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astrologia e commodities

De um certo modo, a astrologia tem muitos paralelos com a bolsa de valores.

Vejo similaridades não apenas em como uma poderia ajudar a outra, como tantos já viram, mas também no modo como o estudo do mercado e o estudo do céu são vistos por céticos e crédulos.

Tanto o céu quanto o mercado são coleções misteriosas de arquétipos, cujos mistérios foram apenas bordejados.

Assim como muitos pensam que a astrologia é algo que só ‘funciona' mediante a crença do consulente, há quem pense que a análise gráfica no mercado de ações funciona porque muitos acreditam nela e, diante dessa crença coletiva, as atitudes da massa influenciariam os preços a se moverem de acordo com os princípios gráficos.

Também ambas usam de parâmetros de análise cuja relação causal, à primeira vista, não nos é muito clara.

Por exemplo, da mesma forma que há dúvidas em se entender a razão pela qual a travessia de um planeta em determinado signo se sincroniza com o vigor ou debilidade das simbologias desse planeta, também é misteriosa a razão pela qual a sequência de Fibonacci se alinha com a retração de preços de ações. No entanto, ambos ‘funcionam' muito bem - no sentido de dar os resultados previstos, com alguma margem de erro empiricamente observada, claro.

Todas essas similaridades, ainda que careçam de explicações, nos fazem concluir que dois modelos de pensamento obedientes a dinâmicas muito parecidas podem se ajudar mutuamente no desempenho de cada um. A via mais comum é a astrologia ajudar a bolsa de valores, mas receio que a astrologia possa aprender alguma coisa interessante e útil com as oscilações do mercado.

De qualquer forma, o caminho mais comum é do céu ajudar a terra, e não o contrário. Assim, esse artigo mostrará como poderíamos prever os movimentos de ativos na bolsa de valores.

Se for antigo, é bom? É confiável?


A muitos modos de comercialização de ativos (outro termo para se referir a ações ou contratos) se atribui uma origem antiquíssima, mesmo nos parecendo algo difícil de se acreditar, face às terminologias modernas e aos terminais informatizados nos quais se comercializam tais ativos, como opções e swaps cambiais.

Quando se fala em derivativos, todos os professores de mercado financeiro se referem ao exemplo de Tales de Mileto e as moendas de olivas - uma história de que não vem ao caso, mas serve apenas para mostrar que se adora atribuir antiguidade aos ativos. Tales seria o criador das 'opções de compra’ - mesmo que ele as chamasse de outro nome...

Com a astrologia, é a mesma coisa. Os astrólogos atuais que usam técnicas medievais adoram ostentar antiguidade nas suas técnicas. As partes árabes são calculadas em programas de astrologia modernos, mas são muito antigas e, pasmem, podem ser usadas para prever o movimento de commodities, como vocês verão a seguir.

Parece forçação de barra pra mostrar a importância e a antiguidade da astrologia, mas não é. Os astrólogos do período medieval já estavam mesmo interessados em prever o preço de commodities agrícolas, de modo a auxilar seus clientes no posicionamento em relação aos mesmos (estocar grande quantidade para se preparar para a alta dos preços, se livrar do que tem antes do preço baixar muito, etc).

Azeitonas, trigo, centeio: os lotes dos commodities

Vamos recorrer à Wikipedia para entender a origem do termo commodity:

Commodity ou, em português, comódite,[1][2][3][4] é um termo proveniente da língua inglesa (plural em inglês: "commodities"; em português, comódites),[3][5] que originalmente significava qualquer mercadoria, mas hoje é utilizado nas transações comerciais de produtos de origem primária na bolsa de valores, para se referir a produtos de qualidade e características uniformes, que não são diferenciados de acordo com quem os produziu ou de sua origem, sendo seu preço uniformemente determinado pela oferta e procura internacional.[3][6]

O termo é usado sobretudo com referência aos produtos de base em estado bruto (matérias-primas) ou com pequeno grau de industrialização, de qualidade quase uniforme, produzidos em grandes quantidades e por diferentes produtores. Estes produtos "in natura", cultivados ou de extração mineral, podem ser estocados por determinado período sem perda significativa de qualidade, dependendo de sua conservação. Possuem cotação e negociabilidade globais, utilizando bolsas de mercadorias.

Mercadorias são trocadas entre os homens desde tempos imemoriáveis. Quando o homem quis padronizar essa troca, o comércio se disseminou muito mais pois, com a padronização, há um aumento da credibilidade. É nesse contexto de padronização que os primeiros esboços de comercialização de ativos surgiram.

As trocas de mercadorias acompanham o desenvolvimento do pensamento abstrato humano: de mercadorias palpáveis, hoje se vende até coisas abstratas, como direitos e deveres (como o direito de ter uma mercadoria a determinado preço no futuro, que nada mais é que a opção de compra).

No período medieval, não havia registros de ações, mas é claro que há outras mercadorias, a maioria agrícolas ou produtos de uma pequena elaboração humana, como tecidos e bebidas alcoólicas.

Através do mapa ou carta de ingresso, mapa erguido para o momento em que o sol entra no primeiro grau e minuto do signo de Áries, os astrólogos medievais investigavam se determinado commodity subiria ou diminuiria de preço no ano representado pelo mapa em questão. A literatura medieval, porém, não é muito rica a respeito, possuindo alguns nomes em isolado que se destacaram nesse sentido. Talvez haja muito mais autores, esperando serem descobertos pelos estudiosos de manuscritos medievais.

