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Prana Dasha e os detalhes da previsão

Se você ignorar astrologia Jyotisha, não vai entender muito esse artigo. Tentarei ser simples, mas lembre-se que há muita coisa disponível para preencher as lacunas da sua ignorância a respeito do tema.
Vimshottari Dasha é o nome da técnica preditiva mais usada na Índia, que divide a vida da pessoa em períodos, muito similar à Firdaria.

Cada período planetário tem uma extensão grande e, por isso, pode ser dividido em sub-períodos menores. Por conseguinte, cada subperíodo pode ser dividido em períodos menores ainda, até o último nível, chamado de Prana Dasha. Abaixo, eu mostro todos os níveis:
  • O Maha Dasha seria o período superior, de grande duração, que pode ser dividido em Antar Dashas;
  • Os Antar Dashas podem ser divididos em Pratyantar Dashas
  • Os Pratyantar Dashas podem ser divididos em Shooksma Antar Dashas
  • Os Shooksma Antar Dashas podem ser divididos em Prana Dashas, o que seria o último nível de divisão para muitos astrólogos (embora haja programas que os dividam em períodos de tempo menores ainda).
Como há matemática envolvida no método, sabemos que é tentador dividir ad infinitum esses períodos, mas há alguma razão metafísica em se parar na quinta divisão, a Prana Dasha. Na jyotisha, há cinco elementos, podendo atribuir um elemento para cada nível dos dashas. Usando essa informação, sabe-se o que extrair de cada período. Em tese. Abaixo, eis as informações, dadas por Ernst Wilhelm, sobre cada nível:
  1. O Maha Dasha representa o teto do que pode acontecer no dasa - todos os níveis de dasa operam somente no contexto daquilo que o Maha Dasha provê.
  2. O Antar Dasha prepara o indivíduo para o evento - ele o move para o local do evento. Secundariamente, ele provê alguns detalhes relevantes ao evento.
  3. O Pratyantar Dasha indica um desejo crescente pelo evento e atividade em direção ao mesmo.
  4. O Shookshma Antar Dasha representa as circunstâncias imediatas que permitem que o evento aconteça
  5. O Prana Dasha é o evento concreto e revela os detalhes da pessoa, coisa ou lugar que vem à vida da pessoa.
Como dizem os americanos, "easier said than done". Na verdade, ninguém, nem mesmo o próprio Ernst, usa a maioria dessas informações. A única que ele, eventualmente, usa, seria a última: a simbologia do Prana Dasha.

Não usar tudo isso tem uma razão simples. Quem costuma usar Vimshottari Dasha para fazer previsões, normalmente não consegue trabalhar até o último nível, que é chamado de Prana Dasha. Se você conseguir trabalhar até o Pratyantar dasha (3º nível) com algum sucesso, considere-se um mestre. Quanto mais dizer que o planeta "indica um desejo crescente pelo evento".

Eu também não consigo usar muito VD pela dificuldade da técnica pra mim, mas tenho me divertido em perceber a hora exata em que alguns eventos começaram na minha vida, e correlacioná-los com o significado do Prana Dasha.

Eu tenho feito um diário para tentar registrar os eventos da minha vida, desde simples elucubrações até eventos objetivos, testemunhados por mais de uma pessoa. Usando isso, resolvi analisar uma situação que se repetiu mais de uma vez nos últimos 12 meses, que seriam o ingresso em novos empregos.

Como vocês sabem, médico tem emprego de sobra, só não tem o emprego que quer. Essa situação faz com que a rotação de empregos - lê-se "plantões" - seja quase uma rotina na medicina. Como eu nunca chego atrasado (ao menos no primeiro plantão de cada emprego...), fica muito fácil saber os prana dashas que estavam ativados quando eu os comecei.


Ora, Prana Dasha é usado para ver os detalhes do evento. Por exemplo: se você tem a hora em que comprou seu carro, acessar o signo do planeta regente do Prana Dasha revelaria a cor do mesmo. Nesse caso, o mapa divisional mais adequado poderia ser o D16 (Shodamsa), que significa veículos.  Assim, se o Prana Dasha for a Lua em Touro, seu carro seria glamouroso e encantador (Lua) e teria a cor branca (Touro*).

No caso da dasamsa, estamos vendo os grandes feitos de uma pessoa. Se a pessoa não for um ditador ou revolucionário, os grandes feitos dela são simplesmente aquilo que ela faz para demarcar sua posição e função na sociedade. Em outras palavras, empregos e ações públicas.


O que acho muito interessante é que, nos últimos três empregos, o Prana Dasha que estava ativado era Rahu ou Júpiter, e isso diz muito a respeito sobre meu mapa, chamado Dasamsa:


Minha Dasamsa mostra que tanto Rahu quanto Júpiter estão em Virgem, no décimo segundo signo da mesma (quadradinho do canto inferior direito da figura). Ao contrário da Astrologia Ocidental, as associações entre o signo e seu número no zodíaco (contado a partir de Áries) revelam alguma coisa sobre os temas do Signo. Portanto, Virgem tem uma relação clara com doença e tratamentos.

Planetas em Virgem possuirão alguma relação com doença, mas isso não significa que a pessoa será médica. Na jyotisha, a profissão de médico alopata é indicada por Rahu ou combinações Lua/Mercúrio em conjunção com o Atmakaraka/Padas. Pois eu tenho os dois, em dois mapas importantes (Navamsa e Shastiamsa).

Na Dasamsa, Júpiter, rege as cúspides das Casas 3 e 10. Rahu está em Virgem e entrega os resultados de mercúrio, este regendo as cúspides da IV e a IX. Mercúrio também dispõe de Júpiter, o regente da 10. Logo, Júpiter e Rahu dizem quase a mesma coisa nesse mapa: possuem relação com carreira.

No caso em questão, é fácil perceber que Virgem teve a ver com medicina porque já aconteceu; a mesma coisa com Júpiter e Rahu. Portanto, não devemos ser muito específicos com Prana Dasha, a menos que seja simples e que saibamos o que procuramos. Por exemplo, prever a cor do carro/casa pode ser algo interessante, assim como as características físicas do parceiro. Não é muito útil, mas pode impressionar o consulente.

As pessoas costumam tentar usar os dashas até o nível mais inferior que elas consigam, e usam os trânsitos para confirmar o que vêem. Meu professor, Ernst Wilhelm, faz um pouco diferente: ele usa os dashas até o pratyantar dasha e tenta ver o mês do evento por trânsitos. Aí sim, com o trânsito correto, ele vê o Shookshma Dasha, e tenta especular sobre qual seria o Prana Dasha. Mas até chegar a esse ponto, sua-se muito a camisa. É brincadeira de gente grande e, nesse caso, aprender não garante que você já vai sair por aí fazendo tudo certo. Depois que você entendeu a técnica, é preciso alguns anos para dominá-la e diminuir seus erros.

Astrologia jyotisha é maravilhosa, mas ela pode nos engolir e nos entorpecer com os detalhes. É preciso alguns anos para separar o joio do trigo dentro do mapa e chegar um resultado consistente na previsão. Podemos fazer previsões sem estudar o Prana Dasha, mas esse blogue serve pra mostrar o que existe no estudo contemporâneo das astrologias antigas. Se um dia você precisar disso, estará à disposição.


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*O esquema de cor que uso é baseado no livro Mani Mala (não há tradução para língua moderna) e pode ser aprendido no curso de jóias e minerais na Astrologia de Ernst Wilhelm.

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