29/09/2011
Quando se começa a praticar astrologia, erros de previsão recorrentes de uma mesma técnica podem fazer o estudante desanimar e procurar outras técnicas que funcionem melhor, mas nesse movimento o estudante pode perder uma técnica preciosa. É que nenhuma técnica funciona 100% das vezes e em 100% dos mapas.
Não há razões claras para justificar a afirmação acima. Poderíamos pensar que a técnica funcionou por duas ou três razões:
- Foi praticada erroneamente, seja por erro/desatenção do astrólogo, seja pela falta de detalhes do texto que a descreve;
- Foi praticada corretamente, mas existem exceções às quais o texto que a descreve não se refere;
- Foi praticada de um modo completamente correto, mas misteriosamente não funcionou (isso pode ser mais comum do que você imagina).
Quem é profissional de astrologia pratica diariamente em mapas de clientes, e cria para si uma porcentagem de acertos para cada técnica que experimenta. Essa porcentagem tende a ser mais acurada quanto maior for a amostragem de clientes do astrólogo. Se você for um estudante e não pratica diariamente, pode achar que uma técnica não funcionou porque, na única vez em que a usou, as coisas não aconteceram conforme o previsto.
Por exemplo, Ernst Wilhelm diz que algumas técnicas funcionam apenas 40% do tempo. Só que ele é astrólogo profissional e tem quase vinte anos de prática. Quando um astrólogo assim diz que uma técnica funciona aproximadamente 40% das vezes, é muito provável que ele esteja certo, enquanto você, astrólogo por hobby sem dedicação exclusiva, quando diz que algo não funciona 100% das vezes, tem uma chance grande de estar sendo simplista e injusto.
40% de acertos, para nosso gosto exigente, é ruim; mas Ernst diz que os médicos ocidentais acertam apenas 30% dos diagnósticos, mesmo com todos os exames complementares e sem a pressão de fazer prognósticos. Eu desconfio que Ernst esteja errado (além de não ter citado a fonte) mas, caso contrário, é impressionante pensar que o melhor dos médicos não tem a acurácia da pior das técnicas preditivas astrológicas.
Quem eu chamo de simplista e injusto não é nenhum leitor em específico; por diversas vezes eu me coloquei nesse papel quando, ao não conseguir interpretar a Firdaria, a extirpei da minha prática, enquanto um astrólogo como Robert Zoller, com 40 anos de experiência, defende efusivamente seu uso no curso de astrologia que ministra.
Se um astrólogo afamado e experiente como Zoller defende uma técnica que não funciona bem na minha prática, antes de pensar que tudo é relativo e que realmente a estou aplicando corretamente, é preciso ser mais humilde e pensar que estou posso estar praticando-a com algum erro ou com alguma super expectativa, o que é também muito comum.
Sobre a super-expectativa: toda técnica tem o seu limite. Procurar entender pela Firdaria porque eu escorreguei na banheira num sábado chuvoso não é a melhor abordagem para julgar que a técnica não funciona, porque é capaz de você não vislumbrar isso pela técnica, mesmo depois do fato ter ocorrido. Se, por outro lado, você conceber a firdaria como uma disposição geral do período de vida do nativo, pode ficar satisfeito com o que ela pode lhe proporcionar.
A consciência de que uma técnica tem uma porcentagem de acerto gera, dentre outras coisas, humildade. Se um colega astrólogo errar uma previsão, não aponte todos os seus mísseis sobre ele, porque certamente amanhã será você quem errará.
É claro que existem dois outros fatores que não foram abordados até agora e que são importantes:
- A adaptação do astrólogo à técnica;
- A confiança em fontes mais experientes;
Existem técnicas poderosas, mas que você pode não gostar de aplicar, talvez por não ter se adaptado à sua lógica.
Por exemplo: Eu sei interpretar Revoluções solares conforme ensina Morin de Villefranche, e nas poucas vezes em que a usei eu fiquei impressionado com o quanto eu pude prever; mas não foi para mim uma experiência agradável: se analisar apenas um mapa já é deveras difícil, quiçá dois mapas separadamente e unidos por interaspectos! Por isso que, antes de desenvolver uma enxaqueca crônica, eu desisti de incluir a técnica de Morin na minha prática.
