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8 anos de astrosphera

O blogue comemorou 8 anos no dia 1º de maio. Então vamos fazer aqui uma pequena retrospectiva do seu conteúdo, que se entrelaça com as mudanças da astrologia que eu pratico.

Originalmente, este blogue começou como muitos outros, nos quais se publicam pensamentos aleatórios sobre os quotidianos dos 'blogueiros' - função essa que hoje é relegada mais ao Facebook ou ao Twitter. Hoje em dia (2013), blog é para especialista amador nalgum assunto.

Não posso dizer que fui pioneiro nessa tendência de amadorismo, porque não sei - e nem me interessa saber - se já havia um brasileiro produzindo conteúdo especializado de astrologia e publicando num blog. Com certeza, posso dizer que os sites de astrologia já abundavam.

Em 2005, era acadêmico de medicina, e foi muito breve a fase de publicar meus relatos sobre a faculdade, ou minhas poesias. Nessa época, o site se chama Plantaleão, um nome ridículo que coloquei como inspiração num sonho que tive, e que funcionava como um pseudônimo. Adotei em seguida o nome de 'Psicoléxico', e dei um inventivo subtítulo de "diário astromedicopsicanaliticodélico", mostrando com clareza aquilo que eu gostava de escrever no blogue até então.

Não era necessário ser muito astuto para ver que minha vida pessoal não tinha nada muito interessante. Era um jovem de formação evangélica, fazendo uma faculdade de medicina, tendo interesse intelectual por coisas pagãs, e também descobrindo as boas coisas do mundo, que eu voluntariamente velei de mim mesmo por anos devido à minha educação pudica e romantismo nato. Portanto, em 2005, houve uma transição da fase de escrever poesias e falar da minha vida pessoal para dar lugar aos artigos de astrologia - porque era disso que mais gostava de escrever. Para as poesias, criei um outro blogue e mantive nele o nome Psicoléxico, reservando-o para falar apenas de poesia. Ele existe até hoje.

Os sebos da Avenida Passos

Nesse mesmo ano, minha vida astrológica deu uma guinada pois, numa bela tarde, adentrei os sebos da Avenida Passos, onde sediava-se a Sociedade Espírita Brasileira, a Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa e, ironicamente, o famoso puteiro Hotel Paris, que hoje não existe mais (dizem que até encenaram uma peça experimental nele), no Centro do Rio de Janeiro. Nessa babel místico-erótico-teológica, descortinei os primeiros véus da minha ignorância astral.

A região da Praça Tiradentes tem uns dez sebos ou mais. Dois deles, um na Avenida Passos e outro atrás do teatro João Caetano, estavam abarrotados de livros que não se acham facilmente. Imaginava que algum velho esotérico tinha morrido e sua coleção se espalhara por aí. Então, com o pouco dinheiro do qual dispunha, consegui adquirir a maioria deles.

Eram livros de Astrologia Moderna (um livro enorme do Noel Tyl chamado "síntese e aconselhamento na astrologia" e outros pequenos), Astrologia Indiana (mais de um livro do tal System's Approach do V. K. Choudhry e um livro do Rao). Tinham até mesmo livro de astrologia ocidental influenciado pela indiana (o interessante "the Astrology of Death", do Richard Houck). Tenho esses livros até hoje.

Também nessa época - e na mesma pitoresca região - comprei os primeiros livros de astrologia Medieval. O primeiro, de um tal de Abu Ali Al Khayyatt, chamado "Sobre o Julgamento das Natividades", era editado com uma fonte horrível de se ler, parecia de impressora matricial, mesmo se tratando de um belo conteúdo: uma tradução, para o inglês moderno, feita pelo grande James Holden sobre o texto em latim de João de Sevilha, um dos maiores tradutores do medievo de livros de astrologia.

O segundo livro, um fác-simile de páginas datilografadas da década de 30, com diagramação feita na maior boa vontade do mundo. Tratava-se do "Livro da instrução sobre os elementos da arte da Astrologia", do Al-Biruni.

Esses dois últimos livros, eu deixei de lado por uns tempos. Ainda era uma pessoa de mentalidade banal, e achava que astrologia medieval era motivo apenas de interesse histórico. Não sei ao certo o dia em que enlouqueci... Mas foi entre 2005 e 2006.  

