18/02/2011
Os trânsitos são a técnica menos importante da astrologia, mas isso não quer dizer que ela foi pouco usada durante o período medieval e ao longo d0 percurso da Astrologia Indiana.
Quando disse que não é importante, entenda como 'não é determinante'.
Os astrólogos sabiam a posição que os trânsitos ocupam na hierarquia de técnicas - uma posição importante, mas não determinante.
Nesse artigo, vamos colocar os trânsitos no seu devido lugar. E isso não tem nada a ver com subestimá-los.
Entenda o que é determinante por esse exemplo: Eu não posso dizer que o sol, ao passar pela casa 8, indicará minha morte, só porque ele rege o meu Ascendente. Isso porque o sol passa pela casa 8 todos os anos!
Quanto mais um ciclo se repete ao longo da vida de uma pessoa, menos valioso ele é para definir mudanças importantes.
Mas os trânsitos de Saturno, Júpiter, Urano, Netuno e Plutão, por serem lentos e se repetirem pouco, serão definidores do que acontecerá com a pessoa? Também não, mas por uma razão inversa a anterior!
Uma pessoa com trânsito de Plutão na 7 poderá experimentar, a depender do signo, de 7 a 15 anos de 'mudanças drásticas nos relacionamentos'? Mesmo que a resposta seja 'sim', quais os eventos que causarão essas mudanças drásticas?
Somente pela análise de Plutão, é impossível definir. Certamente, haverá nesse longo período de 7-15 anos muitos fatos ligados ao tema da casa 7.
(Mas eu não uso Plutão porque estudo Astrologia Medieval, que considero um sistema autônomo, que não necessita de reformas nem de acréscimos de corpos celestes.
O que temos de reformar nela é o modo como os sete planetas representam questões da contemporaneidade, e isso está nas nossas cabeças, e não no esquema planetário medieval!)
Interpretando trânsitos
Os trânsitos podem trazer em si várias informações, mas existe a maneira mais comum de interpretá-los, então não complique porque há várias outras técnicas a serem usadas em conjunto.
Os indianos tem uma maneira simples de interpretar trânsitos de coisas boas e que pode ser encontrada em alguns vislumbres nas obras de Bonatti e Abu Ali al-Khayyatt:
Perceba os signos com os quais Júpiter em trânsito faz trígonos no mapa natal. As coisas que esses signos contém serão promovidas nesse ano.
Para delimitar eventos ruins, use Saturno ao invés de Júpiter.
Por exemplo: Em 2009, Júpiter transitava por Vênus no signo de Aquário e isso coincidiu com o meu casamento.
Casamentos não ocorrem somente com Vênus em conjunção com Júpiter em trânsito. Se fosse assim, seria moleza prever qualquer matrimônio.
Veja o que acontecia ao mesmo tempo:

Júpiter em trânsito por Aquário fazia oposição ao meu lote do casamento dos homens de acordo com Hermes (a fórmula para homens é Ascendente + Vênus - Saturno); Júpiter também fazia trígono com a Casa 7. Soma-se a isso que Vênus, enquanto significadora de casamento, também é regente da minha casa 7 natal.
Então nós temos três indicadores ao mesmo tempo:
- Júpiter no mesmo signo que Vênus (que ao mesmo tempo é regente da minha 7);
- Júpiter em oposição ao lote do casamento;
- Júpiter em trígono com a Casa 7 e, por conseguinte, com Saturno ali incluso.
Não sei de vocês, mas a primeira reação ao ver todos esses sinais juntos seja pensar que o casamento era inadiável em 2009 .
Dá vontade de ser simplista, e considerar que apenas vendo trânsitos dá pra prever o futuro. É possível (mas improvável) agir assim.
Perceba, porém, uma coisa: em 2002, júpiter fez algumas coisas ao mesmo tempo:

- entrou em conjunção com o lote do casamento,
- fazia sextil à casa 7
- fez oposição a Vênus natal.
Note que os três pontos estão sensiblizados por Júpiter, mas há seis anos atrás - e eu não me casei! O que mudou foram os tipos de aspectos.
Um sextil sempre foi considerado mais fraco, então você pode até confabular que o casamento só foi ativado porque os trânsitos representantes de eventos devem ter aspectos mais fortes, mas perceba que houve somente um tipo de aspecto diferente se comparado ao trânsito de 2009.
Qual é a conclusão disso tudo?
Os trânsitos podem até delimitar eventos mas, para termos certeza, precisamos associá-los a outras técnicas preditivas, como revolução solar, direções primárias, secundárias e firdaria.