O segundo ponto acima é óbvio. Se eu gosto de aplicar uma técnica que funciona apenas 40% do tempo mas um astrólogo experiente e honesto usa outra técnica que ele julga ser mais poderosa (capaz de acertar em 80% das vezes), é um atestado de insanidade que eu permaneça a mercê do acaso a praticar uma técnica fraca se eu posso aprender a técnica que funciona melhor (desde que ela se adeque ao meu modo de pensar).
O grande problema é que os astrólogos experientes e professores transmitem subliminarmente aos alunos que os símbolos astrológicos sempre se manifestarão de alguma forma e se esquecem de que os meios de se chegar á interpretação dos símbolos podem ter lapsos em alguns (ou muitos) mapas. Esquecem do sujeito que está por trás da interpretação e fazem um julgamento preto e branco sobre as técnicas: se funcionou uma vez, funcionará 100% das vezes e, quando não funciona 100% das vezes, é porque o aluno errou ou a técnica não funciona 100% das vezes e, portanto, deve ser descartada. Esse pensamento é transmitido aos alunos subliminarmente e tem várias implicações.
A primeira implicação possível desse preciosismo é o aluno de astrologia começar a 'procurar cabelo em ovo': quando ele errar uma previsão, vai querer procurar a razão para entender porque a técnica não funcionou, só que geralmente essa razão foge à linha de pensamento da técnica e portanto ele nunca faria assim a priori, mas somente o faz agora porque sabe do desfecho. Se, ao reaplicar a técnica, ele se certificar de que não estava errado e de que a técnica ainda assim não funcionou, a simples conclusão de que nenhuma técnica funciona 100% das vezes poderia consolá-lo.
Por exemplo: o aluno pode ter aprendido que o regente do signo da profecção (técnica preditiva medieval e indiana) será sempre o regente do ano (o planeta que resume os principais acontecimentos do ano) mas, em determinado ano, ele pode concluir que o regente do ano não teve importância nenhuma na vida do cliente. Achando que a técnica não presta, ele pode criar um raciocínio para explicar porque o regente do ano não funcionou para descrever o ano do cliente, raciocínio este que ele só criou porque já sabe como o ano se processou. Certamente ele não usaria do mesmo antes do ano acontecer. Toda essa racionalização poderia ser evitada se ele tivesse a serenidade de reconhecer que nenhuma técnica funciona 100% das vezes. No ano seguinte, talvez ele obterá resultados excelentes usando a profecção como lhe foi ensinada e apagando da sua mente as teorias mirabolantes dos casos onde ela não funcionou.
A segunda implicação possível é o estudante que vaga de técnica em técnica, de escola em escola, sem paradeiro, porque testa todas as técnicas possíveis e imaginárias mas não se detém em nenhuma delas, porque nenhuma delas funcionou de primeira ou em todos os mapas. Mais uma vez, a afirmação de que nenhuma técnica funciona sempre poderia confortar esse estudante e fazer com que ele definitivamente escolha uma escola de astrologia para investir seu tempo, pois invariavelmente uma dessas técnicas e escolas funcionarão numa porcentagem satisfatória de mapas.
Sugiro aos leitores que nos livremos dessa perspectiva tudo-ou-nada comum na astrologia e que consideremos as miríades de nuances entre o absolutamente errado e o absolutamente correto, pois estas nuances são mais comuns de ocorrerem no quotidiano da nossa prática astrológica. Um erro de previsão nunca deve esmorecer o astrólogo aprendiz e apenas as falhas recorrentes que devem nos alertar.
22/09/2011
Não quero que o leitor leve muito a sério o texto a seguir. Ele é uma especulação e, como tal, é sujeita ao teste da prática astrológica. De qualquer forma, foi uma reflexão na qual tenho me fixado nos últimos dias.
