Pular para o conteúdo principal

Casas e a organização da mente na astrologia

Uma gaveta pode ser um caos...

…Ou estar muito bem compartimentalizada:


Durante muito tempo, eu senti que meu cérebro ao estudar um mapa era a primeira opção…


Alguns astrólogos modernos exaltam essa mistura caótica, falam de ‘conexões criativas’, mas sejamos francos: isso mais atrapalha que ajuda.

Todas as vezes que meu cérebro funcionou como a gaveta arrumadinha, minha performance na interpretação foi muito melhor. E, muitas vezes, é isso que diferencia os astrólogos bons dos medíocres. Apenas isso.

Muito se fala em conhecimento de técnica, mas pouco se fala na mentalidade do astrólogo.

Você pode saber dezenas de partes árabes e significadores, mas na hora de interpretar mistura tudo e o resultado é uma colcha de retalhos ficcional, que não tem nada a ver com a vida do consulente. Um Frankenstein interpretativo!

O cérebro de um astrólogo é o mesmo de qualquer outro ser humano. Só que ele precisa performar tal qual um profissional que precisa organizar e hierarquizar várias informações para tomar uma decisão. Ele não pode trabalhar como o de uma pessoa que está numa conversa informal, onde 'um assunto puxa o outro'. Por mais que seja um hobby para muitos, a coisa é mentalmente séria: astrólogos devem performar mentalmente como engenheiros, médicos, economistas, e não como escritores dadaístas, ou surrealistas.

Em se tratando de anatomia, é óbvio os cérebros de pessoas mais relaxadas são iguais aos de pessoas exercendo atividades complexas. O que diferencia ambos é a disciplina, para não manter a atenção em imagens e ideias evocadas pelas conexões cerebrais se elas não tem nada a ver com o assunto que importa no momento.

Portanto, quando se fala de cérebro, a gaveta é naturalmente desorganizada. Um monte de conexões cerebrais irreconhecíveis, emboladas dentro de uma caixa craniana, tal qual a rede elétrica clandestina de uma favela:

Os cérebros de médicos, engenheiros, artistas, astrólogos, etc. tem a mesma anatomia. É como seu cérebro performa que vai organizar esse mafuá.

Falsas associações

Dentro da astrologia, a grande dificuldade é que os planetas não são específicos, e as casas são um pouco menos específicas do que elas aparentam ser. Eles se referem a vários assuntos, simultaneamente. E, como nossas mentes adoram fazer associações, é natural fazer conexões que não existam.

Veja, por exemplo, no meu mapa. Saturno está na casa 7, em Libra, que significa parceiros, casamentos e pode representar o fim da vida. Já começa por aí: “ah Rodolfo, então como a casa 7 é parcerias e o fim da vida, isso significa que os astrólogo antigos achavam que as pessoas se mantinham casadas até morrer?”. NÃO!


A razão pela qual se atribui casamento à casa 7 não é a mesma razão pela qual se associa a mesma ao fim da vida. E, como esses assuntos não são os mais importantes no momento, e como o tópico principal é organização da mente, não vamos nos estender nesses temas paralelos por aqui…

Bom, a associação errôena acima é mais comum de ser encontrada em cérebros de iniciantes na astrologia medieval. Mas existem outras associações erradas que até os mais experientes pode fazer:

Por exemplo, o fato de Saturno estar na casa 7 não significa que ele será apenas determinado ao casamento do nativo. Entenda da seguinte forma: existem inúmeros assuntos na vida da pessoa. Se eu dedicar apenas um planeta a um assunto, eu fico com apenas seis restantes (lembre-se que na astrologia medieval, só se usam sete planetas e os dois nodos). Seguindo essa lógica, os planetas estariam determinados a apenas sete assuntos?! Tem alguma coisa errada aí...

É desse raciocínio que vem ideias errôneas, como essas:

"Minha casa sete está vazia, então não vou me casar?"

"Minha casa três está vazia, então não deveria ter irmãos, mas tenho dois."

Ou sua contraparte:

"A casa sete dessa pessoa tem um planeta, mas ele nunca se casou"

O mapa não é apenas seu.

O estudante começa a ser tentado a fazer falsas associações à medida em que vai adicionando mais e mais conhecimento ao seu banco de dados.

Quando eu comecei a estudar astrologia, estava ainda fixado na ideia da teoria das determinações de Morin de Villefranche. Essa teoria está certa, mas não pode ser aplicada de um modo muito restrito.

Por exemplo, Saturno no meu mapa está na casa 7 e, portanto, ele está fortemente determinado ao meu casamento e ao fim da minha vida. Mas ele não se restringe apenas a mim: a casa 7 se refere a qualquer casamento, e ao fim de qualquer vida, não somente a minha. A mesma coisa pode ser generalizada com os assuntos de qualquer casa.

Portanto, Saturno não está determinado apenas ao meu casamento e ao fim da minha vida. Para qualquer casa sobre a qual ele tiver um forte testemunho, ele dirá a respeito do casamento e da morte das pessoas indicadas por essa casa por estar na casa sete a partir do ascendente.

