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Ser bom não é suficiente. Tem que parecer bom.

O título é irônico.

Durante meus treze anos de prática astrológica, já vi astrólogos de todos os tipos. De donas de casa classe média alta seguidoras de um astrólogo figurão, até profissionais liberais hobbistas com um elevado grau de técnica astrológica.

Pode soar preconceituoso o que eu disse, mas apenas serve pra enfatizar que não importa as suas origens, você pode praticar. Mas o astrólogo que mais faz sucesso é o que parece ser o que é. Quanto mais clichês esotéricos, (incluindo uma viagem à Índia no currículo), melhor.

Recentemente, minha mulher se consultou com um astrólogo jyotisha. Talvez vocês estejam se perguntando: “o que leva a mulher de um astrólogo a se consultar com outro?” A mesma questão que leva um paciente procurar vários médicos da mesma especialidade.

Não que ela discorde das minhas previsões (na maioria das vezes, ela concorda comigo), mas chega a hora em que pessoa está cansada de ter sempre o mesmo ponto de vista e quer ouvir outras opiniões.

Durante a consulta, claro que ela me citou, disse o que fazia, e falou que eu usava o zodíaco tropical ao invés do sideral - contrário à maioria dos astrólogos jyotisha. Citou o meu professor - Ernst Wilhelm - e falou que ele não era indiano, mas sim americano.

A resposta dele foi interessante, e gostaria de compartilhar com vocês. Parafraseando:

“Não tenho condições de falar que isso seja certo ou errado, mas ele está quebrando uma tradição milenar. (…) O trabalho que eu faço também é espiritual, então toda vez que a astrologia se mistura com a racionalidade, não é bom."

Nesse momento, as cinzas de Parasara começam a efervecer no rio Ganges.

Racional versus espiritual: a falsa dicotomia.

Eu não sou ateu, mas acredito que Deus não exista. Como assim?!

“Existência" pressupõe uma entidade delimitada no tempo e no espaço, coisa que Deus não é. Assim sendo, ele nunca será comprovado, porque comprovar (nesse contexto) implica mensurar, e Deus não é mensurável. Não à toa haver tantos ateus numa era onde o método de construção de verdades (a ciência) dependa de parâmetros objetivos.

Por Deus - e nenhuma outra entidade do “mundo" espiritual - não ser mensurável, há esse cisma da razão com a espiritualidade. Tudo que lembre o exercício da razão - dúvida, questionamento, matemática etc - passa a ser radicalmente desvencilhado de qualquer disciplina espiritual. Falo de um processo que levou séculos para ser consolidado na mente ocidental.

Nosso colega jyotisha acima nasce e vive nessa época, do divórcio da razão com a espiritualidade. Entretanto, uma vez estudando astrologia indiana, ele entra noutro paradigma, muito menos influenciado pelo ocidente. Um paradigma que vê disciplinas espirituais fundidas com atributos racionais - matemática principalmente.

Nos Vedas, não há essa distinção entre o racional e espiritual. Tudo é sagrado, tudo é um aspecto de Vishnu. Mantras, medicina e… matemática também. Nessa perspectiva, dizer que uma disciplina é espiritual enquanto outra não é se torna um esforço tão vão... porque tudo é uma faceta da divindade.

É claro, as categorizações existem para ajudar o ser humano a classificar os assuntos e ver apenas o que precisa ser visto no tempo certo. Se preciso estudar matemática, não vou me interessar no momento pelo Bhagavad Gita.

A astrologia descrita por Parasara é extremamente matemática. Ela consegue matematizar coisas que nem mesmo o mais cartesiano dos astrólogos do século XX sequer cogitou fazê-lo. Nela, pode-se dizer em porcentagem o mal que uma coisa pode fazer a alguém. Define-se em números o grau de influência de um planeta sobre uma casa. Sem contar o Shad Bala, que quantifica seis tipos de força diferentes para cada planeta.

Com uma astrologia tão matemática assim, é impossível não se usar o raciocínio lógico matemático - um dos constituintes da mal falada “razão” - dentro dessa disciplina considerada espiritual.

É por isso que a frase do nosso colega não faz sentido algum para mim. E, pior, deixa implícito que pessoas excelentes em suas atividades - como Ernst - sejam piores do que ele, apenas por usarem mais a razão no julgamento astrológico.

Atestado de espiritualidade - outra grande besteira

Uma consequência nada agradável da dicotomia razão-espírito está na percepção de que há pessoas exercendo uma vida espiritual enquanto outras não. Dentro da astrologia, essa (falsa) dicotomia gera distorções no senso comum, que considera bons astrólogos aqueles que fizeram peregrinações ou qualquer outro rito esotérico. É o fetichismo católico agregando valor à astrologia!

Esse colega consultado pela minha mulher sabe como funcionam as coisas. Luta-se contra as ondas até aprender que se deve surfá-las. As pessoas querem que o astrólogo reflita todos aqueles clichês esotéricos e, quanto mais você os segue, mais sucesso pode fazer.

A astrologia é inserida no mercado brasileiro como um produto exótico gourmetizado. Se é familiar, não tem tanta graça. Estudou isso no seu apartamento em Botafogo? Não foi à Índia? Não meditou com um Maharishi? Boring!