Muita gente não acha bom estudar o mapa sob duas perspectivas simultaneamente, mas a meu ver isso pode ser feito, desde que haja cuidado. Não se trata de simplificar uma escola em detrimento da outra ou de se misturar as técnicas. Cada uma tem um corpo teórico fechado e auto-suficiente que não deve ser deturpado, mas o exercício de ambas (ou de pelo menos algumas nuances de uma delas sendo levadas em conta na abordagem da outra) pode enriquecer a interpretação do astrólogo. A cada dia mais que eu estudo ambas, porém, tenho a forte suposição de que muitas das contradições teóricas sejam apenas aparentes.
Tenho sentido que o significado das casas seja mais flexível do que se supõe. De fato, algumas casas tem seus significados definidos: para os indianos, a mãe seria indicada pela casa 4 e nada mudará isso. Com outros significados, porém, objetos que algumas casas representam podem variar. O que seria inalterado, porém é o modo como se chegam a eles.
Tomemos por exemplo a Casa 11. Para os árabes e astrólogos medievais europeus, ela indicaria amizade e lucros oriundos das ações. Ernst Wilhelm, astrólogo jyotisha norte-americano, abre um precedente para que ela indique amizade também na jyotisha, desde que seja a amizade oriunda das nossas ações (casa 10), logo, colegas de trabalho. A maioria dos autores indianos não abre o mesmo precedente e se refere à casa 2 (ao invés da 11) como família e amigos íntimos. E a minha opinião, no presente, tende a ser mais flexível a respeito.
A meu ver, tanto a casa 2 quanto a Casa 11 podem indicar amizades. A diferença reside no modo que se obteve tais amizades, ou no modo como se lida com elas. Não estou com isso querendo subjetivar a astrologia como fazem alguns autores modernos, como o leitor perceberá nos parágrafos a seguir.
A casa 10 não representa somente o seu trabalho, mas tudo que você faz e lança no mundo como suas obras. Por suceder a 10, a Casa 11 são os frutos das suas ações. Esses frutos incluem amizades, desde que essas amizades sejam resultantes do que você faz no mundo para construir sua fama. Por exemplo: você cria um blogue de astrologia (uma ação - Casa 10) e uma pessoa começa a se corresponder contigo e, com o tempo, se tornam amigos (fruto da 10 - Casa 11). Ou então, como a casa 11 representa aspirações, as amizades nela podem surgir por você ter uma meta em comum com seu amigo. É o que acontece nos movimentos estudantis e nos conjuntos musicais.
A dinâmica de amizade da casa 2 tende a ser diferente. Você é responsável por tudo aquilo que tomou posse. A Casa 2, portanto representa tudo aquilo sobre o qual você tem responsabilidade. É o dinheiro que você já tem e acumulou, são suas responsabilidades com sua casa e família. Autores medievais reforçam a responsabilidade da casa quando alguns se referem a ela como representante dos servos que trabalham na sua casa (vide o trabalho de Benjamin Dykes). Por fazer parte do 'trígono material' (artha trikona) referido pelos indianos, é uma casa que envolve deveres e convívio diário.
Diante do que a casa 2 representa, só me resta concluir que a maioria dos meus amigos não são representados por ela. A maioria foram conseguidos por intermédio das minhas ações e não me sinto responsável por eles num sentido material. Estamos juntos como amigos por termos um objetivo em comum. Eu mesmo tenho uma banda de mpb/rock e volta e meia nos reunimos para ensaiar, fazer shows, etc. Infelizmente, são amigos que eu gostaria de ver mais do que meu tempo permite. Por essa mesma razão, são amigos que não frequentam minha casa como eu gostaria de que frequentassem, mas nem por isso eu deixo de considerá-los meus grandes amigos. Há também os amigos obtidos na internet, pelas redes sociais. Com alguns deles, eu falo mais do que meus amigos de presença física, e os leitor observará isso também na sua vida, pois cada vez as relações não se sujeitam a limitações espaciais.
