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yasmin

Como eram lindos os céus de minha pátria particular. Fui silenciado pela nostalgia enquanto olhava pela janela a mesma paisagem, dessa vez coberta por um céu opressor. Bile arruinada cobrindo prédios acinzentados de Guadalupe.

Guadalupe, a Virgem mexicana encarnou no subúrbio, numa pequena clínica nascera Yasmin.

Yasmin de Guadalupe, tão orgânica quanto a novela das oito da qual sua mãe retirou-lhe o nome. A organicidade de certas pessoas, tal qual um sorvete que derrete ao cair na avenida, beira ao espetáculo de um dia só.

Sobreviverá aos modismos de pulseiras da atriz?

Será feliz apenas com os festejos e folguedos anuais de sua Terra brasilis?

Desejo que Yasmin não tenha consciência. Esse é o meu presente.
Estava como um espaço restrito cujos parcos conteúdos batiam em seu teto enquanto caminhava. Cores escassas, auto-imagem redonda e simpática, destituída de garras, alimentada em cativeiro. Medo de dominação, agressividade contida. Queria dizer algo em inglês para se sentir bem consigo mesmo. Era uma forma da mediocridade ser legitimada.

Um mosaico elegia os termos certos de seu caleidoscópio azul. A meta era dissipar toda e qualquer melancolia, até que só restasse as saudades de dias serenos e mais nada.

Medo de que lhe tirassem tudo. Avareza? A solidão parecia-lhe uma cama confortável, mas a companhia começava a lhe parecer um leito menos pedregoso. Será que tudo terminaria bem?

Recusava-se a ter esperança. O dia de hoje era a beira de um precipício que ele, tecelão de verdades, tentava transpor com uma lã etérea sobre o amanhã, o precipício, ganhapão de videntes. Recusava-se a sentir-se bem com algo inexistente. Mal sabia ele que se fiava num pessimismo tão inseguro quanto o otimismo a…

geometria analítica

Andando na calçada estreita seu pensamento entorpecia a sensação de andar. Quando se deparava, percebia que caminhara léguas. Milimetricamente, com a mesma precisão neurótica dos desenhos que esboçava, e da arrumação metódica dos artigos que imprimia em ordem temporal, da grécia clássica, passando da idade média ao contemporâneo, perguntava-se sobre o mesmo esquadro, se este o possibilitaria medir o grau de felicidade, a hipotenusa dos sonhos e esperanças.

De repente visou no meio da rua crianças sorridentes; focalizou no entre os vapores da chuva (sim, chovia) sorrisos, olhos e roupas furadas, costuradas e possuindo estampas de deputados federais da eleição retrasada. Condoeu-se das caixas de balas. Viu-se criança pegando uma bala dessas na loja com ar condicionado; viu-se com uma roupa escolhida pela mãe; viu-se ansioso por chegar em casa. Viu-se com pena de tudo. A velha pena se encontrava lá, a espreita.

A fortitude de seu gesto em ignorar as crianças vendedoras não passava de fraqu…
pouco a pouco reavivava em sua mente seu cheiro, mas ainda era muito mental. Sua espada era o desejo, cortava qualquer adversidade. Não haverá justificativas para o que se deseja, pensou ele. E tornava a rememorar aquele perfume.

O chão límpido do aeroporto lembrava um futuro silencioso em algum lugar. Num hospital, talvez, encontraria o mesmo chão, os mesmos tons pastéis, e a mesma sensação de funcionar. Porque achava que a seta do desejo tinha de passar por vísceras tortuosas dentro de si para que fosse finalmente regurgitada. Tudo isso era funcionar. Quando a seta perfurava-lhe a vesícula no meio do caminho visceral, cuspia bile por quarenta dias e quarenta noites, amargo do próprio sabor das carnes internas, com a seta congestionando-lhe o trânsito intestinal.

Mas um dia haveria de funcionar. Sua delicada matemática ansiava por esse momento inconsistente. E há de ser com ela, pensou.

Square One

via-se dentro de uma névoa e era soldado medieval. Aqui era um herói de causas nobres e honradas.

Mas os fichas acabaram. E se dirigiu para a saída da LAN house. A luz forte do sol agrediu sua visão, e teve de visá-la com braço.

A cidade se descortinou a sua frente. Essa LAN possuía a vista mais bela, não fosse a sua solidão poderia compartihar dela com alguém.

Mal sabia ele que há um quilômetro de distância uma menina não tinha coragem de se matar. Ostentava fraqueza ao lado do vidro de Prozac.

Eram assim, lindos e tristes, ciosos de uma causa nobre e justa. Um brincava de guerreiro medieval, outra de Rapunzel. Chorava de si no alto de uma torre de marfim.

Ela

Ela veio de uma luz elétrica e vários pontos quadriculados formaram uma figura antes do piscar. Bela. Hesitei.

