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Parem de criticar os horóscopos

É comum astrólogo ou estudante de astrologia torcerem o nariz quando se fala em horóscopos. Não à toa, do lado do turbante, do incenso patchouli e da música new age, eles são o clichê que dão a péssima reputação da astrologia.

Também é comum se ouvir por aí que horóscopos são frases selecionadas aleatoriamente por jornalistas, e talvez seja verdade em muitos jornais que querem economizar não contratando um astrólogo. Mas horóscopos sérios se baseiam numa técnica, assim como os dashas e as revoluções solares. E, pasmem: tanto essas técnicas, quanto as técnicas empregadas no horóscopo, tem uma coisinha comumente esquecida pelos deslumbrados, chamada de MARGEM DE ERRO. Em outras palavras: tanto o astrólogo figurão estóico, que só lê o mapa à luz das regras de Morin, quanto o escritor de horóscopos podem errar. A diferença é que a margem de erro do "horoscopista" é muito maior - mas isso não invalida a técnica.

Não vou falar aqui do problema filosófico dos horóscopos, que foram uma estratégia de massificação da astrologia adotada no início do século XX no New York Times. Há quem ache isso suficiente para desprezá-los por completo. Mas eu os considero como uma técnica "rule of thumb" (em outras palavras, uma técnica de previsão grosseira). A astrologia indiana está cheia de técnicas assim e nem por isso são desprestigiadas. Veja, por exemplo, o Prasna Marga e suas várias técnicas rapidinhas de resultados grosseiros.

O horóscopo cria o chamado "mapa solar". Ele considera o Sol da pessoa como um Ascendente, e os planetas são lidos dessa perspectiva. Muitas pessoas vêem que seus horóscopos funcionam, e isso pode não ser mera sugestão psicológica. Pasmem: horóscopos podem funcionar!

Mas é claro que a margem de erro de um horóscopo é muito maior. Quanto mais eu individualizo a previsão, menores as chances de se errar. Afinal de contas, não se pode calcular dashas, revoluções solares e direções para milhares de leitores do horóscopo da Folha de São Paulo!

Astrologicamente, existe um modo de explicar/justificar quando os horóscopos (sérios) funcionam e quando não? Pela ótica de Morin de Villefranche, sim. Isso seria explicado à luz da teoria das determinações.

A grosso modo, Morin acreditava que um planeta precisa estar determinado a uma casa para que seus efeitos se referissem a ela. Portanto, segundo Morin, horóscopos funcionarão para as pessoas que tivessem o sol fortemente determinado ao ascendente - a Casa que representa a pessoa. Essa determinação pode ser dada por posição (sol dentro da Casa 1). Portanto, toda pessoa que nasceu um pouco antes, durante ou depois do nascer do sol, teriam a benesse de poder ver suas previsões no segundo caderno do jornal...

Para os indianos, há muitos mais motivos dos horóscopos funcionarem. Primeiramente, o Sol é considerado o karaka (produtor) da alma, ou atma. Portanto, independentemente do mapa analisado, o sol significará a alma da pessoa e sua inteligência. Os indianos costumam fazer paka lagnas, que são ascendentes secundários dentro do mapa da pessoa. Assim, quando um jyotishi (astrólogo) queria delinear a vida da mãe do nativo, ele considerava a lua como o Ascendente materno, e criava casas a partir deste (ele não fazia apenas isso, claro). Portanto, o signo da lua seria o ascendente, o segundo signo a casa 2, e assim sucessivamente. Só que isso não serve apenas à mãe: qualquer planeta ou casa pode ser usada como paka lagna.

Seguindo a ótica dos indianos, qual seria o problema de se considerar o Sol como um paka lagna para a alma da pessoa? Problema nenhum. Tanto que eles já fazem isso, mas de forma anual, uma técnica que lembra muito a profecção, chamada de Sudarsana Chakra. Mas isso é papo pra outro artigo.

Portanto, para os indianos, os horóscopos de jornal seriam nada mais que os trânsitos sobre paka lagnas do Sol. As atividades dos trânsitos ao redor do Sol refletiriam as mudanças da alma do nativo - na prática, as pessoas não são tão dissociadas assim da sua alma, e portanto geralmente uma mudança da alma acaba refletindo no exterior. Por isso que os horóscopos funcionam pra muita gente.