A minha experiência reforça que a 11 tem uma significação forte para as amizades que mais tenho. Meu Ascendente da Revolução Solar de 2006 caiu em cima da minha Vênus natal na 11, o que representou a reunião da banda (após um ano de afastamento) com a gravação em estúdio de algumas músicas, coisa que nunca tinha ocorrido antes. Com a reunião e o trabalho, vem junto um retorno à convivência.
Diante de tudo que foi exposto, o leitor percebe que eu estou muito mais inclinado a considerar amizades como tema da Casa 11, mas não é bem assim. Amizades que surjam não como fruto de suas ações, ou independentes de terem um objetivo em comum com o nativo poderiam ser representadas pela Casa 2. Seria uma afinidade inexplicável, uma grande cumplicidade, uma convivência mais íntima e a despreocupação em ter metas conjuntas. Seria a amizade dos vínculos familiares, embora não seja restrita ao vínculo sanguíneo.
Ainda há muito que ser escrito nesse artigo, e portanto se trata de uma introdução sujeita a revisões.
15/09/2011
O leitor pode encontrar no blogue da Margherita Fiorello outro bom artigo sobre esse conceito.
O conceito de planeta em detrimento foi popularizado por Morin de Villefranche e seus seguidores. Antes desse autor, porém, não há muita literatura que ensinaria como aplicá-lo.
Abu Ma'Shar, na sua 'Abreviação da Introdução à Astrologia', não cita o conceito. O único autor que faz uma alusão indireta a ele seria Sahl bin Bisr, na sua obra 'os 50 julgamentos'. Ali vemos o seguinte:
'Se o regente do Ascendente estiver no sétimo signo/casa, o consulente temerá o propósito da questão'
Indiretamente, Sahl faz menção ao conceito quando descreve a presença do regente do Ascendente na Casa 7. Fundamentalmente, o planeta em detrimento nada mais é do que a presença de qualquer planeta no sétimo signo a partir de um dos seus domicílios. Fora esta
citação, quase nada se fala dos planetas em detrimento.
Durante a idade média no ocidente, bem como na Astrologia indiana até hoje, o conceito de planeta em detrimento não era valorizado na interpretação. Podemos deduzir, pelo julgamento de Sahl, que os efeitos dessa posição seriam mais psicológicos sobre o tema significado, porém não há sinal de que isso seja considerado um impedimento.
Aliás, nenhuma posição zodiacal planetária é capaz de impedir, porque os signos são sujeitos
aos planetas e, portanto, são eles que impedem, a saber, os planetas maléficos. De qualquer forma, a posição de um planeta num signo fornece detalhes do grau de lucro/prejuízo ou facilidade/dificuldade que a questão representada pelo planeta indicaria.
A posição planetária degradante mais valorizada pelo medievo ocidental e pelos indianos até hoje, incontestavelmente, é o conceito de queda, que os indianos chamam de debilidade. Abaixo o leitor pode ver os signos da queda dos planetas:
Lua - Escorpião
Mercúrio - Peixes
Vênus - Virgem
Sol - Libra
Marte - Câncer
Júpiter - Capricórnio
Saturno - Áries
Existem muitas implicações envolvendo a queda dos planetas que podem interferir sensivelmente na realização das questões. Isso, porém, não entra em contradição com a afirmação de que os signos não são capazes de impedir, porque tais impedimentos são mediados por planetas.
Uma das coisas que eu noto repetidamente em questões horárias que não se realizam consiste na aplicação de um planeta a outro que esteja no signo da sua queda, conceito esse também referido por Sahl e Abu Ma'Shar nas suas Introduções à Astrologia. Veja a questão abaixo:

A pergunta é ingênua (tem amor nesse mês?) mas mesmo assim a horária é capaz de revelar o contexto. O regente do Ascendente é Saturno, que está exaltado em Libra, casa 10 e décimo signo a partir do Ascendente. Saturno está em oposição partil (exata) à Lua em Áries. Lua rege a Casa 7, das parcerias.
