6 de mai de 2012

Astrologia por ela mesma.

eu noto insistentemente entre algumas pessoas uma certa resistência em falar de astrologia, como se esse saber alterasse o curso natural das suas vidas. Elas temem que a astrologia as influenciasse a seguir um rumo que não seria o natural para elas, ou que a astrologia as limitasse nas suas conquistas, no potencial das suas vidas.

Tudo na vida é uma questão de crença; acreditar numa possível influência nefasta da Astrologia, que alteraria o curso dos fatos, requer o mesmo esforço que pensar do meu modo: acreditando ou não em astrologia, temos coisas que seremos forçados a experimentar, pelas nossas pulsões, comportamentos compulsivos e teimosia em sermos de um mesmo jeito. Mas eu também concordo que a Astrologia pode ser feita de modos perversos, a depender do astrólogo.

Muito se fala na tal "física quântica" dentro dos meios esotéricos, porém se esquece de um ponto vital que foi descoberto com esse ramo da física: ao se observar um fenômeno qualquer, o observador é capaz de mudá-lo. A experiência de vida de um intérprete dos céus altera sensivelmente a sua interpretação, sendo esse um tema pouco discutido.

Dentro do contexto da astrologia, o astrólogo é capaz de mudar a vida de uma pessoa para o bem ou para o mal, a depender da sua interpretação. E o que seria um demérito para a Astrologia, na verdade, é incorporado por ela. Pela própria astrologia podemos ver a sorte que a pessoa tem com oráculos. Com isso, temos a mesma manobra que a ciência moderna fez, séculos depois, para se mostrar sempre com a razão.

Não foi a ciência moderna que introduziu o conceito de "margem de erro". A astrologia a antecede em séculos e possui o mesmo conceito, travestido de outra terminologia e métodos.

Se pensarmos bem, o conceito de margem de erro é deveras oportuno à ciência, porque ele inclui o erro dentro do sistema. Sem esse conceito, o erro seria um imprevisto, um fruto do acaso, que colocaria todos os postulados científicos em risco. Quando se inclui a margem de erro, já se espera que esse convidado ocasionalmente adentre a festa.

Sem chamá-lo do mesmo nome, a astrologia introduziu o erro em seus métodos, através da Casa 9. A sorte ou o azar de uma pessoa com oráculos é também um dos temas dessa casa. Ter maléficos aqui faz com que a experiência com oráculos seja amarga, seja por erros ou por abusos da parte do intérprete.

No meu caso, a maioria das previsões que fiz para uma pessoa com Saturno na 9 não aconteceram, e até hoje ela me olha de soslaio, eventualmente me abordava numa festa e dizia que "nada que eu previ aconteceu naquele ano"... Essa mulher tinha dois maléficos na Casa 9 e, portanto, sorte com oráculos não era uma coisa que ela deveria esperar na vida.

Essa visão da Casa 9 é construída pelos indianos. No Ocidente, a Casa 9 ainda é vista apenas no âmbito da espiritualidade sem consulta oracular. Ibn Ezra, astrólogo judeu, diz que pessoas com Saturno na Casa 9 não serão firmes na sua fé. Apesar de Saturno possuir grande relação com disciplina e persistência, a sua presença na Casa 9 causa perturbação espiritual por excesso de Vento (Vata), elemento que Saturno indica. O vento tiras as coisas do lugar, então a pessoa passa a questionar sua busca espiritual e não consegue persistir no cultivo de dogmas.

Saturno representa também coisas antigas e, sua presença na Casa 9 com forte dignidade pode fazer a pessoa se interessar por religiões muito antigas, como o judaísmo.


Além da Casa 9, outras coisas podem mostrar que a pessoa tem sorte com oráculos e orientações espirituais. O planeta produtor (karaka) da sabedoria e dos Gurus é Júpiter. Ter um Júpiter bem posicionado faz com que a pessoa receba boas orientações de oráculos e gurus. Esses Gurus, num contexto ocidental, podem ser até mesmo pastores evangélicos.

Às vezes, uma pessoa qualquer na rua pode lhe falar uma coisa que será muito profunda e que lhe orientará grandemente. Um júpiter auspicioso faz até com que informações obtidas por meios baratos sejam preciosas.

Quando comecei a estudar astrologia, um colega de faculdade me pediu para fazer seu mapa natal. Apesar da minha interpretação se referir à toda sua vida, uma das previsões descrevia uma situação específica que ele estava vivendo naquela época. Eu previ que ele romperia com uma namorada que, nas minhas palavras, era "imatura e caprichosa". A minha descrição entrou em sintonia exata com o que ele pensava de sua namorada, e a ruptura ocorreu na semana seguinte.

