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O destino é imutável? Uma visão clássica



É comum astrólogos modernos criticarem a astrologia clássica dizendo que ela se baseia numa concepção de destino estóica, altamente determinista.

Segundo os estóicos, seu destino já está escrito, cabendo a você aceitá-lo ou não - aliás, o único momento em que é cabível uma decisão humana no processo.

Os críticos se baseiam em Vettius Valens e Firmicus Maternus que, para eles, seriam as fontes primárias da astrologia clássica, e onde se percebe, sem nenhuma sutileza, a concepção de destino oriunda da escola filosófica do estoicismo.

Eis o problema: eles não são as fontes primárias.

Antíoco de Áscalon ou Antíoco de Atenas?


Na compilação do Catálogo do códice dos astrólogos gregos (catalogus codicum astrologorum graecorum, ou CCAG), o historiador Franz Cumont, ao se debruçar sobre a compilação de conceitos astrológicos feita pelo astrólogo de nome Antíoco de Atenas, especula, com evidências um tanto frouxas, que este seria o mesmo que Antíoco de Áscalon, um dos primeiros archons da academia platônica. Seria, em outras palavras, como um sucessor de Platão, após sua morte, na liderança da academia.

Se os dois Antíocos são a mesma pessoa ou não, apenas pelas evidências de Cumont não é possível definir. De fato, ambos tinham em comum o olhar para a astrologia - e esse elo tímido entre ambos que definiria a tese do historiador.

Os dois Antíocos lançaram olhares sobre o tópico pedregoso da astrologia, mas em instâncias diferentes. Enquanto Antíoco de Atenas compilou uma lista com as definições básicas de conceitos da astrologia (como testemunho e maltrato), Antíoco de Áscalon se debruçou sobre o que seriam as bases metafísicas de astrologia.  

Antíoco de Áscalon defendia que o conceito de destino - Heimarmene - não seria uma causa final, mas material.

O que seriam essas causas? O que seria Heimarmene?

Essa categorização em diferentes tipos de causas tem origem na obra de Aristóteles (um dos membros da academia, contemporâneo de Platão e, segundo o mesmo, um dos seus alunos mais brilhantes), que vamos resumir com a finalidade de facilitar o entendimento deste artigo:

Causa final - A ação ou evento teria como causa final a sua finalidade, aquilo a que se destina. Por exemplo, se meu filho está com um desempenho ruim na escola por causa de distrações como um telefone celular, a ação de cortar o celular dele teria como causa final a melhora do seu desempenho escolar. Daí que vem o termo ‘finalidade’.

Causa material - Seria uma causa necessária para que o evento ocorra, mas ela não seria a finalidade em si. Para que o celular do meu filho seja cortado, eu preciso ligar para a companhia telefônica e cancelar a conta, ou pegar seu aparelho e trancá-lo num armário até o final das provas, ou tirar o chip do aparelho.

Além da categorização aristotélica das causas (existem outras que não vem ao caso aqui, como a causa eficiente), há o conceito de Heimarmene, que poderia ser definido como porção destinada a um homem. Esta “porção” nada mais é do que o conjunto de fatos e eventos que tornam o destino de um ser humano individual e intransferível, e que esbarra na definição clássica de personalidade, que seria o conjunto de eventos e características de uma pessoa que a tornam única - veja bem, não somente características de personalidade, mas também eventos aos quais ela foi sujeita ou os engendrou, sendo essa a razão pela qual Hephaistio de Tebas, no seu primeiro livro da Apotelesmatica, descreve cada um dos trinta e seis decanatos atribuídos aos doze signos do zodíaco (três para cada um) não somente com traços de personalidade, mas com eventos e anos críticos.

Antíoco de Áscalon defendia que Heimarmene não poderia ser uma causa final, mas apenas material. Quais seriam as implicações dessa mudança conceitual?

Ora, sendo uma causa material, Heimarmene não seria a finalidade de tudo que acontecer ao indivíduo, mas apenas algo necessário para sua realização. Em outras palavras, todos os fatos que aconteçam ao nascido não ocorreriam com a finalidade de se cumprir a porção do que lhe é destinado. Ainda assim, esta “porção destinada” seria uma causa importante na definição do seu destino. O que nos faz concluir da mesma forma que o meu primeiro professor de astrologia, José Maria Gomes Neto:

Nem tudo que está escrito vai acontecer, mas tudo que vai acontecer está escrito


Por que existe astrologia eletiva?


Se você ainda não entendeu meu raciocínio, vou a abordar a mesma ideia sob uma perspectiva diferente.

Se os estóicos estiverem certos e, se o destino da pessoa for imutável, por que haveria tanto dispêndio de energia por parte dos astrólogos clássicos e medievais em escrever livros de astrologia eletiva na tradição clássica?

Uma vez que o destino não pode ser modificado, não há sentido escolher o melhor momento de se começar um empreendimento, pois seu desfecho já está determinado. Entretanto, a astrologia eletiva (do grego katarche, ‘escolha’) está quase que onipresente nos tratados de astrologia, desde Doroteu de Sidon até a Baixa Idade Média, com Ibn Ezra e Guido Bonatti.

Uma vez se adotando o paradigma de Antíoco - ou seja, considerando que destino é importante, mas não é tudo - fica mais claro. A pessoa tem um mapa com a porção de eventos que lhe é destinada - Heimarmene. Como esta é uma causa material, e não final, nem todos os eventos prometidos pela natividade ocorrerão. Entretanto, todos os fatos de sua vida estão presentes em sua natividade.

É nesse hiato entre ‘promessa’ e ‘realização’ que está a astrologia eletiva. Pois se o mapa promete que os casamentos de um determinado indivíduo lhes serão terríveis, a escolha de um bom horário de começo dos casamentos, bem como a escolha mais consciente de um parceiros, amenizarão esse destino terrível. Qualquer outro tipo de evento, não apenas casamentos, pode ser abordado sob essa mesma perspectiva.

Normalmente, o destino ocorre ao “pé da letra” quando a pessoa não se atenta para algum tópico em específico da sua vida, deixando que sua ação mais natural seja levada a cabo. Aquilo que nos é natural, isto é o que nos está destinado. A falta de consciência naquele tópico gera uma resposta automatizada, totalmente sem lapidação por parte da pessoa.

Por isso, há uma forte associação entre destino e DNA. Seu código genético lhe dá algumas predisposições a determinados comportamentos e doenças. Se você não se atentar para isso, mudando sua alimentação e podando comportamentos excessivos, vai experimentar a expressão dos genes associados às doenças às quais você tem predisposição. De fato a genética moderna mudou da ênfase no fatalismo no DNA para a ênfase em escolhas saudáveis que alteram ou suprimem expressão genética inadequada.

Falta os críticos da astrologia clássica, bem como alguns astrólogos clássicos deterministas, mudarem sua ênfase também.

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