Como há um contato entre Lua e Saturno, de fato houve ou haverá um contato entre a consulente e um homem no passado recente, presente ou futuro imediatos à questão. Entretanto, esse contato é por intermédio da oposição, um aspecto 'tenso' e que, segundo Sahl, não condiz com o estabelecimento de um relacionamento. Eu esperaria sextil, conjunção ou trígono para tal. As quadraturas ou oposições só proporcionariam um relacionamento se houvesse recepção entre os significadores, coisa que não ocorre aqui.
De fato, a consulente conheceu um homem pelo qual se apaixonou rapidamente, mas houve hesitação por parte dela em conhecê-lo na data em que houve o encontro e, portanto, nada além de um flerte ocorreu.
Mesmo se o aspecto entre lua e Saturno fosse suave, existiria outra razão pela qual o relacionamento não ocorreria. Como a Lua está no signo da queda de Saturno (Áries), o contato entre os dois com qualquer tipo de aspecto não produz nada. Saturno contribui para destruir a proposta Lunar por relacionamento, uma vez que ela está no local da sua queda.
A regra acima pode ser explicada por uma analogia. Quando se está no local da queda de um planeta, isso equivale a você querer algo cuja realização implica a humilhação da coisa representada pelo outro planeta. Logo, o planeta se recusa a fazê-lo e o evento não ocorre, mesmo com aspecto aplicativo entre os significadores.
Esse tipo de configuração pode ocorrer para representar casos nos quais o homem é casado e deseja se envolver com uma mulher que não tolere ser amante. Nesses casos, normalmente o planeta que representa o homem se encontra na queda do planeta que representa a mulher e, portanto, isso seria uma humilhação para a mesma e relacionamento algum acontece.
Não tenho informações suficientes para supor que o homem da questão seria casado ou comprometido. Na verdade, o aspecto de oposição entre os significadores por si só já impede uma união e nesse caso não podemos notar a representação do fenômeno da aplicação a um planeta no local da sua queda. Por outro lado, já vi casos nos quais ocorrem sextis e trígonos aplicativos entre os significadores das partes e relacionamento algum acontece, o que pode ser explicado pelo conceito demonstrado.
Existe um caso contrário a este, no qual a questão pode se realizar: Quando um planeta está na sua própria queda, se ele receber outro planeta no seu domicílio ou exaltação por aspecto aplicativo, a questão pode ocorrer, embora com amargura, pois a queda de um planeta é o local da sua ira. Esse exemplo pode ser visto em Masha'Allah na sua obra 'De receptione':
No exemplo, Masha'Allah responde a uma horária sobre a possibilidade do consulente conseguir um posto no reino ou não. Câncer ascende, e por tanto a Lua é significadora do consulente. A Lua em libra se aplica a Saturno em Áries e portanto ele a recebe em sua exaltação garantindo ao consulente que ele teria o que desejava. Todavia, como Saturno está em Áries, signo da sua queda, aquilo que o homem almejava seria com amargura, "devido ao ódio que Saturno tem em relação a esse local (Áries)".
O aprendiz precisa observar tais detalhes na interpretação de modo a julgar corretamente e a entender questões que seriam realizáveis mas que não logram êxito. São as sutilezas da astrologia...
08/09/2011
O yuzuru recentemente postou uma pesquisa sobre o conceito de júbilos planetários, e felizmente eu tenho algumas considerações sobre o assunto, surgidas após o meu estudo de astrologia indiana. Digo felizmente porque, antes de conhecer a versão indiana do conceito, ele era mais um dos inúmeros conceitos para os quais não se encontrava uma aplicabilidade clara.
Um planeta se encontra em seu júbilo quando estiver numa casa específica. Abaixo, cita-se os júbilos para cada planeta:
- Saturno na 12
- Júpiter na 11
- Marte na 6
- Sol na 9
- Vênus na 5
- Mercúrio na 1
- Lua na 3
Muitas pessoas já encontraram razões para entender o porquê de cada planeta ter seu júbilo em determinada casa, e serei repetitivo para esclarecer aos neófitos.
