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Previsão com trânsitos na jyotisha - Parte 1

Quando se trata de prever com trânsitos, aí é que vemos o quão complexa a jyotisha pode ser. Se você costuma praticar astrologia sem tabelas de ajuda ou folhas com anotações, vai cada vez mais precisar delas.

Os trânsitos são usados para se saber o mês ou o dia em que um evento vai acontecer. Por ser a parte mais imediata da experiência astrológica (ou seja, eles acontecem ao mesmo tempo que o evento),  entende-se porque é tão excitante, mesmo para um astrólogo experiente, perceber a vivência dos trânsitos.

Enquanto você lê esse texto, vários trânsitos ocorrem no céu, sobre seu mapa e entre os próprios planetas do céu do momento. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Por outro lado, nós temos vários eventos acontecendo na Terra ao mesmo tempo. O que diferem os eventos são seus significados e graus de significância que eles tem para a pessoa; contraditoriamente, no céu, é muito difícil distinguir graus de importância entre os diversos trânsitos. Melhor nem tentar fazer isso: em matéria de trânsitos deflagrando eventos, me parece que o mais importante é a quantidade, e não a qualidade.

Você pode estar lendo esse texto e querendo alguma mudança impactante na sua vida, (para melhor, é claro). Para esse tipo de coisa, vários trânsitos tem de ocorrer ao mesmo tempo, e conspirando para a mesma coisa. Além disso, como se trata de configurações que se repetem no céu, só se usa trânsitos após se estreitarem as possibilidades de eventos indicadas pelos dashas. Senão, fica quase impossível prever, porque trânsitos são uma janela quase sempre aberta para otimistas (ou pessimistas) doentios.

Por exemplo: suponha que a casa 2 (posses) esteja em Peixes e você quer saber quando vai ter um aumento no seu patrimônio. Júpiter hoje está no final de Gêmeos, fazendo uma quadratura com Peixes. Quando ele entrar em câncer, ainda fará um aspecto com Peixes (dessa vez, um trígono). Ou seja, mesmo sendo Júpiter um planeta lento, perceba que a chance dele entrar em contato com um signo específico não é única. Por dois anos, ele continuará fazendo contato com a hipotética casa 2 em Peixes. Em 12 anos (tempo que ele completa um ciclo zodiacal), Júpiter faz contato com Peixes em 75% do tempo, 9 anos! No entanto, nenhum ser humano (exceto o Eike Batista e os milionários da Forbes) sente que seu patrimônio aumenta 9 anos consecutivos!

Para resolver dilemas como esses que temos os dashas. Eles indicam todos os eventos, desde os mais banais até os divisores de águas. Contudo, como eles servem para se estudar longos períodos de tempo, é evidente que as pessoas usam dashas para localizar no tempo o que for mais importante. De fato, eles são mais adequados para eventos grandiosos - aqueles dos quais você se lembrará anos depois.

Com o dasha, eu estreito mais ainda as possibilidades. Júpiter continua ativando peixes em 75% do tempo, mas como sabemos que você não é nenhum Eike Batista ou Warren Buffet, o dasha/antardasha especifica um ano em que você vai sentir que o patrimônio aumentou. Depois de se saber o dasha/antardasha, os trânsitos entram para saber a hora exata em que você sente a mudança, ou que o evento acontece.

Ou seja, se o dasha prometer um evento, ele será um divisor de águas na vida da pessoa, e os trânsitos durante o dasha ajudarão a encontrar esse momento importante.

Sem os dashas, os trânsitos continuam a indicar eventos. Não existe técnica astrológica que não funcione sozinha; entretanto, como os dashas não mostraram nada demais, não espere que um evento isolado dos trânsitos mostre algo grandioso, pois será muito maior a probabilidade do contrário.

Um exemplo seria importante. Se o seu dasha/antardasha indicar que você vai se casar, trânsitos entre os significadores do casamento e do nativo indicarão a data em que você vai conhecer a pessoa que vai se casar contigo. Provavelmente à época de conhecê-la, você pode ainda não ter se conscientizado de que ela será a pessoa com quem você viverá por anos e anos; mas, como o dasha indica isso, é certo de que ocorrerá.

Sem que haja um dasha indicando casamento, a pessoa que você conheceu apenas foi um casinho insignificante, uma noite da qual você pode se lembrar ou não, ou você pode apenas namorar com essa pessoa por um tempo indeterminado para depois terminar com ela*.

Portanto, os trânsitos são legais para prever o dia do evento. Talvez por serem complexos e apenas refinarem o tempo do evento, muita gente tenha abdicado deles. Você há de convir que astrologia é um ofício sobrenatural e difícil de se fazer. Qualquer coisa que se acerte é um enorme lucro para a pessoa. Nessas circunstâncias, prever o dia exato é um luxo. Entretanto, como o estudo sério da Astrologia apresenta uma ascensão nos últimos anos, as coisas mais preciosas gradativamente vão se tornando mais acessíveis e, se a astrologia séria não for uma moda como foi nos anos 80, nos próximos anos mais e mais pessoas estarão prevendo os eventos no dia exato.

Na próxima parte, eu vou mostrar maneiras de se trabalhar com trânsitos que você pode achar meio complicado - talvez por nunca ter usado lápis e papel para fazer uma previsão. São coisas simples, mas em número assombroso e que ocorrem ao mesmo tempo. Portanto, não se desiluda: a dificuldade não reside no entendimento, mas sim no trabalho.

____________________
*Na astrologia, ao contrário do que se alardeia, namoros longos ainda são vistos como tais.  Um namoro de 7 anos não é um casamento, porque o casal, nesse tempo todo, não viveu junto. Enquanto um não morar com o outro e não houver nenhuma cerimônia que mostre um rito de passagem para outra vida, não há casamento na Astrologia - ativações apenas da casa 7 do nativo indicam somente o envolvimento sexual com alguém, nada mais profundo do que isso. Na jyotisha, o casamento é indicado por ativação da casa 7 seguido da ativação da casa 9 (que indica a cerimônia de casamento, religiosa ou não), ou da casa 5 (que é a 9ª da 9ª, por Bhavat Bhavam).

Comentários

  1. Interessante! Aguardo ansiosamente os próximos posts. Parece que há pouca literatura sobre trânsitos, tanto na astrologia védica quanto na ocidental. No ramo védico, Ernst Wilhelm recomenda o Phala Dee Pika.

    Um outro assunto que parece ser relativamente difícil de encontrar, e dessa vez só na jyotisha, é Astrologia Horária (Prashna). Ela se mostra tão eficiente quanto a ocidental? É tão simples (relativamente) quanto?

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  2. Oi Márcio. Talvez Prasna tenha sido a única decepção que tive ao estudar Jyotisha. Comparado ao sistema de horárias da astrologia medieval ocidental, é complicado e aponta para várias direções ao mesmo tempo, praticamente sem elucidar se a questão será positiva ou não. Numa questão de casamento, a Prasna mostra vários sinais simultâneos de sim e de não, o que pode ser salvador para os otimistas, é um veneno para os pragmáticos...

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  3. Olá, Rodolfo. Interessante mesmo o texto. Agora me vem uma dúvida, é possível utilizar uma técnica védica sobre astrologia ocidental clássica? Utilizar esse conhecimento etc?

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