A dimensão espiritual - se é que podemos chamá-la assim - está fundida o tempo todo com a dimensão material. São indissociáveis. Portanto, devemos trabalhar nossos espíritos todos os dias da semana, onde quer que estejamos, de Bangu a Calcutá. Isso tem de ser demonstrado nas nossas atitudes diariamente - não de uma forma hipócrita, apenas para contar aplausos.

Apenas ter noção da existência de uma dimensão espiritual não me faz automaticamente uma pessoa melhor. Estudar religião, portanto, não gera santos. Se assim fosse, as cadeiras de Teologia das universidades seriam filiais celestes.

Cuidar do espírito obrigatoriamente implica em bons resultados, pro indivíduo e para os outros. Você reconhece alguém espiritualmente bem pelos frutos que a pessoa dá, mesmo que esteja pouco se lixando para vida espiritual. Uma árvora boa não pode gerar frutos ruins!

Poser...

É importante um estudante de astrologia manter o corpo e a alma equilibrados porque ele vai lidar com pessoas problemáticas, que podem drenar a energia mental dele com suas demandas. Mas isso pode ser feito de várias formas, como psicanálise ou meditação, não necessariamente com uma prática espiritual. Caso deseje seguir um rito religioso, ele influenciará indiretamente a qualidade do seu trabalho como as outras terapias já mencionadas, da mesma forma que uma boa noite de sono “reseta” a mente para um dia produtivo de trabalho.

Você pode ser um excelente astrólogo e não ter “vida espiritual” (com o sentido atribuído a essa expressão pelo pessoal mais esotérico). No sentido que eu dou a esse termo, contudo, todo ser humano tem uma vida espiritual, o que torna essa questão um pouco redundante.

Intuição e espiritualidade

Praticar mantras melhora a capacidade preditiva do astrólogo?

Todos os professores de astrologia cujos livros eu estudei dizem que sim. Até o Ernst diz isso.
Entretanto, os mesmos que defendem isso também defendem a existência de uma espécie de karma com aconselhamentos.

Existem pessoas que seriam destinadas a receber previsões erradas ou orientações ruins, porque isso estaria escrito em seus mapas. Uma casa 9 com aflições severas prognosticaria uma tendência a receber previsões erradas, ou até mesmo ter má sorte com qualquer outro tipo de orientação, de psicólogos a gurus.

Portanto, se você for um bom astrólogo, praticar seus mantras, ter uma vida espiritual equilibrada, seu desempenho preditivo melhorará com as pessoas destinadas a receber boas orientações, mas não melhorará muito com pessoas que tem um mal karma nessa área.

Tirando esse "viés kármico", os autores defendem que a prática de mantras aumentaria a intuição do astrólogo.

O que é intuição? Há várias definições para isso, mas prefiro definí-la com meus termos.

Intuição seria, durante uma consulta, ao analisar certa configuração astrológica, você chegar à conclusão de que acontecerá um evento com o consulente, fornecendo detalhes precisos. Meses depois, o cliente fala que aconteceu exatamente o que você previu.

Daí você, com o orgulho inflado, volta ao mapa do cliente para entender como chegou a essa conclusão e, espantado, conclui que nunca poderia ter chegado às conclusões que chegou apenas analisando aquela configuração.

Mesmo vasculhando todas as técnicas preditivas do seu arsenal, você conclui que não havia como prever aquilo com a astrologia que você pratica.


A intuição é rara, até mesmo para quem pratica mantras diariamente. Não há como escolher o momento de ser “invadido” por esse “espírito revelador”.

No fim das contas, não podendo se escolher quando se tem intuição, e tendo que aceitar que o consulente pode ter karmas em receber más orientações, essa é a principal lição da espiritualidade: não depende só de você. Nunca dependeu só de você. Nunca dependerá só de você.

Conclusão

Quer ser um bom astrólogo? Estude boa astrologia, aquela dos esforçados, que se recusam a decorar livrinhos de banca de jornal com receitinhas de bolo.

Não quer se preocupar com a espiritualidade? Não precisa. Seja uma pessoa boa - não otária, mas boa. Perdoe mais, ame mais. Dê um pouco de si aos outros, lembrando que uma boa escuta já é suficiente pra ajudar MUITA gente. Não precisa se doar muito, porque sacrifícios dolorosos geralmente significam que você não se ama. Devemos amar ao próximo como a nós mesmos. O resto é conversa pra boi dormir. Espiritualidade é no dia a dia.

Se a espiritualidade que você desenvolve não o torna uma pessoa melhor, de nada adianta.


Praticar mantras pode aumentar sua intuição, mas lembre-se que não terá controle sobre esta faculdade mental. Preocupe-se em aumentar seu poder naquilo que pode controlar: os estudos servem para isso. SEMPRE será melhor estudar e contar com a razão. 99% da sua prática dependerá disso. 

Em todos esses anos, eu não me lembro de ter sido “assaltado” pela intuição nenhuma vez sequer. Em todas as vezes que acertei e errei previsões, estava atrás dela um método que seguia.

Como o leitor pode acompanhar nesse blogue, esse método mudou muito com o passar dos anos, mas sempre esteve por trás de tudo que escrevia e fazia, aqui e com consulentes.

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