Na verdade, as razões abaixo não devem ser as razões originais que motivaram a construção desse conhecimento. Astrologia é assim: a criação do modelo astrológico é cercada de mistério e com isso não se tem noção do raciocínio por trás da criação dos conceitos, como os domicílios, etc. Não há nada documentado, só vestígios. Portanto, o que vem a seguir pode ser útil como um guia mnemônico para memorizar os gozos dos planetas e entendê-los.
Yuzuru recentemente postou um esquema que pode ser o raciocínio original por trás dos júbilos, mas como todas as outras justificativas especula-se que ela seja a original (provavelmente baseada nos conhecimentos do project hindsight) e portanto voltamos à estaca zero.
Vamos às minhas razões para os gozos:
Saturno se regozija na casa 12 porque ela é uma casa que representa dívidas, sono e questões às quais temos de nos render. Os maléficos sempre se regozijam em casas que indicam problemas insolúveis ou coisas que necessitem de trabalho e crescimento, da mesma forma que marte se regozija na 6, uma casa upachaya (ou seja, que melhora com o tempo). Soma-se a isso que a Casa 6 representa inimigos, contra os quais a postura marcial muitas vezes é necessária. Marte é o planeta que representa lógica (e não mercúrio) e sua presença na 6 indica a lógica a serviço da resolução de problemas do dia-a-dia.
Vênus, um planeta que tem a ver com relacionamentos, vitalidade e amor tem seu gozo na Casa 5 porque a mesma trata de assuntos muito similares aos karakattvas (significados essenciais) venusianos. Soma-se a isso que a Casa 5 tem uma relação com estudos e genialidade e Vênus também possui a mesma relação na Astrologia Indiana (ela é chamada por jaimini de antevasina, palavra em sânscrito que representa estudante).
Júpiter se regozija na 11 porque é um planeta ligado a ganhos e bênçãos, um significado comum à 11. A Casa 11 é o acúmulo, a casa 2 a partir da Casa 10, uma casa de karma - ações - e portanto são os ganhos das grandes ações. Aqui vê-se que os outros significados da 11 não possuem relação direta com júpiter, indicando uma cisão entre a astrologia indiana e a ocidental: para os indianos, a 11 é uma casa upachaya e, portanto, cruel, pois seus ganhos são conquistados após esforço. Essa visão trabalhosa da 11 não está presente na astrologia ocidental.
Mercúrio se regozija na 1 porque esta casa é dividida ao meio pelo horizonte (na astrologia tradicional, as cúspides não são necessariamente o início das casas. O primeiro grau do signo da cúspide geralmente é o início). A casa 1 está dividida entre a luz e as trevas, e segundo alguns autores, é do agrado de mercúrio transitar entre dois mundos, visão essa que não é originalmente astrológica, mas que explica bem a natureza mercurial. Prefiro pensar que a casa 1 representa o nativo e seu intelecto e mercúrio coaduna com tais significados.
Sol e Lua se regozijam no eixo 3-9, e para entendermos isso é preciso recorrer a muitos outros significados das casas até mesmo na astrologia grega. O eixo 3-9 indicava deuses e religião e os luminares tem grande relação com a espiritualidade. A casa 9 indicaria religiões de estado e a 3 religiões pagãs (na prática não percebo essa distinção). Bruxaria wicca, por exemplo, tem grande relação com a Lua e poderia ser representada pela casa 3. Cristianismo e islamismo, por serem religiões nas quais o princípio masculino é mais forte, além de serem religiões de estado em muitos países, seriam melhor indicadas pela casa 9. A casa 3 indica movimento e viagens e a Lua é o planeta mais rápido. Afora tais significações, confesso que colocar os luminares nessas casas é um pouco 'forçação de barra', mas é assim há mais de dois mil anos e tem funcionado bem.
Agora que sabemos as razões por trás dos júbilos, resta saber para que eles servem. Talvez essa seja a coisa mais importante do artigo, porque até agora tudo que foi escrito são apenas especulações. Entretanto, os conceitos astrológicos clamam por praticidade.