As referências

O primeiro nome de antigo a ser citado é Abu Ma’Shar que, na sua Grande Introdução à Astrologia (Kitab al-Mudkhal al-Kabīr) nos fornece uma lista de partes (ou lotes) com nomes um tanto inusitados.

Nós, que somos acostumados a ouvir sobre os lotes do pai, da mãe, do casamento ou da fortuna, somos apresentados a varios lotes de cereais.

Como não temos o texto da Grande Introdução a Astrologia (estou esperançoso de que vão traduzí-lo para o inglês há sete anos, mas ninguém se voluntariou até hoje), vou citar aqui tratadus sextus do Liber Astronomiae, do astrólogo medieval Guido Bonatti, natural de Forli, na Itália, que é quase uma fotocópia do capítulo de partes árabes da Grande Introdução de Abu Ma’Shar.

Vamos ler um trecho da parte do grão.

Agora eu lhe darei um exemplo de partes para todas as partes extraordinárias, e devo começar com a parte do grão ou pars frumentum.

Quando você desejar saber a condição dos grãos em qualquer revolução, se eles serão baratos ou caros, ou se terão um preço moderado, toma a distância do Sol ao local de Marte e adiciona a isso os graus e minutos do signo Ascendente, dando a cada signo 30 graus (longitude eclíptica) e, onde o número terminar, ali estará a parte do grão.

Considere, portanto, como o regente daquele signo está disposto, porque quanto melhor estiver disposto, menos valoroso [o grão] será e mais barato será valorado.

(…)

Mas se o significador da parte do grão ou de qualquer outra parte, a saber, o regente da casa (signo) no qual cair, estiver impedido e em má condição e malignamente disposto, e se um benéfico, afortunado e forte, e a lua, aspectarem a parte, significa que o grão será abundante e barato.

Se, contudo, um maléfico aspectar a parte, significa que o grão, ou seja qual for a outra coisa cuja parte você vê, será caro e que haverá escassez dele. Mas se um benéfico aspectar o maléfico, significa que [o grão] abundará mas, a despeito disso, será caro. Entenda o mesmo para todas e cada uma das partes

O modelo de interpretação acima pode ser usado para se estudar a condição anual de qualquer outra mercadorias, bastando avaliar o lote referente.

Se Bonatti ou Abu Ma’Shar não lhes são acessíveis, pode encontrar uma lista de várias partes de mercadorias no livro de Al Biruni, “Introdução aos elementos da arte da Astrologia”.

Acho o relato de Bonatti um pouco confuso. As configurações não são recíprocas, então precisamos reescrever o relato acima num tom menos prolixo:

Parte do Grão - resumo

  • Fórmula: Marte - Sol + Ascendente (não se inverte se o mapa for noturno)
    • Grão abundante e barato: regente do lote bem disposto, ou o mesmo mal disposto, mas com a lua e/ou um benéfico aspectando a parte;
    • Grão caro e escasso: Maléfico aspectando a parte
    • Grão caro e abundante: o mesmo maléfico acima aspectado por um benéfico.

Resta saber qual grão seria esse...

Talvez essa parte seja um sinalizador de fartura em grãos de um modo geral, restando ao astrólogo conferir individualmente os diversos tipos de grãos produzidos dentro do país. Se o lote do grão estiver em boa condição, o país atinge um superávit agrícola mas, apenas pela análise do lote não dá pra saber qual seria o principal commodity responsável por esse superávit: soja? Cana de açúcar?

(Já adianto que seria a soja, porque é o grão mais produzido do país. Entretanto, noutros países pode não ser tão fácil assim).

Mesmo sendo uma parte dos grãos em geral, ela se mostra vantajosa quando buscamos na obra de Bonatti o Lote da Soja e não o encontramos: como não há um lote específico para ele, o grão mais cultivado do Brasil seria visto por esse lote.

Lotes de outros gêneros agrícolas

Veja os outros gêneros alimentícios que possuem lotes citados por Bonatti. Os mais plausíveis de serem pesquisados na realidade brasileira serão citados aqui.

  • Centeio: Júpiter - Lua + Ascendente
  • Feijões, cebolas, ervilhas e lentilhas: Saturno - Marte + Ascendente
  • Arroz e gergelim: Saturno - Júpiter + Ascendente
  • Açucar: Vênus - Mercúrio + Ascendente
  • Mel: Sol - Lua + Ascendente
  • Vinho: Vênus - Saturno + Ascendente
  • Azeitonas: Lua - Mercúrio + Ascendente
  • Nozes: Marte - Mercúrio + Ascendente
  • Seda e outros tecidos: Vênus - Mercúrio + Ascendente
  • Melões, limões, pepinos, cabaças: Saturno - Mercúrio + Ascendente

Alguns lotes se referem a formas antigas de classificação dos produtos que não encontram correspondência útil na atualidade, e foram omitidos. Por exemplo, de que adianta eu analisar o Lote das coisas de sabor amargo? Talvez se você desejasse saber sobre o preço de algo que não tenha uma parte específica e cujo sabor seja amargo, como cacau.

Você pode conhecer os mesmos - e todos os outros lotes usados na astrologia medieval no livro Bonatti on Lots, de Benjamin Dykes, que pode ser encontrado na Amazon.

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