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Decênios: períodos planetários para iniciantes

Eu fico meio irritado com a lista de períodos planetários oferecidos pelos softwares. Os programas de astrologia indiana possuem vários dashas. Do ocidente, temos o Delphic Oracle, com seus vários períodos planetários citados nas obras de Valens, Hefaistio de Tebas e outros.
Ao ver uma lista assim, os mais céticos já pensam:
Que bela maneira de se justificar tudo! Se não der pra explicar o que ocorreu por uma técnica, recorre-se a outra, e a outra, até ter toda a sua vida pregressa explicada pela astrologia!
Eu diria: concordo plenamente. Usar a astrologia pra ficar “masturbando” o passado, é realmente deprimente. Mais ainda: usar as várias técnicas preditivas sem os critérios corretos, tentando encaixar os eventos nelas e se baseando apenas em um ou dois princípios, é o passaporte para nunca começar a olhar pro futuro e ter a ousadia de se prevê-lo.
Existe uma justificativa pra se usar todas essas técnicas? Claro que há, e não é o que você pensa. Se todas elas fossem usadas da mesma forma, eu concordaria em ficar chateado como você, e usaria o argumento do cético. Mas elas são lidas de modos diferentes. E, dentre todas as formas de se ler, a técnica dos Decênios é a mais fácil.

História

Os Decênios são a técnica de períodos planetários mais antiga do ocidente. Ela é citada em vários autores. Valens oferece-nos três variantes de cálculo da mesma. Hefaistio e Firmicus Maternus também as descrevem em detalhes.
Os registros dos decênios são bem anteriores ao da Firdaria, que tem origem persa e é originalmente citada por Abu Ma’shar. Mas, devido a problemas de interrupção da transmissão da tradição astrológica, Abu Ma’Shar não chegou a citá-los na sua obra o que, por conseguinte, fez com que nenhum autor subsequente transmitisse ou ensinasse a mesma, o que culminou no século atual, com o Robert Zoller a ensinar Firdaria no seu curso de Astrologia Medieval e sequer citar os pobres Decênios. Assim, hoje em dia todo mundo estuda Firdaria, mas poucos os decênios.
O mundo é injusto mesmo, porque é uma técnica fácil de ser interpretada.

Como se calcula?

Se somarmos os anos menores dos planetas, dá um período de 129 anos. Vamos somar?
Saturno - 30
Júpiter - 12
Mercúrio - 20
Lua - 25
Sol - 19
Vênus - 8
Marte - 15
Total = 129
Esses 129 anos servem de inspiração para a quantidade de tempo dada a cada planeta nos decênios: cada planeta recebe uma versão miniaturizada desse período, convertida em meses: 129 meses, o que dá 10 anos e 9 meses.
  • Começa-se a contagem a partir do sol, em mapas diurnos, ou da lua, em mapas noturnos, se eles estiverem em casas lucrativas (1,2,3,4,5,7,9,10 e 11).
  • Se o luminar do séquito em favor do mapa não estiver numa dessas casas, usa-se o luminar do séquito contrário.
  • Novamente, se nem o luminar do séquito contrário estiver bem posicionado, daí usamos o primeiro planeta que estiver bem posicionado a partir do Ascendente do mapa que se analisa.
  • Daí então se prossegue na ordem crescente zodiacal em que eles aparecem no mapa natal. Veja o caso do meu mapa:


O mapa é diurno (sol acima do horizonte), sendo o luminar do séquito em favor o próprio Sol, que está em Casa lucrativa, o Ascendente. Podemos usá-lo como sendo o primeiro período. A ordem dos períodos será a seguinte:
1-Sol
2-Lua
3-Marte
4-Saturno
5-Júpiter
6-Vênus
7-Mercúrio
Esses períodos de 10 anos e 9 meses podem ser subdivididos equitativamente para cada um dos sete planetas em sub-períodos de aproximadamente 18 meses (divida 129 meses por 7 e vai gerar 184285714). A ordem segue a mesma lógica dos períodos maiores, mas começando a partir do regente do período maior.
Vamos pegar o segundo período dos meus decênios para sabermos como se subdivide:
Lua/Lua
Lua/Marte
Lua/Saturno
Lua/Júpiter
Lua/Vênus
Lua/Mercúrio
Lua/Sol
O cálculo disso tudo pode ser muito chato para quem não manja nada de matemática. Se você manja e não tem dinheiro, pode tentar fazer uma calculadora de Excel para facilitar sua vida. Se tiver dinheiro e não entende patavinas de matemática, sugiro que compre o Delphic Oracle, que te ofere os períodos, subperíodos e subsubperíodos. Tem período até dizer chega…

Como se interpreta?

Você pode sofisticar um pouco mais do que eu vou falar, mas isso já é suficiente:
Os decênios se interpretam pelos significados essenciais dos planetas envolvidos.
É simplesmente isso.
Veja um exemplo:

Entre 2003 e 2014, eu vivi o decênio de marte.
Quando você pensa nos significados de marte, o que lhe vem à cabeça? Brigas, acidentes, conflitos. Somados a esses, não tão óbvios, temos ainda viagens e irmãos. Todos esses são significados essenciais do planeta vermelho. São esses os significados que você deve esperar ver no decênio de marte.
Só que a pegadinha é: os decênios não indicam todos os eventos que acontecem dentro dele. Durante o período de marte, eventos que não tem nada a ver com os significados essenciais esse planeta podem acontecer, e portanto não são indicados por marte, mas por outras técnicas preditivas. É por isso que eu considero os Decênios uma técnica “específica”: ela serve pra se identificar alguns eventos, mas não dá uma visão geral de tudo que possa ocorrer no período em questão!
Além do mais, a interpretação dos subperíodos segue a mesma lógica. Veja como isso pode ser capcioso:
No dia 18 de novembro de 2007, eu me acidentei: uma queda de altura que me rendeu uma fratura grave da tíbia e da fíbula direitas. Vivia o decênio de marte, o que explica bem o acidente. Mas o subperíodo durante o mesmo tempo em que me acidentei era o de júpiter: marte/júpiter não é uma combinação que eu esperaria em acidentes… A menos que o acidente fosse motivado por questões esportivas ou acadêmicas. De fato, eu quebrei a perna dentro de uma faculdade, mas como você chegaria a essa informação antes de acontecer o evento?!
Se você estivesse com um cliente e ele estivesse nos decênios Marte/Júpiter, a única coisa que você poderia dizer é: cuidado ao praticar esportes ou ao transitar dentro da sua faculdade, pois nesses ambientes você pode se acidentar.
Daí você vai dizer: Rodolfo, Júpiter está na Casa 8 e, portanto, ele tem a ver com morte ou acidentes. Concordo contigo, mas a regra dos decênios é clara: só posso usar significados acidentais dos planetas. Fiz até esse vídeozinho explicando isso e usando como exemplo um período em que não vivi ainda, o de júpiter:

Além do risco de se acidentar em academias/universidades, o que mais marte/júpiter pode significar? Sendo criativo e usando apenas os significados essenciais dos planetas, temos o seguinte:
  • Acidentes (marte) envolvendo crianças (júpiter)
  • Seu irmão (Marte) pode ter um filho (júpiter)
  • Viagens (marte) para buscas espirituais (júpiter)
  • Etc...
Assim sendo, quando poderíamos usar essa técnica? Depois de se estudar técnicas mais gerais, como revolução solar e direções primárias, se estivéssemos na dúvida sobre determinado evento, poderíamos recorrer aos decênios como um critério de desempate. Como é uma técnica específica, se o planeta regente do decênio concordar com o evento que temido, então a chance dele ocorrer é muito maior.

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