Como o nome diz, os planetas se sentem super empolgados nessas casas. Um planeta em seu júbilo é como juntar um nadador treinado a uma piscina, um corredor a uma pista, uma criança a um playground. É como dar uma pistola a um atirador. O planeta tem significados que possuem grande relação com a casa e ele fica feliz em exercê-los sem contradições. É como juntar a fome com a vontade de comer.
Outra maneira de entendermos os júbilos é imaginar ao contrário. Coloque uma freira num bordel, uma criança na fila do banco, um policial no jardim de infância (há um filme sobre isso!). Os personagens acima exercerão seus papéis, embora não muito à vontade. A freira evangelizará e poderá até estar feliz em cumprir sua missão, mas convenhamos que as pessoas não vão a um bordel para ouvir a palavra de Deus...
De um modo mais prático, o planeta em seu júbilo indica épocas na vida da pessoa na qual ela estará radiante, excitada para resolver as questões indicadas pelos temas do planeta que goza. É um conceito mais fácil de ser visto em Revoluções Solares, e é aqui onde os indianos o usam.
É fascinante como podemos aprender astrologia medieval ocidental dentro da astrologia indiana! Os indianos incorporaram muitos conceitos do ocidente e deram a ele o nome de Astrologia Tajika (tajika significa 'persa'). Os gozos dos planetas são chamados de harsha e a eles se atribuem pontuação para se saber qual dos planetas é o mais poderoso no ano para ser o eleito a varshapati, o regente do ano.
Esquecendo a matematização dos indianos, podemos usar o conceito de gozo para sabermos épocas do ano ou questões que serão excitantes, que darão ao nativo empolgação e energia. O período do ano regido pelo planeta em seu gozo será tudo, menos entediante, seja para o bem ou para o mal.
A palavra chave para o conceito é 'excitabilidade'. Essa sensação é neutra. Tanto os momentos bons e ruins podem vir com uma boa dose dela, e por isso o conceito de 'gozo' é uma coisa separada, que não tem nada a ver com os outros conceitos astrológicos.Não existe contradição entre os diferentes conceitos astrológicos porque cada um deles se refere a uma coisa específica. Juntando todos eles, podemos descrever uma situação complexa que acontece na Terra, uma vez que este é o objetivo da Astrologia. Os conceitos astrológicos são muitos, tal qual as nuances das diversas situações pelas quais as pessoas passam neste planeta.
A excitabilidade não vem sempre acompanhada de felicidade. Uma pessoa pode estar triste e ao mesmo tempo excitada. Pacientes com transtorno bipolar de humor costumam se referir a uma 'tristeza agitada' ou uma 'alegria triste', onde eles estão agitados e fazendo várias coisas com rapidez, animadíssimos, porém sentindo uma angústia terrível dentro do peito. Nessas circunstâncias, não podemos dizer que eles estejam alegres ou felizes, mas excitados. Este é um exemplo útil para dissecarmos as diversas nuances da alma.
A expressão feliz ou infeliz de um planeta é indicada pelo conceito de dignidade planetária. O gozo mede a excitabilidade do mesmo. É importante diferenciar essa sensação de outros sentimentos e experiências, como a felicidade.
Perceba que 'felicidade' não é uma palavra apropriada para descrever os gozos, porque Saturno e marte são maléficos e gozam na 12 e 6 e no entanto as épocas que eles regem podem não ter nada de feliz.
Podemos ver claramente o conceito de gozo na expressão de saturno na casa 12. Tenho visto algumas pessoas com Saturno na 12 com insônia. A casa 12 representa o sono (uma das coisas às quais nos entregamos e relaxamos, da mesma forma que a 12 representa bares e prostíbulos...). Ter Saturno nessa casa indica uma grande excitabilidade, num contexto no qual o relaxamento é fundamental. Uma nativa que conheço acaba levando todos os seus problemas para a cama e tenta resolvê-los antes de dormir. Nem sempre isso é possível mas, mesmo quando o é, o resultado é uma grande insônia...
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