11 de ago de 2012

Dos pudores que prejudicam a astrologia

Dedico esse artigo a falar dos pudores que minam nossa capacidade de interpretar um mapa eficazmente. Esse artigo não partirá do princípio de que a astrologia medieval é perfeita e que, se ela dá errado, a culpa é do astrólogo. Todavia, mesmo considerando-a como um saber tão falho como qualquer outro, vamos nos concentrar aqui nos impecílios psicológicos do astrólogo que minam seu saber, tornando-o inseguro diante do consulente e, com isso, subaproveitando o que ele já sabe.

O problema da linguagem

Os livros de astrologia medieval tem uma linguagem muito explícita, e hoje isso soa como algo vulgar ou ofensivo. Nenhum cliente quer ser taxado de algum rótulo pelo astrólogo - o cliente procura orientações. Mesmo que os adjetivos sejam aplicáveis a ele, a resistência do consulente a aceitar a verdade pode por o trabalho todo a perder.

O astrólogo contemporâneo que se inspira em métodos clássicos ou medievais pode se sentir desconfortável diante desse impasse linguístico, e não falar tudo que deveria diante do cliente. Estamos diante da primeira coisa que pode minar a capacidade do astrólogo.

Também há as crenças pessoais do astrólogo interferindo nas previsões. Enquanto estudante de astrologia, eu parto do princípio (erroneamente) de que uma boa porcentagem dos clientes NÃO vive suas vidas como está escrito exatamente nos livros de astrologia medievais - mas eu mesmo acho que pensar assim não é bom: se discordo do que a teoria diz, resta muito pouco a dizer ao cliente - quando talvez os livros possam estar certos.

Uma solução ao problema da linguagem: a contextualização histórica.

Eventualmente, tenho ouvido o ponto de vista de pessoas próximas sobre como eu deveria conduzir a minha prática, e tenho concordado com algumas coisas. A primeira e talvez mais importante é que talvez a melhor maneira de abordar uma carta natal usando técnicas medievais é me esquecer de todas as minhas pré-concepções ou medos de ofender os clientes: simplesmente LEIA O MAPA.

Mesmo que muitos aforismos soem ofensivos, eles podem ser verdadeiros e, quando não forem, é porque a Astrologia, assim como qualquer saber, não é perfeito. Logo, também tem uma margem de erro - que varia, a depender da técnica empregada.

Para amenizar o risco do cliente se sentir ofendido ou ameaçado, outro conselho muito bom que ouvi foi este: vender a astrologia medieval como um produto contextualizado historicamente.

Vou explicar como funciona. Um astrólogo que sabe técnicas medievais pode dizer ao cliente: você tem uma configuração astrológica que representa promiscuidade. Isso pode soar ofensivo, a depender da pessoa. Todavia, você pode dizer a mesma coisa sem ser ofensivo, se enfatizar ao consulente que aquilo é uma perspectiva medieval do mapa da pessoa - e não o que o astrólogo pensa a respeito. Chamo isso de uma abordagem relativista, que não toma a interpretação como uma verdade absoluta, mas a contextualiza dentro da época onde ela surgiu.

Nos Estados Unidos, existem restaurantes que servem comida da mesma forma que se fazia na Idade Média. Não há talheres. Os clientes que procuram esses restaurantes não se chocam nem reclamam dessas particularidades, pois eles estão pagando por algo além da comida: pagam pela experiência por inteiro, e o ato de comer com as mãos também está incluído nisso.

Interpretar o mapa de acordo com essa abordagem pode ser muito divertido para o consulente, se ele procura com curiosidade os métodos da astrologia medieval e clássica. Mas o bem dessa abordagem é maior ao astrólogo: pode ser a solução para que a mente do astrólogo aja desinibida e, nesse contexto, consiga fazer previsões que possam orientar verdadeiramente o cliente, extrapolando o objetivo primário da consulta, que era apenas saciar uma curiosidade, e com isso atingindo a meta primária deste saber.




3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Quem vai pagar uma leitura do mapa astral para conhecer a técnica da astrologia medieval (ou seja, «divertir-se»)? :)

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  3. conheço várias pessoas que pagam por curiosidade. Se há tantos astrólogos modernos por aí, o que impele uma pessoa a procurar um astrólogo que se denomine "medieval" além da curiosidade de saber em que consiste o rótulo?

    De fato, ninguém paga um astrólogo medieval para se divertir. Eles querem consultar um oráculo, mas a experiência pode ter seu lado divertido com a contextualização histórica: à luz dos livros medievais, você pode ter um mapa com configurações de uma puta, quando na verdade você passa longe disso. Se o astrólogo contextualizar e fizer piada disso, há uma chance das coisas serem relevadas para um lado mais leve - ao invés do cliente sair espalhando que o astrólogo errou feio ao dizer isso.

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