou ao décimo signo, Capricórnio. Pela técnica da profecção/transmissão, todos os objetos do mapa - planetas, lotes, cúspides - estavam a nove signos de distância das suas posições no mapa natal. É por isso que sabemos que Vênus, em trígono com Saturno no mapa natal, se transmite a ele no mesmo ano. Entretanto, na Revolução Solar, Saturno estava em sextil com Vênus, mas o aspecto não era próximo, (isto é, não tinha orbe estreita), além de ser um sextil. Soma-se a isso que, ao contrário do mapa natal, Vênus e Saturno estavam ocidentais (à frente do Sol), não repetindo suas fases natais. Conclusão: apesar de Vênus ser transmitida a Saturno pela profecção, eles estavam fracamente configurados na RS e nada ocorreu em 2002 que pudesse simbolizar o aspecto na minha vida de forma mais evidente. Talvez eu tenha sofrido alguma rejeição amorosa da qual nem eu me lembre direito.

A cada 12 anos, a profecção repete o padrão. Em 2014 (2002 + 12), veremos novamente Vênus sendo transmitida a Saturno. 

A RS de 2014 teve Vênus em quadratura com Saturno, e ambos tinham as mesmas fases em relação ao Sol que tinham no mapa natal. Soma-se a isso que em 2014, assim como em 2002, um dos pontos mais importantes na profecção, a Lua, ingressava no signo de um dos participantes do trígono natal: Capricórnio, signo de Saturno. Portanto, era pra ser um ano em que eu sentiria com muita intensidade os efeitos de Vênus/Saturno - ainda mais que Vênus retorna à posição natal. 

A quadratura de um maléfico com um benéfico costuma ser problemática. O maléfico tende a impedir as benesses indicadas pelo benéfico. Entretanto, em 2014, NADA disto ocorreu. 

Neste ano, a quadratura de Vênus com Saturno apenas serviu para manifestar com grande intensidade (quadratura) ao longo do ano aquilo que prometia o trígono Vênus-Saturno no mapa natal - e, pelo jeito, o aspecto prometia coisas muito boas, como veremos a seguir. 

"Vênus em quadratura com Saturno na Revolução Solar, que terrível! Vocês vão se separar!" Entretanto,  não aconteceu NADA que justificasse a má fama do aspecto. Isto porque Vênus e Saturno, no mapa natal, não apenas estão determinados a casas boas mas também apresentam condições zodiacais de ok (Vênus peregrina) a excelente (Saturno exaltado). 

No meu mapa natal (o primeiro, lá em cima), podemos ver que Vênus está na Casa 11, e Saturno na Casa 7, ambos em recepção mútua e em trígono. Há ligação dos temas de casa 11 e casa 7: amigos, grupos e parceira. Do ponto de vista da parceira, seria a ligação de assuntos de casa 5 (criatividade, filhos) à Casa 1. (Este aspecto não indica a geração de filhos porque Saturno tende a esfriar e secar e isso prejudica a fertilidade - outras coisas no mapa significam que eu teria dois filhos, mas isto está fora de escopo no momento).

O que aconteceu em 2014 foi que minha mulher participou de uma exposição de artes expondo obras à base de lixo reciclado (consigo ver o significado de Vênus com Saturno aqui claramente...) e nós passeamos e saímos mais com os amigos dela e com os meus amigos. Fizemos inclusive uma viagem juntos, nós e um casal de amigos dela, a um bom hotel no litoral de São Paulo (não posso deixar de pensar que Vênus significa conforto físico/material e Saturno indica pessoas que viviam no litoral ou à beira de rios). 

Você deve ter achado super "classe média" e "morno" este relato (e é mesmo!), mas os astros também podem representar essas coisas! Observar e considerar eventos como esses são reflexos da maior lição que Robert Zoller me deu: você começa a aprender astrologia de verdade quando para de pensar como a realidade deveria ser (com base na sua visão do mapa) e passa a observar o que realmente ocorre e a correlacionar com o mapa natal e as técnicas preditivas!

Mesmo acontecendo coisas não tão fantásticas, posso dizer que 2014 foi um ano singular: apenas com o passar dos anos (e com uma análise minuciosa da minha biografia) se percebe que os tipos de eventos de 2014 não voltaram a acontecer até hoje, 12 anos depois... Minha mulher nunca mais se envolveu com exposições de arte e nunca mais viajamos juntos com amigos, por mais corriqueiras que essas coisas possam ser. 

Coisas incomuns para a pessoa dependem de uma representação astrológica mais pesada para ocorrerem. Algumas pessoas são muito mais sociáveis e fazem dessas viagens em grupo algo rotineiro; nós não. 

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Como Valens usava uma revolução solar? (e mais alguns princípios de interpretação)

Sempre que encontramos uma transmissão em um ciclo (seja de um ou de muitos), examinamos o horóscopo reformulado para aquele ano, particular...