Pular para o conteúdo principal

Fama e poder no mapa natal (segundo Hephaistio) - PARTE UM

Na série de artigos que apresentaremos a seguir, vamos entender como a fama seria representada no mapa natal através da técnica das doriforias. Neste artigo, vamos apresentar o que seria esse conceito e seu papel dentro da interpretação do mapa. Vamos brevemente discutir algumas repercussões desse conceito na comunidade astrológica atual.

Hephaistio de Tebas, na Apotelesmática, página 35 (Project Hindsight, Golden Hind Press), nos dá três tipos de "Lanceiros" (inglês spear bearings) ou, numa tradução mais moderna "Guarda-costas". O nome grego latinizado para esse conceito é Doriforia.

Um "lanceiro" seria alguém designado a proteger o rei, parte da famosa "guarda real". Ter alguém para lhe proteger 24 horas por dia, 7 dias por semana, o faria uma pessoa muito especial. Convenhamos que, até hoje, isso é verdadeiro.

Do que estou falando? Essa é a metáfora celeste mais bonita porque, uma vez se sabendo como se dá a disposição dos planetas nessa configuração, é a figura celeste mais fácil de se perceber correlação imediata com a realidade: se você ver no shopping alguém cercado de guarda costas, vai deduzir que se trata de alguém importante - mesmo que seja o pagodeiro da moda, ele "está por cima". No mapa, o pagodeiro da moda, (ou o presidente do país, ou o ditador comunista) seria um planeta, e os outros planetas que estivessem configurados com ele seriam seus guarda-costas.  Portanto, um planeta cercado de planetas, e nos ângulos, fala de um mapa cujo dono se destacaria no seu meio social.

A questão é entender se as doriforias de um planeta representariam alguém muito importante na vida da pessoa, ou se a própria seria muito importante no seu meio social. Como você verá a seguir, todas as doriforias requerem angularidade dos luminares ou de um dos planetas, e nas casas I ou X, o que significa que a questão é central na vida da pessoa e envolve ela mesma ou sua trajetória. Simplificando: num mapa com doriforias poderosas, o dono do mapa é o próprio figurão.

A doriforia era uma técnica inicial, para se saber em que nível social a pessoa está. Num livro antigo, a ordem dos tópicos era importante, e Hephaistio coloca essa técnica logo depois de falar dos decanatos e das estrelas fixas. Os decanatos, para esse autor, descreviam como seria o corpo do nativo e seu destino, de maneira bem abreviada. As estrelas fixas, descreviam acidentes e dariam complexões físicas particulares ao corpo da pessoa, a depender de quais estariam em conjunção ao Ascendente do nativo. Em seguida, vem a doriforia. Ela definiria em que nível social a natividade opera, e o quanto ela impactaria sua realidade circundante.

Com os decanatos, eu sei o que vai acontecer, de maneira bem resumidinha. Como é a descrição do segundo decanato de Aries:
[uma pessoa] bem nutrida, aflito de algum modo nos seus anos iniciais, mas prudente, estudado e um líder de muitos, que terá um bom fim. Seus olhos são grandes e protusos. Fácil de ser irritado, de estatura adequada e altura proporcional. Períodos críticos serão os 7º, 17º, 19º, 24º, 32º, 39º, 41º, 52º, 64º, 71º e 86º anos.
Perceba que ele não diz do que se trata a tal aflição nos anos iniciais. Pode ser desde uma aflição psicológica, até mesmo um pai tirano que o violentaria. Para saber disso, só analisando o mapa natal. Se os significadores da família não estiverem aflitos e mantiverem uma boa disposição com os significadores do nativo, qual seria a aflição? Bullying no colégio? Só o mapa dirá.

A descrição do segundo decanato de Áries também fala que "ele será um líder de muitos". Mas líder em quê? Uma pessoa que apenas influencia as outras num blog ou canal do Youtube?  um líder religioso que atrai multidões? O presidente de uma nação?  É dessa última questão que a doriforia trata.

Natividades Paradigmáticas: O mapa do rei é muito mais emocionante

Robert Schmidt, no prefácio da sua tradução de Hephaistio, diz que havia a crença em "natividades paradigmáticas". Seriam mapas de pessoas socialmente importantes e respeitadas, onde o influência astral seria mais perceptível. Sim, os antigos acreditavam que a mediocridade não refletia as estrelas, e que o mapa de um Rei representaria melhor a linguagem celeste do que o mapa de um servo ignóbil.

Provavelmente não haveria uma técnica para se saber qual natividade seria paradigmática, mas sim a simples observância se o nascido era filho de reis ou não, ou se ele conseguiu chegar ao poder ou não. O poder social, político e econômico do nativo ratificava a importância das configurações da natividade, mesmo que ela estivesse com vários planetas em mal estado cósmico, como é o caso da natividade do imperador Adriano, que circula em vários textos da antiguidade.