Dos artigos dessa época, não apaguei um pixel sequer: os artigos de Netuno, de midpoints, de qualquer outra coisa que hoje abomino, ainda estão aqui ao lado, para o deleite (ou não) do leitor.

O Ano de 2006, Astrosphera e a mudança radical para a Astrologia Medieval.

De 2005 para 2006, conheci melhor a Astrologia Medieval através do site de uma das pessoas mais generosas com a qual tive o prazer de me corresponder: Paulo Alexandre Silva, do site Astrologia Medieval, o primeiro site em português que tratava exclusivamente do tema. Foi dele o vento que me impulsionou a entrar na página da New Library e fazer o curso do Robert Zoller de astrologia Medieval.

Acho que o artigo que mais me assustou na página do Paulo foi o estudo do Hyleg e do Alcocoden, que ensinava a prever a expectativa de vida de uma pessoa pelo mapa astral, usando o mapa de Marlon Brando como exemplo. Àquela época, a frase anterior seria terminada com um ponto de exclamação...

Tratava-se de um mundo novo para mim, que estava contido num mundo velho, de mais de mil anos atrás... Além disso, tudo isso sinalizava que eu poderia realizar a razão pela qual eu me aproximei da astrologia, mas que foi esmorecida com os primeiros estudos, de astrologia moderna: eu queria prever o futuro. Desde o início, tive essa motivação.

Além disso, achava o máximo estudar uma coisa muito velha porque, ao fazer isso, parecia que me tornava uma espécie de Indiana Jones nerd... Gosto mais de estudar astrologia do que praticar, embora goste de livros que sejam voltados para a prática.

Quando li aquele artigo, vi que não poderia mais viver sem entrar em contato com astrologia medieval, e fui logo perguntando ao Paulo sobre as coisas com as quais eu entraria em contato nos anos seguintes... Livros e cursos, que me pareciam inacessíveis, pouco a pouco se descortinando diante das minhas retinas.

Ainda hoje, o curso do Zoller é a melhor coisa a se fazer para aprender astrologia medieval. O preço, para mim, era demasiadamente salgado: dava uns oitocentos reais. Por sorte, tinha começado a fazer plantões como acadêmico de medicina e havia dinheiro sobrando para tal empreitada. Consegui negociar com os ingleses da New Library e eles aceitaram me mandar o curso a prestações... Coisa de brasileiro!

Acho que foi em 2006 que dei o nome "Astrosphera" ao blog. Nome infeliz, que as apresentadoras das conferências de astrologia sempre dizem errado - reforço que a culpa não é delas, é um nome desgraçadamente infeliz de se pronunciar no português, inglês, sânscrito ou qualquer língua viva ou morta. Foi uma idéia minha, resultante de se misturar o termo "esfera" em latim com "astro".

Quis incluir "esfera" porque é um termo onipresente na Astrologia medieval. Já naquela época, tinha estudado no curso de Robert Zoller o conceito de esferas dos planetas, bem como a esfera armilar. Na cosmologia ptolomaica, cada planeta tinha sua esfera. Então, resolvi chamar o blog de uma "esfera geral", onda cabia todos os planetas e signos - parafraseando a "geléia geral" dos tropicalistas (essa associação surgiu enquanto escrevia esse artigo). Daí surgiu 'astrosphera'. Não gosto hoje, mais dei esse nome ao filho, e ele o porta desde então.

De 2006 em diante, comecei a seguir e a comprar tudo que um astrólogo - discípulo de Robert Zoller - produzia. Trata-se de Benjamin Dykes, o único astrólogo medieval publicador que teve a inteligência de colocar seus livros a venda na Kindle Store da Amazon. 

A partir de 2006, e mais intensamente em 2007, eu só falava de astrologia medieval e clássica no blogue. Mas havia um Ganesha no meio do caminho...

A entrada da astrologia indiana e o celeuma do zodíaco sideral.

O leitor notou que eu já tinha entrado em contato com a Astrologia Indiana em 2005, com os livros de V. K. Choudhry; mas eu não a praticava: assim como eu considerava meio nonsense fazer astrologia medieval nos tempos atuais, da mesma forma, achava louco demais usar um zodíaco diferente e uma astrologia de outra cultura aqui no Brasil. Mas isso foi mudando aos poucos e, em questão de uns quatro anos, comecei a praticar também astrologia indiana.