Num segundo a luz e o som se fundiram numa angústia do não-ter. Pronto, estava de novo naquela estrada que não leva a lugar algum, mas onde se pára em alguma margem para gozar. E o quanto desejou compartilhar desse gozo com essa figura, esse perfume digital que ressaltava das formas suaves e dissimuladas, pensou em quantos homens morreram e renasceram só de vislumbrar essa possibilidade. Quanto maior a multidão de homens sentia ao seu redor, mais muçulmano na meca se sentia, mas numa meca bizarra, a adorar uma deusa pagã, de mil bocetas e seios, uma imagem irrepresentável pelo escultor, o cheiro mais doce dos incensos desse mundo. E a vida sem ela agora não passava de bossa nova, menino de calças compradas no alfaiate vendo a bela dona rica passar.

Sua mão segurava o falo imaginado. A potência máxima a se oferecer para ser devorado em suas entranhas lubrificadas. Via uma face …
Tinha de ser sempre assim, um ciclo de dor e luz, a iluminação das causas criadas, com o intuito de se traçar um caminho até algum abcesso moral e psicológico que nunca chegara.

Tinha de ser a dor, o lamento, a perda do que nem chegou a se conquistar, a lamúria, a menos valia, o rancor dos felizes, o ranger de dentes, o chicote sobre até o que lhe salva, para um dia surgir uma esperança de sair do front sem levar uma bala. Tímida, cambaleante menina que ganha um vestido de chita de natal.

Odeio ser assim sendo. E sigo torturosamente a agrura de se ver todos os dias de uma câmera. Observar, castigar, punir, inativar-se, tornar-se frio, seco, estéril e desprognosticado. Diminuir os movimentos de todas as moléculas de meu corpo, a ponto de chegar ao zero absoluto, e se os senhores de indagarem porque o escritor não irrompe o silêncio com uma bala da cabeça este dirá que somente a vida em seus anseios mais insondáveis insiste em pulsar. A vida, enquanto palavra descarnada se apega a algum…

o dono da palavra

Quem detém o direito de dizer as palavras? Aleatoriamente, aléias de palavras se alinham frente ao cortejo de uma dor. Mas um dia alguém ridicularizou o cortejo de uma dor pomposa, imperial, e se entregou aos caprichos de uma puta insofismável no porto onde não se vislumbra mais nada além do mar. Puta dor. A existência perdeu sua coroa, cravada de Platãos, Aristóteles e Paulos, Agostinhos e Manilli. E vergonhosamente o poeta se orgulha de citá-los, pois hoje os jeitinhos alcançaram seu posto ao lado da filosofia e da poesia, e flertam-se assumidamente. A confusão entre jujubas rock e tartes de minuetos.

Sustentando as vísceras remexidas com a última verdade, continuo a escrever com alguma persistência, calcada na esperança de que o sustentar de um lento gozo é possível. Espero o aplauso passivamente, e dolorosamente sei residir nessa expectativa o recomeço de um lento ciclo da purificação de um brâmane que vê a miséria do alto de sua murada. De vislumbrar todos os gozos possíveis, até …

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Pensou nos dias de seus pais, em um instante eternizado ritalee cantava "pra onde eu vou..." e as pessoas eram felizes, mas havia a angústia da morte sondando a todos, e os risos tornavam-se debilóides, um rir sem razão, frente a um medo infantil do desconhecido. O riso sugeria, vamos comprar um doce na esquina e entrar em decomposição, diziam as calças boca-de-sino, os cortes de cabelo, as ilusões sem pé nem cabeça, o infeliz cantando "segura na mão de deus e vaaaai"...

A travessia começou. A música batia na mesma tecla, "pra onde eu vou", pra onde eu vou, pra onde eu vou, lembrou da travessia dos heróis mitológicos, mas era simplesmente a travessia rotineira da baía, entre duas cidades banais.

Sozinho com seu irmão ao lado, restava um debilóide, um aleijado mental do qual se condoía, chorava pelos cantos miserável de si. Chorava de si. Vazio vazio vazio.

leveza plúmbea

Chega a hora da verdade. Mostre sua vontade, corra um risco tremendo. Sua posição, seu sim, seu não, encrava nos desejos de uns, despedaça os dos outros. Ouça-os claramente. Ouviu? Agora grite, torne sua alma surda. Grite até chegar naquele limiar em que a voz vacila.

Após a esporralha (neologismo?..), um silêncio denso de um cansaço profundo, sorriso cansado, a fronte se move como as sombras no dissipar das nuvens, ao emergir o sol.

Demorou tanto para ser... um imenso vazio me apetece. A partir de hoje farei o quê? Decidiu comer os dias tal qual as lagartas comem as folhas, da mesma forma que as formigas as carregam, leveza plúmbea. Relógio de sol, sinal estático de movimento.

As minguadas oportunidades de inclusão digital do escritor do blog

Realmente, o título é uma denúncia de um garoto de classe média aos maus tratos a que a exclusão digital lhe relega! Um ultraje!