No artigo anterior, aprendemos na prática a como ver se um planeta tem relação com uma casa ou não. Lá, você leu que Saturno também diz muito a respeito do que aconteceu com meus irmãos: ele é o primeiro regente da triplicidade da casa 3, que representa irmãos mais velhos; ele rege o lote da morte dos irmãos, e ele está em conjunção por signo a marte, significador essencial de irmãos. Esses sinais todos juntos apontam claramente que o nativo teria seus irmãos mais velhos mortos! E foi isso que aconteceu…

Uma pessoa desavisada diria que há alguma relação entre os irmãos do nativo e meu casamento, mas a casa 7 tem a ver com qualquer casamento e com o fim de qualquer vida. Com efeito, pelo fato de Saturno ter algum testemunho sobre irmãos, a casa 7 mostra problemas no seu casamento. Ele já se separou. Também Saturno mostra que meus irmãos mais velhos morreram precocemente, e não provocaram a minha morte.

Casas enquanto indicadores temporais.

E, mesmo que a casa 7 não tivesse a ver com esse assunto dos irmãos, todos os outros significados de Saturno referente a irmãos nos inclinariam a dizer que alguma coisa ruim poderia acontecer com eles. Então, o que representaria a casa 7 nesse contexto?

Nem sempre a casa onde o planeta está posicionado indicará uma coisa específica. Se o assunto não tem nada a ver com a maioria dos testemunhos, você pode pensar que a casa vai indicar apenas que o evento acontecerá cedo ou tarde na vida da pessoa: quando a casa for cadente o angular, o evento acontece cedo ou antes da pessoa nascer (se ele não diz respeito diretamente a ela, como no caso dos irmãos). Se ela está sucedente, o evento acontece mais tarde. No exemplo em questão, Saturno está angular, o meus irmãos morreram dentro de cinco anos antes do meu nascimento. Mercúrio em Peixes na 12 (cadente e em queda) e regente da casa 3 também diria que algo ruim aconteceu antes de eu nascer.

Casas derivadas: não é apenas isso

Talvez você não saiba, mas seu mapa pode ser visto de doze modos diferentes. Depende da casa que você considera como o ascendente. O nome disso é ‘derivação de casas’.

Por exemplo, se eu quero saber como é a vida do meu pai, eu posso considerar a casa 4 como o Ascendente do pai, e contar casas a partir dessa. Assim, a casa 5 deixa de dizer respeito a filhos para ser a casa das finanças do pai, pois é a segunda a partir da quarta, e assim sucessivamente para todas as outras casas. Esse novo referencial seria a solução para que a interpretação ficasse muito mais fácil.

Lamento lhe informar, mas a astrologia é mais complexa do que isso.

Quando se analisa qualquer assunto que não seja a vida do nativo em seu mapa, as casas podem funcionar tanto em sistema de derivação (isto é, contadas a partir de uma casa que não seja o ascendente) quanto na ordem natural (a partir do ascendente).

várias referências indicando isso na literatura.

Por exemplo, Qual casa seria a morte dos irmãos? Apenas a casa 10, que seria a oitava casa contada a partir da 3? Não, porque a morte dos irmãos pode ocorrer também quando os significadores dos irmãos estiverem determinados à casa 8 que, teoricamente indicaria apenas a morte do nativo! Aconteceu várias vezes isso comigo e, na literatura, esse raciocínio está presente em dezenas de aforismos!

Conclusão

A mente é enganosa. A mente cria associações e nem sempre elas existem. Pessoas sem disciplina mental, sem distanciamento crítico, embarcam nessas associações e definem sua conduta de vida baseada nelas. Mal sabe ela o quanto poderia ser mais feliz ao fazer a prova dessas falsas associações. Como diria a música There there, do álbum Hail to the Thief, da banda Radiohead:

Just ‘cause you feel it, doesn’t mean its there.

Com a astrologia, é a mesma coisa. Astrologia não é diferente da vida. (Bom, pelo menos não deveria ser).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como interpretar uma Revolução Solar?

No post anterior eu comecei a falar sobre o método de previsão mais popular da idade média e renascença: direções primárias + revolução Solar. Também lancei no ar uma frase não-tão-enigmática assim:
Na revolução, qualquer coisa que signifique o nativo deve estar em contato com qualquer coisa que signifique o evento Neste artigo, vamos decifrar a frase acima: você aprenderá a interpretar uma revolução solar de um modo minimamente decente pra você já fazer alguma previsão.

Para ter um entendimento satisfatório desse artigo, você precisa saber alguma coisa de astrologia: o que cada casa e planeta podem representar, o que são partes árabes, e o que são aspectos/conjunções. É um artigo para os já iniciados, mas você que está começando agora pode consultar outras fontes pra entender o que falo aqui - com a internet, não será difícil.

Como nascem os eventos? As aulas de astrologia horária que você anda fazendo com o tio William Lilly deveriam te levar a mais além de encontrar seu cachorro. E…

o melhor livro de astrologia dos últimos tempos.

Você, leitor que começa a se interessar em astrologia, está diante de uma chance única de começar a aprender a arte da melhor forma possível. Nesse artigo, eu apresento um link com o download para o melhor livro de astrologia medieval com o qual eu me deparei nos últimos tempos.

Acho que não estou exagerando. Invejo quem começaria a estudar astrologia pelo que vou apresentar nesse artigo. Se em 2003, ano em que comecei a me interessar por astrologia, alguém me oferecesse esse livro, teria poupado minhas retinas de uma colossal quantidade de lixo.

Talvez, por ainda não ter visto tanto lixo, eu não saberia valorizar o momento em que me deparo com uma obra como essa. Valorizando ou não, se tivesse essa obra nas minhas mãos inexperientes em 2003, teria começado a estudar astrologia em alicerces sólidos o bastante para que deles eu não saísse nunca mais.

Livros bons, trabalho árduo (para obtê-los)  A astrologia praticada de forma mais aprofundada é um saber não tão popular quanto se pen…