Os céticos vão dizer que o consulente acima ficou sugestionado pela minha leitura, e terminou um relacionamento que poderia ter dado certo por minha causa. Outros dirão que eu pude ter corroborado com uma tendência patológica do cliente de abortar relacionamentos. O que realmente aconteceu, nunca saberemos. Só mesmo o consulente para saber o quanto esse relacionamento era construtivo ou não para sua vida; eu apenas me refiro ao que soube na ocasião. Todavia, conheço pessoas o suficiente para afirmar que uma leitura astrológica não é capaz de separar um casal; ela pode ser apenas a gota d'água de um oceano de insatisfações.

A maioria dos seres humanos que procuram um astrólogo só seguirão os conselhos do mesmo se estes entrarem em consonância com o que pensam da situação. Assim, o astrólogo seria tal qual um vento, que impulsionaria ou não o barco a vela do cliente ao rumo desejado. Todavia, a ausência desse vento não mudaria seu destino.

A sorte dos clientes com astrologia é vista pelos seus mapas, e não pelo mapa do astrólogo, e as razões para isso são simples. Longe de afastar a responsabilidade do astrólogo, convenhamos que um astrólogo atende a um número grande de clientes para que todos eles sejam representados pelo seu mapa. Além disso, podemos usar como comparação o trabalho de um marceneiro: eventualmente, até mesmo um péssimo marceneiro pode fazer uma cadeira de qualidade. O que diferire um bom marceneiro de um péssimo é a frequência com que isso ocorre. Da mesma forma, até um péssimo astrólogo eventualmente acerta uma previsão. É mais fácil prever isso no mapa da pessoa para a qual se prevê.

A astrologia jyotisha considera que os erros de previsão são um karma do consulente, e não do astrólogo. Recentemente, um professor meu disse a seguinte pérola, com a qual fecho esse artigo:

"Se você errar alguma previsão, não se culpe: isso é karma do cliente."

 

3 comentários:

  1. Interessante, Rodolfo.

    No meu caso, com Saturno na Casa Nove e Júpiter auspicioso e angular, experimento tanto uma fé oscilante e uma busca espiritual acidentada quanto revelações espontâneas e pessoas que surgem com orientações precisas em momentos de dificuldade.

    Nesse exato momento, com Saturno retornando (completo 29 anos em outubro), estou vivendo um conflito sobre regressar ou não à Universidade e sobre praticar ou não uma doutrina de fé institucional.

    PS.: seria bem legal um artigo comentando a visão de astrólogos praticantes de religiões específicas: no caso, vc cita um astrólogo judeu. Qual a relação que ele estabelece entre a astrologia e o judaísmo? Há menções desse tipo? Enfim-enfim.

    A propósito, acabo de fazer a feirinha de livros e comprei vários de História da Religião incluindo um sobre a meditação no judaísmo.

    Bem em sintonia com o que vc menciona no texto sobre Saturno e Casa 9.

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  2. A relação que Ezra faz entre a Astrologia e SAturno não é exclusiva dele. Abu Ma'Shar diz que Saturno representa o Judaísmo porque, na visão dele, era a religião mais antiga do mundo. Pior que talvez seja hoje mesmo.

    Existem religiões mais antigas que o judaísmo, mas que não são praticadas mais, ao menos como eram, como o Mazdaísmo e o Zoroastrianismo. Os indianos adoram dizer que o que é deles é mais antigo, mas eles não tem muitas provas históricas disso. E tem indícios que o início do Torá foi escrito há dez mil anos atrás...

    Agora, se vc quer saber a visão que um astrólogo religioso tem da astrologia, a literatura é pequena. O raciocínio deles sobre livre arbítrio e destino é sugerido, muito raramente, em algumas citações. Em Ezra, que eu saiba, cita somente uma. Ele acreditava que a fé do inidivíduo amenizaria as situações "causadas" pelos planetas. Estou sem o trecho aqui, mas a verdade é que

    Mais comum - embora nem tanto - são textos de pessoas que conheceram ou usaram astrologia. O mais famoso é São Agostinho. E existe um livro, que é a correspondência de um famoso rabino do medievo, chamado Maimônides, a rabinos do sul da França, expondo sua opinião sobre astrologia. O livro foi traduzido pela ARHAT. Nunca me interessei por ele, porque sou mais pragmático do que filosófico acerca da Astrologia, mas ele está à venda.

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  3. Bem legal.

    Lembro de ter lido um artigo seu ou do Yuzuru (ou de ambos) com uma menção sobre diferentes posturas adotadas pela Igreja, em tempos diferentes, a respeito da Astrologia. Sei também que existem astrólogos cristãos.
    É um assunto que me deixa curiosa.

    Vou procurar os livros que mencionou. Obrigada!

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