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os dois tempos

A expressão "nos dois tempos" e suas sinonímias é muito comum nos livros de astrologia medieval. Está presente também na obra de Māshā'allāh (Book of Aristotle) principalmente a partir do Capítulo sobre técnicas preditivas. Entender seu significado é fácil, mas pô-lo em prática requer exemplos claros.
Quando o autor usa tal expressão, quer dizer que todo planeta deve ser analisado no mapa natal e na revolução solar - a época de nascimento e a época em que ele está vivendo. Por isso, dois tempos. Mas como se dá essa análise?
Durante muito tempo, fiquei completamente perdido diante da mesma. Achava que deveria dar um julgamento subjetivo - juntar tudo do planeta nos dois mapas e fazer uma espécie de "saldo" dos significados de ambos.
Tal análise se mostrava errônea à medida em que eu analisava mais e mais mapas. Mas, finalmente, eu me deparei com a obra de Morin, e obtive uma resposta satisfatória.
Na verdade, tanto as coisas que o planeta significa no mapa natal quanto as coisas indicadas pela revolução acontecem no mesmo ano, mas a síntese da interpretação não é nada complicada: devemos adicionar à interpretação do mapa natal aquilo que é obtido na revolução!
Um exemplo simples está na obra de Jean-Baptiste Morin de Villefranche (vide minha vida sob os astros): no ano de 1634, Morin expôs na corte francesa sua nova teoria de cálculo das longitudes, uma resposta ao desafio dado pelo alto escalão francês para se calcular longitudes em alto mar com facilidade. Uma comissão, formada pelo cardeal Richelieu, na presença de Morin, avaliou o método e concluiu que ele era correto, o que daria a Jean-Baptiste o prêmio. Entretanto, dez dias depois e sem o conhecimento do astrólogo, Richelieu formou nova comissão e voltou atrás no seu julgamento, negando a Morin a conquista.

Vejamos as configurações do céu para Morin em 1634. Ele vivia uma direção do Ascendente ao Sol. no mapa natal, o Sol está na Casa 12, o que promete inimigos secretos. Ao mesmo tempo, o Sol é significador essencial de títulos e reconhecimento em qualquer mapa. E foi exatamente o que aconteceu: Morin ganhou o reconhecimento pela sua obra mas Richelieu, um desafeto de Morin, tramou contra ele.

Seria fácil deduzir que a revolução não seria necessária para entendermos essa direção: afinal de contas, tudo que o sol representava no mapa natal aconteceu! Mas a revolução solar serve para delimitar o tempo em que a Revolução acontecerá e, ao mesmo tempo, detalhar como a direção vai acontecer.
A Revolução responderia, portanto, às seguintes questões:
  1. Se o mapa natal promete alguma honra pela direção, Morin a ganharia com o quê? 
  2. Se uma direção do Ascendente a um planeta tem efeito até que o mesmo se encontre com outro planeta por aspecto ou conjunção, então em que ano ela ocorrerá?

Na Revolução de 1634, o Regente da 10 está conjunto ao regente da 9, o que detalha exatamente como se dará a honra: ele ganhou reconhecimento por uma ciência, coisa atribuída ao eixo 3-9. Com isso, respondemos à primeira pergunta.
Quanto à segunda pergunta, ela pode ser muito difícil de ser respondida. Se o ano não prometer honras, ele não confirmará a direção, devendo ser analisado os anos seguintes, até que se encontre uma revolução digna da mesma.
Note que a resposta dada pela Revolução de 1634 independe da posição do sol, que é participante da direção que indica o evento. Essa talvez seja a principal diferença entre o método de análise moriniano e o método de Māshā'allāh:
  • Morin analisava qualquer planeta que tivesse relação com o tema, mesmo que não fosse participante da direção significadora do evento. 
  • Māshā'allāh recomenda analisar o planeta nos dois tempos, natal e Revolução, embora também aconselhe olhar significadores que possuam relação com o tema da mesma forma que Morin.
A análise de Māshā'allāh tende a ser mais completa. Na verdade, ambos os autores Além da casa 10, que guarda relação com o tema de honras e reconhecimento social, o autor recomendaria analisar a posição do sol na Revolução Solar, pelo simples fato dele ser o planeta participante da direção!

Seguindo as recomendações de Māshā'allāh, vê-se que o Sol está na Casa 7, outra significadora de inimigos. Quando um planeta na casa 12 vai para a casa 7, os inimigos secretos se declaram, e foi exatamente o que aconteceu. Agora Morin tinha certeza de que Richelieu conspirava contra ele!

Conclusões

Não existe essa coisa da revolução anular o mapa natal e vice-versa. Tudo que acontece no ano tem significados do mapa natal e da revolução, ao mesmo tempo ou em tempos diferentes ao longo do ano. Evidentemente, se um planeta estiver em bom estado na Revolução e em péssimo estado natal (ou vice-versa), aquilo que ele promete de bom acontecerá, mas virá acompanhado das dificuldades prometidas num dos mapas. O astrólogo não tem que misturar os significados, tampouco inibir um em detrimento do outro.

Aquilo que um planeta significa nos dois tempos certamente acontecerá, mas ele precisa ter "autoridade" no ano em questão, isto é, ele deve reger o ano pela profecção, ou estar presente numa direção ativa, ou reger o Ascendente da Revolução. Além disso, planetas que nada tem a ver com estes podem acontecer, se estiverem relacionados aos assuntos indicados pelos mesmos.

Comentários

  1. Oi Rodolfo! As imagens dos mapas não apareceram, teria como repostar?

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  2. Oi Rodolfo! Agora os mapas apareceram. ótimo post! mas uma dúvida: quais são as suas configurações pras direções primárias? Eu uso zodiacal, Naibod, estático, sem latitude (uso o programa Morinus). Assim, a direção primária de 1633 é um trígono a Vênus (também da casa 12, mas não ligado a honras), e o Sol só aparece em 1637...

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