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Como interpretar Revoluções Solares - o método moriniano

Estou há alguns meses sem escrever por aqui, então aqui vai a razão.

Penso em escrever um livro com minhas idéias mais elaboradas, que merecem ser desenvolvidas num texto mais amplo do que um artigo de blogue. Apesar de gostar muito de astrologia indiana e medieval, o livro seria focado apenas na última, mais especificamente nas revoluções solares, mas com elementos sutis da jyotisha, como na interpretação de casas.

Como eu usaria elementos de ambas as astrologias, não sei se poderia chamar o livro de astrologia medieval. Os puristas torceriam o nariz. Entretanto, os métodos que ensinarei no livro são claramente medievais e renascentistas. A única coisa que eu incluiria da jyotisha seriam alguns significados de casas que considero interessantes e que, se a pessoa analisasse mais a fundo, fazendo referências cruzadas com textos helênicos, poderia até considerá-los plausíveis dentro da astrologia medieval.

Então, vou repetir: o livro não mistura astrologia medieval e jyotisha. Ele é essencialmente medieval, mas considera alguns significados de casas da astrologia indiana.

Mudança de estado

Vamos escolher um fato banal, sem grandes arroubos emocionais, para mostrar que a técnica também é capaz de perceber eventos moderados. No ano de 2013, me mudei do Rio para São Paulo, devido ao meu relacionamento e a questões profissionais. Seria possível prever isso?

As primeiras técnicas a serem analisadas são aquelas que abarcam grandes períodos de tempo, como Firdāriyyah e direções primárias. No meu aniversário em 2013, tinha acabado de entrar na Firdāriyyah da Lua, regente da Casa 4, que significa mudança de residência.

Mapa Natal

As direções primárias não traziam algo diferente. O Sol é almuten do meu Ascendente e, por direção, ainda está sob influência do promitor Lua - como dito, regente da 4 - com o qual entrou em conjunção, por direções primárias, em 2010. (Lembre-se de que as direções valem enquanto o significador não faz aspecto com nenhum outro promitor. O Sol só vai fazer aspecto novamente com outro planeta em 2017, e até lá está sob a influência do promitor Lua ).

Como essas técnicas indicam períodos de tempo superiores a um ano, precisamos analisar as revoluções solares para estreitar o período de tempo, definindo em que ano os eventos ocorrem. Durante muito tempo, essa foi a parte que mais me deu medo, porque era muito complicada. Mas observando o método que Morin usa no seu livro 23 (sobre revoluções Solares), percebi que os princípios da mesma são extremamente simples. Morin fazia nada mais do que procurar na revolução os mesmos sinais presentes nas direções, ainda que fossem significados por planetas diferentes.

Por exemplo, se a Firdāriyyah indica mudança de residência para o nativo, precisamos identificar nas revoluções solares durante esse período momentos em que qualquer significador do nativo interaja com qualquer significador da casa 4. As regras nesse ponto são extremamente flexíveis, podendo ser:

  1. Conjunção ou aspecto dos regentes das casas envolvidas na revolução
  2. Conjunção ou aspecto dos regentes das casas natais envolvidas, mas na revolução
  3. Aspecto entre os significadores do mapa natal e os significadores da revolução, como numa sinastria.

Se você não entendeu, aí vai exemplos para cada um dos casos acima, no mapa de 2013:

Revolução de 2013
  1. Casas 1 e 4 (ou seus regentes) na Revolução interagem? o regente da 1 na Revolução está domiciliado na 6 (marte em Áries) e é dispositor de Saturno, regente da 4 na Revolução. Além disso, seria suficiente perceber que o regente da 4 na RS (Saturno) está na 1 da RS.
  2. Regentes das Casas 1 e 4 do mapa natal, porém posicionados na Revolução, interagem? Sim! Tanto marte, regente da 1 natal, quanto o Sol, almuten da 1 natal, fazem oposição com a Lua, regente da 4 natal. 
Roda dupla: Natal no centro, revolução de 2013 na periferia.

3. Há algum interaspecto entre a figura natal e da revolução dos respectivos regentes, independente do mapa analisado? Sim. Marte da Revolução Solar (regente da 1 natal, no mapa da periferia) faz oposição a Saturno natal (regente da 4 da RS, mas posicionado no mapa central)

Como você pode ver, há combinações das Casas 1 e 4 nas três perspectivas. Isso é sinal forte de que eu me mudaria em 2013, e a mudança seria significativa, porque a Firdāriyyah e as direções indicam eventos significativas.