Em 2007, um pouco antes de me acidentar, eu entrei em contato com um livro que me aproximou da astrologia indiana feita no ocidente: O livro de James Braha, que consegui na extinta livraria Pororoca (!!?), em Ipanema. Quando entrei em contato com aquele livro, fui lentamente perdendo o medo de praticar Jyotisha.

Braha era um autor muito prático, porém não mostrava claramente as bases. A internet resolveu isso me proporcionando o contato com o site Narasimha Rao, autor do software Jagannatha Hora. Ele dá, em seu site, gratuitamente, seu livro introdutório da astrologia indiana (Vedic Astrology: An integrated Approach), que dá uma boa base para se começar.

Nesse livro, comecei a notar que um tal de 'Sanjay Rath' parecia ser muito respeitado, e comecei a me interessar pela sua obra. Com a internet se difundindo mais e mais, eu fui progressivamente deixando de fuçar sebos para rastrear as estantes virtuais do Scribd, onde se pode achar coisas valiosíssimas. Foi lá onde me deparei com os livros de Sanjay e dos seus discípulos, além de outros astrólogos indianos, incluindo o pessoal que usa o sistema criado por Krishnamurti.

Confesso ter gostado mais do Sanjay, por mostrar um bom conhecimento das escrituras indianas - os Vedas, Upanishads, os jaimini sutras e o Brihat Parasara Hora Sastra. Assim como a maioria dos astrólogos indianos, Sanjay usa zodíaco sideral Lahiri, que muda as posições dos planetas no zodíaco. Por exemplo, meu Sol em Áries vai para o signo anterior, Peixes. Durante algum tempo, os leitores viram o meu questionamento em se usar zodíaco sideral ou não, estampado em diversos posts.

A solução para esse dilema foi (pelo menos é, até 3 de maio de 2013, quando escrevo esse artigo) esquecer completamente o zodíaco sideral e usar para TUDO o zodíaco tropical, por uma série de fatores, sendo a maioria deles oriundos do pensamento de um astrólogo norte-americano que estuda Jyotisha: se não fosse por Ernst Wilhelm, talvez estivesse com essa dúvida até hoje.

2011 até hoje: Ernst Wilhelm e sua 'escola', e ainda estudando Medieval.

Ernst não criou nada. Ele apenas leu os sutras dos antigos e e propõe o que seria a maneira correta de entendê-los. Por isso, não posso dizer que os cursos de Ernst Wilhelm, a maioria em mp3, sejam invenções. Ao contrário, mostram uma pessoa firmemente fixada nas tradições. Assim como Martinho Lutero desafiou a cúria romana pregando a reforma da igreja, Ernst não cai na graça do mainstream da jyotisha mas, quem liga? O mundo é livre.

Chegamos ao presente momento da minha vida, quando estudo dois tipos de astrologia: Jyotisha (astrologia indiana) e Astrologia Clássica e Medieval. Espero que não mude de interesse nos próximos anos. Esses oito anos, para mim, foram vertiginosos, em se tratando de teoria astrológica. Preciso me estabilizar num conhecimento para estudá-lo e amadurecê-lo, e acho que vou ficar estudando esses dois ramos que eu citei. Estou numa meta de signos fixos...

Em 2013, temos muito mais material disponível do que há 8 anos atrás, mas ainda há coisas que eu desejo há anos e que ainda não foram publicadas, como uma tradução da Grande Introdução da Astrologia feita pelo Abu Ma'Shar.

De qualquer forma, se aquele garoto ingênuo, ainda sem as cicatrizes que mais tarde adquiriu, com suas retinas virgens, se deparasse hoje com tudo que ele viria a conhecer, ficaria impressionado. Acho que consegui agradar o menino.

Comentários

  1. Olá Rodolfo, então, enfim, o lance é usar o Zodíaco Tropical para estudar Jyotisha... é isso?! Foi o que pude entender... Mas, vc tem resultados com isso? abs.

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  2. Olá Rodolfo, então, enfim, o lance é usar o Zodíaco Tropical para estudar Jyotisha... é isso?! Foi o que pude entender... Mas, vc tem resultados com isso? abs.

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  3. Eu e todos que usamos temos. Mas isso implica reler a Jyotisha e se ater aos seus princípios, e não fazer o que os indianos modernos fazem.

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