O astrólogo que não encontrasse lanceiros no mapa de um rei não precisava se preocupar muito pois, numa perpectiva estóica, a astrologia serviria para a pessoa aceitar o destino que lhe é designado (e que ainda não aconteceu) com serenidade. Sendo a pessoa já um rei eminente, ela não precisaria saber dos céus o que já aconteceu! Encontrar guardas-costas em mapas de reis e presidentes seria interessante apenas para aprendizado, e nada mais. Em outras palavras: se você acha que o rei no poder não o merece porque tem uma doriforia fraca, reuna um exército e vá lá depô-lo... Acho que ninguém seguia esse conselho...

Excetuando-se as natividades de pessoas reconhecidamente importantes, o papel da doriforia seria perceber qual a característica da importância e fama que a pessoa teria no seu meio ( a ser descrita pelo planeta guarda-costas com maior força dentre todos os outros guardas-costas). E há níveis de doriforias, a depender da qualidade dos planetas que participam dela, como veremos a seguir. Assim, temos uma estratificação de níveis sociais pelas qualidades dos mais diversos lanceiros, que vai da obscuridade até o máximo de reconhecimento e poder.

Doriforia e democracia.

Existem pessoas que crêem que o uso da Doriforia é limitado a um sistema de governo que não existe mais na maioria do mundo ocidental. Para essas pessoas, a doriforia seria importante apenas em governos ditatoriais, como o de Kim Il Sung, o "Grande Líder" da Coréia do Norte, que vai ficar no poder até morrer (se alguém contestar isso, vai ter de lidar com seu quartinho de brinquedos, cheio de ogivas nucleares).

Pior que essas pessoas, que crêem na inutilidade da Doriforia para a democracia moderna, tem um pouco de razão. Nos damos conta disso quando percebemos o mapa de George W Bush:


Bush Filho não tem nenhum planeta angular e domiciliado ao mesmo tempo (um dos critérios de Doriforia). A Lua está em conjunção com Júpiter, que está à frente dela (outro critério), mas num signo cadente. As Doriforias do Sol de Bush seriam Marte, Lua e Júpiter, mas duas dessas seriam de planetas fora de séquito, e com o detalhe de que as doriforias ideais para o Sol seriam aquelas formadas por planetas orientais ao Sol (atrás dele) e do mesmo séquito (Júpiter e Saturno). Com esses guardas-costas mais-ou-menos, você poderia concluir que se trataria de alguém com algum grau de importância social, mas nenhum imperador.

Um presidente tem um mandato de quatro anos no Brasil e, depois dele, pode sumir das vistas do povo, como foi o caso do general Figueiredo. Será que lanceiros seriam encontrados no mapa de um ex-presidente como ele? Robert Zoller diz que não. Em seu curso de astrologia medieval, ele defende que a doriforia era própria a um tipo de governança que não existe mais na maior parte do mundo. Eu vejo de uma forma diferente: no mundo democrático ocidental, uma doriforia excelente não necessariamente indicaria os presidentes, mas alguém que influenciasse a nação por anos e anos, superando muito os anos de um mandato presidencial. É a mão que manipula as marionetes...

No próximo texto, vamos designar os três tipos de Doriforias, e as complicações para se entender as descrições de Hephaistio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como interpretar uma Revolução Solar?

No post anterior eu comecei a falar sobre o método de previsão mais popular da idade média e renascença: direções primárias + revolução Solar. Também lancei no ar uma frase não-tão-enigmática assim:
Na revolução, qualquer coisa que signifique o nativo deve estar em contato com qualquer coisa que signifique o evento Neste artigo, vamos decifrar a frase acima: você aprenderá a interpretar uma revolução solar de um modo minimamente decente pra você já fazer alguma previsão.

Para ter um entendimento satisfatório desse artigo, você precisa saber alguma coisa de astrologia: o que cada casa e planeta podem representar, o que são partes árabes, e o que são aspectos/conjunções. É um artigo para os já iniciados, mas você que está começando agora pode consultar outras fontes pra entender o que falo aqui - com a internet, não será difícil.

Como nascem os eventos? As aulas de astrologia horária que você anda fazendo com o tio William Lilly deveriam te levar a mais além de encontrar seu cachorro. E…

o melhor livro de astrologia dos últimos tempos.

Você, leitor que começa a se interessar em astrologia, está diante de uma chance única de começar a aprender a arte da melhor forma possível. Nesse artigo, eu apresento um link com o download para o melhor livro de astrologia medieval com o qual eu me deparei nos últimos tempos.

Acho que não estou exagerando. Invejo quem começaria a estudar astrologia pelo que vou apresentar nesse artigo. Se em 2003, ano em que comecei a me interessar por astrologia, alguém me oferecesse esse livro, teria poupado minhas retinas de uma colossal quantidade de lixo.

Talvez, por ainda não ter visto tanto lixo, eu não saberia valorizar o momento em que me deparo com uma obra como essa. Valorizando ou não, se tivesse essa obra nas minhas mãos inexperientes em 2003, teria começado a estudar astrologia em alicerces sólidos o bastante para que deles eu não saísse nunca mais.

Livros bons, trabalho árduo (para obtê-los)  A astrologia praticada de forma mais aprofundada é um saber não tão popular quanto se pen…