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Ninguém nasce ao mesmo tempo e no mesmo lugar

Os astrólogos ocidentais procuram explicar como pode duas pessoas, tendo o mesmo mapa, terem vidas diferentes. Existem uma ou duas linhas de argumentações para justificar essa diferença, mas a jyotisha explica da seguinte forma: não existem dois mapas iguais.

Para um astrólogo Ocidental, duas pessoas nascidas com menos de quatro minutos de diferença não terão diferenças consideráveis em seus mapas a ponto de se alterar a posição das casas ou as técnicas preditivas. No entanto, os dois mapas podem refletir vidas com muitas diferenças. Essas diferenças tendem a se perder diante da semelhança das figuras. A jyotisha é a única Astrologia com ferramentas suficientes para diferenciar esses dois destinos. A seguir, proponho três elementos que servem para tal propósito.

Shayanaadi Avasthas.

Como já foi referido outras vezes nesse blogue e nos meus sites de videos, os Avasthas são estados nos quais os planetas se encontram em determinado mapa. Esses estados são usados para se determinar como os eventos ocorrerão com o nativo estudado.

Existem cinco tipos de Avasthas, mas o mais específico se chama Shayanaadi Avasthas. Esse tipo considera a primeira sílaba do primeiro nome da pessoa para determinar como o indivíduo experimentará o dasha do planeta. Assim, mesmo que duas pessoas tenham mapas quase idênticos, elas experimentarão os dashas de modos muito particulares a cada uma.

Cúspides de Bhavas em mapas divisionais.

No Mapa natal (Rasi), usado tanto pelos ocidentais quanto indianos, o Ascendente se move 1 grau a cada 4 minutos de tempo. Se usarmos os mapas divisionais, a velocidade de deslocamento desse Ascendente no zodíaco muda drasticamente, a depender da divisão considerada.

Pegue por exemplo a Shastiamsa, mapa obtido pela divisão de cada signo em sessenta partes iguais (sendo por isso chamado de D60): A cada meio grau percorrido no mapa Rasi (natal), o Ascendente muda de Signo na Shastiamsa.

Isso significa que duas pessoas não terão o mesmo ascendente na Shastiamsa se nascerem com dois minutos de diferença, mas ainda assim, teríamos a chance de natividades iguais dentro desse intervalo de tempo. Só que, usando todas as cúspide das Casas, os mapas são individualizados mais ainda: as cúspide das Casas não se movem ao mesmo passo que o Ascendente porque elas estão em signos diferentes que, a depender da latitude de nascimento, ascendem em tempos diferentes. Com isso, uma cúspide pode mudar de Signo na Shastiamsa a cada 10 ou 12 segundos. Isso individualizaria mais ainda as vidas das pessoas.

A Shastiamsa é a última divisão citada por Parasara. Segundo o Maharishi ela indicaria "todos os efeitos", e é usada de uma forma muito similar ao mapa Rasi, servindo como uma "equilibradora" dos efeitos do mapa natal: se o planeta estiver em má situação no mapa natal, porém dignificado na Shastiamsa, os efeitos negativos desse planeta são atenuados, e vice-versa.

Pranapada (o pé da vida)

Ao final do capítulo de Grahas, Parasara relata um ponto imaterial chamado Pranapada. Através do cálculo proposto pelo Maharishi, esse ponto ficaria num signo em apenas 6 minutos, percorendo 1 grau a cada 12 segundos de tempo. Assim, em apenas 10 segundos, Pranapada mudará ao menos em 1 divisão (Varga).

Pranapada significa "pé da vida" e serviria para diferenciar nascimentos auspiciosos de inauspiciosos. A palavra "pé" no Sânscrito tem um significado metafórico muito próximo do que concebemos, de raiz ou fundação mesmo. Logo, seria a fundação da vida de alguém, sem a qual a vida não existiria. Portanto, pranapadas inauspiciosos indicariam abortos ou pessoas que não chegariam à vida adulta. É baseado nisso que alguns autores aventuram o uso desse ponto para retificar o horário de nascimento: alguns autores dizem que esse ponto deve fazer trígono com o Ascendente na Nadiamsa (D150) para representar que o nascimento da pessoa deu certo e ela conseguiu chegar à vida adulta.