Apenas um exemplo.

Vamos fazer um mapa solar (horóscopo) para uma pessoa com sol em aquário. Basta considerar o Sol como um Ascendente, seja lá em que casa ele estiver. Portanto, nem precisamos colocar um mapa de exemplo aqui. Basta saber onde estão os planetas em trânsito:
Sol em Câncer
Vênus em Gêmeos
Mercúrio em Gêmeos
Marte em Libra
Júpiter em Câncer
Saturno em Escorpião
Com essa informação, podemos criar um horóscopo. Como não tenho experiência com horóscopos, é claro que ele será rudimentar.
As pessoas com o Sol em Aquário passam pelos últimos dois anos a cogitar decisões definitivas na esfera profissional, pois saturno está em escorpião, 10º signo a partir da alma. Sendo Saturno regido por marte, recentemente essas decisões são motivadas devido a acusações, ou problemas espirituais, porque marte está no nono signo e aqui tem ficado por quase seis meses, devido ao seu movimento mais lento e às suas retrogradações. Aquarianos podem estar sofrendo acusações dentro do seu trabalho, e isso dará mais combustível ainda para tomar decisões definitivas na esfera profissional 
(ao ler o trecho acima, o qual se refere a marte, é natural ter descrença quanto a horóscopos. Realmente, é difícil imaginar milhões de aquarianos sendo acusados de alguma coisa: é claro que isso tem de ser generalizado milhares de vezes. Pode ser desde um político aquariano numa cpi até mesmo um pedreiro aquariano sendo acusado de chegar bêbado no trabalho - essa personalização só pode ser alcançada interpretando isoladamente o mapa natal destes indivíduos, é claro).
Nesse ano, porém, passam por uma melhora das suas condições de trabalho, porque Júpiter está exaltado na 6 (a partir do Sol), e podem ser reconhecidas pelas suas habilidades devido a isso. Agora a fase é de ser mais criativo, e quem sabe dar um toque mais estético no seu trabalho, pela passagem de vênus e mercúrio na 5. 
Agora, sem deslumbramentos: isso funcionará pra todos os aquarianos? Claro que não, né?! Se, por um lado, o paka lagna do Sol pode ser feito em qualquer mapa, nem todos os aquarianos vão sentir seu horóscopo.

Ainda não há razões claras para explicar a ausência de resposta, mas tenho a seguinte hipótese: pessoas com o Sol angular em seus mapas (nas casas 1, 4, 7 ou 10) tem uma chance maior de terem suas vidas representadas por horóscopos do que pessoas com o sol cadente ou sucedente. Claro que, para definir isso, seria necessário uma pesquisa maior, coisa que não me compete no momento.

Por isso que eu digo: falar mal de horóscopos feitos com seriedade é dar um tiro no próprio pé, pois são feitos com o mesmo raciocínio que você usa nas técnicas de previsão dos seus mapas natais. Enquanto você usa duas ou mais, o horoscopista usa apenas mapa solar.

Além do horóscopo escrito pelo Gregório Queiroz, eu não sei quais são feitos com técnica. De qualquer forma, onde estiver a técnica astrológica, ali estará o meu respeito pelo profissional que se sente diante de um computador para escrever esses tuítes de sabedoria celeste.





Comentários

  1. Amigo, já ouvi dizer (ou li) que a origem de horóscopos solares de jornal [em massa, claro] nasceu na Inglaterra puritana do séc XIX, como entretenimento, para não serem perseguidos por uma lei anti-ocultismo, o Alan Leo, se não me engando, vou pesquisar melhor, mas se for assim, criticá-los seria quase o mesmo que criticar um povo mudar seus sobrenomes, para escapar a morte Nazista. Não se deveria criticar isso. Além do mais, se algo de astrologia é re-conhecido hoje e nos últimos 40 anos (antes da febre da net) , do Oiapoque ao Chui, é devido aos horoscopo de revistas e radio do falecido Omar Cardoso, nosso garoto propaganda. Abraços.

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