Uma pitada de ceticismo

Auto-crítica é a melhor forma de solidificarmos nosso aprendizado. O exemplo acima é maravilhoso para comprovar minha teoria mas, se pelos mesmos princípios, eu concluir que vou me mudar num ano em que isso não acontecerá, a técnica é apenas uma fantasia.

Revolução de 2014. Note que o Ascendente natal está muito próximo da cúspide da 4, em Áries. Entretanto, não houve mudança de residência nesse ano. A resposta para isso pode estar na quantidade de sinais indicando um mesmo evento.

Para testá-la, vamos usar os mesmos princípios para o mapa de 2014, quando já estou morando noutro estado e tanto a direção Sol-Lua quanto a Firdāriyyah da Lua ainda estão ativas. Soma-se a isso que o ano praticamente está acabando para mim (faltam três meses pro meu aniversário em 2015) e eu não tenho planos de me mudar novamente.

Ainda usando as três perspectivas acima (significadores da revolução, significadores natais dentro da revolução e aspecto entre o mapa natal e a revolução), será que o ano de 2014 indica mudança?

Observando a figura, vemos que a Lua é significadora natal da 4 e em 2014 está em trígono com marte, regente do ascendente natal e regente da 4 na revolução. O Ascendente do mapa natal está na Casa 4 da Revolução Solar, que seria outra indicação.

Afora esses dois sinais, não há nada mais palpável. Compare com os quatro sinais da revolução de 2013 e perceba que há muito mais evidência de mudança. Com isso, concluímos que a técnica ainda tem esperança de ser útil e que talvez seu modo de ação consista em identificar os anos nos quais há vários sinais do mesmo evento na revolução solar para que as promessas das direções e da Firdāriyyah ocorram no mesmo ano.

Conclusões

Astrologia não é uma coisa preto-no-branco, tudo-ou-nada, binária. Não me surpreende encontrar sinais de mudança em anos em que elas não ocorram. Uma solução plausível para encontrar os anos corretos seria o número de contatos entre os significadores. Perceba em 2013 quatro sinais indicando o mesmo evento, enquanto na revolução de 2014 temos apenas dois.

O tipo de aspecto entre os significadores deve ser igualmente importante. Trígonos e sextis não seriam suficientes para indicarem mudanças significativas, e o contrário se supõe de quadraturas, oposições e conjunções. Na figura de 2013, todos os significadores se uniam por conjunção ou oposição, enquanto na de 2014, os significadores se unem por trígono.

Mais um detalhe importante: as direções e a Firdāriyyah podem indicar um tipo de evento que ocorre várias vezes, enquanto elas estiverem ativadas. Eu posso me mudar de casa duas vezes ou até mais durante a período da Lua, se as revoluções concorrerem para o mesmo evento.

Não há uma resposta clara para sabermos a quantidade de vezes em que um tipo de evento pode ocorrer durante o período de atividade da sua direção, mas uma boa análise natal dos significadores envolvidos pode ser interessante. No meu caso, com a lua em signo fixo, a probabilidade de eu me mudar mais de uma vez na Firdāriyyah lunar é pequena. Espere que promitores em signos cardinais indiquem uma multiplicidade de eventos do mesmo tipo, enquanto signos fixos apenas um.

Comentários

  1. A primeira e ótima notícia é sobre o seu livro. Você é um excelente astrólogo, e somos carentes destas releituras das técnicas, através das mãos de profissionais competentes, e sobretudo, de origem nacional (ao menos na língua).

    Sobre o artigo em si, muito bom Rodolfo; entretanto, fiquei confuso quando fez questão de diferenciar um ano do outro em relação à mudança e fez menção aos aspectos, compreendi que os trígonos e sextis são menos potentes para precipitar o evento, é isto? (E que as conjunções, quadraturas e oposições, assim como as recepções, teriam esta força).

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  2. Obrigado pelas considerações

    Note que ambos os anos tinham algum sinal de mudança, entretanto eu permaneci o ano inteiro de 2014 no mesmo endereço. Isso mostra que os anos onde os sinais do evento são precipitados por trígonos e sextis seriam menos "enérgicos" e desconsiderados se comparados aos anos onde houvessem quadraturas, conjunções e oposições entre os significadores.

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  3. A profecção dá o mesmo resultado.

    Para 31 anos a profecção cai na CVIII onde está Jupiter - regente da CIX -(viagens) e também Regente de exaltação da CIV (residencia) oposto à Lua - regente da CIV (residencia). Logo vai mudar de residencia associado a viagem para longe.

    Também, como regente da CVIII (Marte) está na CVII (relacionamento) conjunto a Saturno (Regente da CX), a mudança está associada a relacionamento e questões profissionais.

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