Afora eu ter descoberto alguns autores usando Pranapada para fins de retificação do Ascendente, ninguém usa esse ponto na prática quotidiana porque ninguém foi capaz de vê-lo funcionar. Por Parasara tê-lo citado ao final do capítulo dos Grahas, ele deve ser importante. Nem mesmo meu professor sabe ensinar como usá-lo, e quando ele tiver coragem o suficiente vai fazê-lo.

Conclusões

Com os três conceitos acima misturados, mesmo que duas pessoas tenham nascido no mesmo minuto, sempre haverá alguma diferença nos mapas - ou no modo como a pessoa experimenta os dashas. O grande problema é que os nascimentos devem ser registrados com precisão milimétrica.

Astrólogos ocidentais não tem as mesmas ferramentas para diferenciar nascimentos e, portanto, recorrem a argumentos filosóficos para justificar como dois mapas praticamente iguais podem render destinos diferentes. O mais comum seria o argumento do "contexto social", a meu ver constantemente furado pela experiência.

Um dos astrólogos modernos que usa esse argumento cita o exemplo do mapa de uma pessoa pobre que apresentasse sinais de realeza. Segundo o raciocínio desse astrólogo, os sinais de realeza não indicariam que ela seria um presidente um dia, quiçá presidente da associação de moradores da sua comunidade. Esse argumento é furado porque, se um astrólogo se deparasse com o mapa de Luís Inácio Lula da Siva, diria que ele nunca chegaria à presidência da república, apenas à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos.

Quem é praticante da jyotisha não tem o direito de recorrer aos mesmos argumentos. A Jyotisha oferece intrumentos em abundância para diferenciar dois destinos de mapas com horário próximo. Somente quando todos os recursos se esgotarem, aí sim que se deveria conjecturar noções de contexto social ou livre arbítrio.

Talvez o leitor fique surpreso ao perceber que, antes de lançar mão desses dois expedientes, há muita coisa a ser vista dentro do mapa. Que a nossa preguiça não nos torne filósofos de araque...

Comentários

  1. Sobre os mapas derivados, eu faria uma ressalva, tanto sobre a inconfiabilidade dos dados registrados na certidão de nascimento (que dependem da boa vontade da equipe de parto, geralmente da auxiliar de enfermagem que fica na sala, que pode ser metódica, ou relaxada), mas também sobre a própria dificuldade em se normatizar o "real momento do nascimento":
    Saída do útero ? Só a cabeça, ou todo o corpo ?
    Primeira inspiração ? Ou expiração ? Ou quando você chora ?
    Momento de conversão, da circulação fetal (dependente da placenta) pela pulmonar ? Pinçamento do cordão umbilical ? Fechamento do ducto arterioso e do forame oval ?

    Entre partos normais (quando tudo isto se sucede em poucos minutos) e complicados (quando podem haver loooongos minutos, bem maiores que os tais quatro, entre manobras de ressuscitação, e talvez até intubação e necessidade de surfactante), podem resultar em janelas de uns bons graus de variabilidade, mesmo com uma pessoa que esteja atenta com o cronômetro na mão, em derivações mais brutas, como o D60.

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  2. concordo com tudo o que disse, e maniesto o meu entendimento da seguinte forma:

    #Duas pessoas podem ter o mesmo horário registrado nas suas certidões, só que cada parto teve um desenrolar único, um com complicações e outro sem complicações. A depender do critério empregado (que falarei adiante), um deles poderia ter um trabalho de parto difícil e ter ficado no canal do parto por mais tempo, assim ela teria nascido - teoricamente - num horário mais cedo.

    #Além disso, resta a questão da verdadeira hora de nascimento. Já respondi uma questão dessas no Formspring e no momento não dá tempo de reproduzí-la aqui (estou de plantão!), mas queria apontar três autores diferentes: Antonius de Montulmo e Regiomontanus (o comentarista da obra de Montulmo) consideram que o horário de nascimento deve ser quando metade do corpo da criança sai para fora do útero. No Jataka Parijata, eles consideram que 1/3 ou 2/3 devem ter saído do útero (não me lembro ao certo). Se estes autores estiverem certos, seria o momento que em que parte do corpo da criança se exteriorizasse. Perceba que as noções não tem nada a ver com a "primeira respiração" proposta por autores modernos.

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