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Casa 3 e interação social

Neste post, gostaria de salientar algumas reflexões sobre o tipo de interação social indicada pela Casa 3. Essas reflexões são fruto do meu entendimento dos shastras, e sugiro ao leitor que não as escreva em pedra, como um mandamento imutável, pois são em caráter experimental.

As Casas 3, 7 e 11 são chamadas de Kama trikonas, algo como a "tríade do desejo". Por estarem ligadas a desejo, poderiam ser chamadas de casas de ar, pois o ar representa a casta dos sudras, que estão preocupados com a gratificação dos sentidos. Em todas essas casas, há um componente de busca de desejos, mas também um componente de interação e contato, pois o sentido do tato está ligado ao elemento ar. Será preciso, portanto, definir a que tipo de interações cada uma delas se refere mas, como o título do artigo mostra, eu me deterei mais na Casa 3, que sempre me gerou muitas dúvidas.

A casa 7 representa duas pessoas se unindo para criar algo, mas com habilidades diferentes. Devido a essa diferença de habilidades, há uma interdependência. No ato sexual, seja lá qual for sua finalidade, há uma interdependência: o meu prazer depende do parceiro.

A interação social da casa 3 difere do exposto acima. Ela indica uma interação social na qual duas ou mais pessoas podem ter as mesmas qualidades ou habilidades, mas, ao fazerem juntas, se tornam muito mais eficientes. É a casa que rege o trabalho em equipe. É uma casa de cooperação.

A Casa 11 pode se confundir com esse significado social da 3, mas a casa 11 indica os ganhos (2) da 10, que são nossos grandes feitos. Quando deixamos nossa marca no mundo (Casa 10), a Casa 11 vem imediatamente como ganho, suporte e ratificação disso. O grupo indicado pela Casa 11 seria aquele que dá suporte àquilo que produzimos como nossas coisas mais importantes (Casa 10). 

Na Casa 11, temos apoio aos nossos projetos; na 3, o projeto não é nosso. Estamos numa situação de menor controle, não temos autoridade, estamos aprendendo, e isso requer humildade e cooperação. Temos de cooperar, ceder, jogar as regras impostas por alguém. Uma pessoa que te dá subsídios para seus projetos seria indicada pela 11, enquanto uma pessoa com a qual temos de ceder seria indicada pela casa 3. É por isso que a Casa 3 indica irmãos, pois nossa relação com eles tende a depender muito mais de cooperação do que somente receber apoio. É devido aos nossos irmãos que somos obrigados a realizar as primeiras concessões na vida, e isso geralmente vinha acompanhado de choro e ranger de dentes... Não à toa que Parasara chama a Casa 3 de "Local difícil"...

Ao invés de ser chamado de "grupo", que indicaria um agrupamento genérico qualquer, a interação da Casa 3 poderia ser chamada de "time", pois esse termo deixa implícito que há um ajuntamento de pessoas com mais ou menos a mesma habilidade, em prol de uma meta. O grupo da casa 3 não é resultante de algo que fizemos, mas de algo que estamos a caminho de aprender para realizar e, assim, chegar ao pináculo da Casa 10, onde nós produzimos nossas obras primas, que não se restringem somente a carreira, mas a qualquer grande feito das nossas vidas.

Pessoas com problemas na Casa 3 possuem uma dificuldade maior de se relacionarem superficialmente no dia a dia; no seu ambiente escolar ou de trabalho, preferem não trabalhar em grupo. Gostam de fazer as coisas sozinhos, sem cooperação. Se o regente da Casa 3 estiver na 12, a pessoa tem que fazer sacrifícios, ou perder alguma coisa, para cooperar. Se o regente da Casa 3 estiver na 8, a cooperação gera crises e rupturas. Se o regente da Casa 3 estiver na 6, a cooperação é atrasada ou quem coopera se torna inimigo.

Na contagem, toda casa seguinte é o ganho da anterior. A casa 2, para alguns astrólogos jyotisha, representa nossos amigos, pois os verdadeiros amigos são o ganho daquilo que somos naturalmente - o Ascendente. É interessante observar que os nossos amigos nem sempre estão próximos da gente no dia a dia e, portanto, guardam conosco um outro tipo de relação, que foge dos domínios da Casa 3. Em alguns casos, acontece algo interessante: a pessoa tem uma casa 3 com problemas, mas uma casa 2 (que rege amigos) muito satisfatória e, portanto, ela tem amigos fiéis. Todavia, o processo pelo qual essa amizade se deu inicialmente dependia de um contato superficial, que foi capenga mas que, a despeito disso, gerou uma ótima amizade. É aí que vemos a relativa independência dos assuntos indicados por casas diferentes.

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