Brincadeiras e mimos à parte, escrever nesse blog é uma oportunidade de ouro. É muito difícil achar um computador vazio na faculdade, no qual você possa entrar sem a culpa de tirar a oportunidade de alguém que poderia estar precisando dele, para fazer um trabalho ou uma pesquisa de internet. Aí você descobre os privilégios de ser monitor. Isto porque, se você tem um departamento com dois computadores razoáveis, e geralmente vazios, pode se deliciar com a tentadora oportunidade sempre a um andar de distância de sua sala de aula...

Mas as coisas não são como parecem. Existem períodos em que o departamento lota, as reuniões de pesquisa preenchem as salas - e os computadores... Você, que criou um afeto e um costume de visitar a máquina regularmente, precisa controlar seu ciúme, e aceitar que as pessoas fazem coisas nele mais úteis que seu blog - ou seu emulador de…

bloqueios mostram que você não é escritor!

Todos possuem geralmente uma sensação de não dispor de grandes idéias quando tem a oportunidade de desfrutar por um breve instante dos meios de criá-las. O inconsciente é safado.

Comigo não é diferente. Tenho idéias e sensações que gostaria de exprimir aqui. Cadê elas quando sento na frente do computador da faculdade?

Ai, minha linguagem tá muito como-era-antes.

Todavia, pensei agora numa idéia interessante para post. Publicá-la-ei num tópico à parte.

bitelo

Agora o blog vai ser psicoléxico de verdade. Vocês terão acesso ao vernáculo familiar obscuro da família Tinoco.

O verbete "bitelo" designa uma qualidade de comer muito, ou de se mostrar aproveitador de uma situação, não necessariamente desonesta. Se você visita tia Mariquinha e come grande parte da tigela de bolinhos de chuva oferecida por ela, pode vociferar, brincando:

-BITELO! Tá gostando dos bolinho!

Então perpassa em "bitelo" o oportunismo bem recebido, pois a tia se alegra em lhe fazer um agradinho (isto é, se ela lhe espera...) e você tem um verdadeiro tesão bucal em devorar os bolinhos de chuva.

A princípio, eu relacionava "bitelo" ao oportunismo instintivo, pois em todas as situações que eu escutara tal verbete, ele fazia menção a comida ou ao sono. Depois perebi que bitelo, sem dúvida, sempre tende ao oportunismo, mesmo que indiretamente você o realize visando a agraciação instintiva.

BITELO!

Data da reformulação do blog

Esse blog já foi todo desconjuntado e agora está do jeito que eu quero. Sua reformulação deu-se no dia do post "muda, não semente", às 11:45 am. Horário de sol na casa dez pode dar certo, hein?! (depois eu explico).

Agora ele é verde e se assumiu como diário, embora um diário público é a última coisa que faria. É "diário" porque reflete algumas coisas que pensei durante a semana, e como "semanário" fica estranho, resolvo com "diário".

É verde porque "green is the color". Essa não vou explicar, tem que conhecer pink floyd...

(color ou colour? Gente, esqueci!)

medinhos e medões

tenho o medinho do leitor tomar algumas coisas que escrevo como ridículas. De fato, proteger-me disso não implica que o leitor possa vir a achá-las.

Por isso que algumas pessoas se protegem gritando um FODA-SE sonoro a tudo e a todos.

Meu medão? Não tenho nenhum pra compartilhar assim, agora... Te conheço!?

A autópsia da múmia

É o nome de um programa do Canal Discovery.
Nele você pode assistir coisas do gênero: "Esta múmia viveu em 250 d.C. porque o Carbono 14 vaticinou".
Eu escuto veredictos como esse todos os dias. "Esse tumor é um ependinoma porque a sinaptofisina é positiva." Entendeu?
Isso, na linguagem da verdade de Enéas, semiótico inveterado, representa: Calma, a ciência nos dá certeza que é assim, então foi assim que aconteceu. Pode ficar tranqüilo.

Variações:

"Calma, Deus está conosco"
"Calma, temos seguro de vida"
"Calma, temos plano de saúde"
"Calma, moramos nas montanhas" (em caso de onda gigante do estilo "impacto profundo")
"Calma, eu uso camisinha"
"Calma, temos um lençol freático" (caso a água acabe)

toddynho

Um sensação lhe inunda a boca. Leite. Apreciar o gosto longo do leite. O tato do pálato é todo coberto em sua extensão, o leite o cobre maternalmente para então espremer-se entre fossas abaixo da língua que lhe recebem plenas de dor. A dor das glândulas esguichando saliva. O doce e o amargo, como dizia Secos e Molhados, indistintamente. E o todynho se esvai como quem chega, mas seu mascote continua sorrindo pra mim na caixa já amassada. Bombeio os últimos goles do néctar e sinto-o areado pela pressão. O todinho acabou e não quero aceitar.

pimenta fugidia

Criam a criança, criam santidade
Sugando a gana triste da Trindade.

Calavas em vão nos vãos da porta
Espiando a festa entre as frestas

E aumentava o tédio do veneno
E a menta lhe esfriava a garganta
Da pimenta fugidia deglutida

(Se você soubesse que sou à beça)