Se quisermos usar os trânsitos para prever bons eventos, veja quando júpiter aspectar a maioria ou todos os pontos significadores do evento.Por exemplo: se quiser prever o casamento de uma pessoa, tente ver quando é que Júpiter fará aspecto com o Lote do casamento, Vênus, a Casa 7 e o regente da 7, TUDO AO MESMO TEMPO ou o maior número possível de pontos acima.
E não se desiluda se eventos ocorrerem quando os trânsitos não indicarem suficientemente. Isso pode acontecer porque, como disse anteriormente, os trânsitos não são determinantes.
15/02/2011
Quando você estiver interpretando um planeta, algumas (muitas) dúvidas podem aparecer.
Eu diria que a dúvida mais comum é especificar o que um planeta representa para a casa onde ele está.
Um planeta na casa 8 pode representar acidentes, uma morte violenta, coisas súbitas, mas se ele estiver em aspecto com um maléfico, isso é mais certeiro.
Por outro lado, se o planeta acima estiver em aspecto com um benéfico, a tendência é que ele funcione na casa 8 como representante de heranças e/ou dinheiro de sociedades.
Os aspectos servem para definir melhor o que o planeta representa. Eles não mudam a 'cor' do planeta, apenas suavizam ou a intensificam.
Eu bati a cabeça muitas vezes com os aspectos e até hoje bato, mas do jeito que eu os entendo hoje é melhor... ou menos pior.
Antes dessa perspectiva, eu rezava para não encontrar aspectos, hoje eu quero mais que eles apareçam. Sem os aspectos, o planeta fica muito... incerto.
Aspectos, partes árabes, regentes das triplicidades, hyleg, alcocoden... São muitas coisas para aprender, e muitas vezes eu achava que havia coisa demais dentro da astrologia medieval. A quantidade para mim profusa de símbolos era um revés contra meu raciocínio. Mas...
A melhor mudança que o estudante de astrologia pode ter na sua cabeça é converter esses 'inimigos' em aliados.
Quando se está começando, é natural querer que o mapa seja mais simples, com menos elementos a serem analisados.
Com o passar do tempo, e com o acúmulo de erros, o estudante aprende que todos os elementos que ele aprender nunca serão suficientes. Nenhum deles é supérfluo.
Na verdade, a Astrologia Medieval Ocidental tem menos elementos do que a Astrologia Jyotisha (indiana). Nós só usamos o mapa natal, os indianos tem vários mapas adicionais baseados no mapa natal, um para cada assunto - as famosas 'cartas divisionais'.
Os indianos são o exemplo extremo do excesso de itens. A quantidade de elementos a serem analisados é tão grande que a maioria dos astrólogos escolhem apenas alguns itens e deixam de usar outros.
Por exemplo, quando se quer saber a força de um planeta, existem quatro maneiras famosas:
- Ashtakavarga
- Shad Bala
- Varga Bala
- Avasthas
A maioria dos autores dão importância ao shad bala, mas eu tenho de confessar que em todos os exemplos de interpretação que eu vi ninguém usou todo o shad bala.
O ashatakavarga é interessante, mas pelo que parece o mais comum é usá-lo nas previsões mais do que na interpretação natal.
O varga bala pra mim é muito importante, mas não vejo as pessoas usando muito.
Os avasthas são 'estados de espírito' dos planetas. Seriam sentimentos deles, como se fossem pessoas. Tem o avastha 'deprimido', 'triste', 'com desejo de dançar'...
P. V. R. Rao diz que cada um dos itens acima refletem facetas do planeta, e sua importância não deve ser confundida.
Quando eu tenho que fazer uma coisa espontaneamente, vai contar mais a minha vontade e ânimo de fazê-lo, então o avastha é importante, mas quando eu vou trabalhar, preciso cumprir a minha função mesmo se eu não tiver disposição - o que torna o avastha desprezível.
Temos que aprender com os indianos muitas coisas, mas a principal é que as coisas tem funções diferentes mas que, no final, se somam em ressonância para representar uma situação complexa. A vida nem sempre é simples.
05/02/2011
As Grandes conjunções (conjunções entre Júpiter e Saturno) constituem um elemento da Astrologia Persa que foi incorporado às práticas astrológicas ocidentais no medievo.
Elas não são oriundas do Tetrabiblos mas, a despeito da falta de respeito que tudo não-ptolomaico tem na astrologia, se mantiveram bem aceitas por séculos, talvez devido à eminência de um dos seus divulgadores, Abu Ma'shar.
As grandes conjunções são utilizadas para prever alterações na ordem mundial. Elas marcam o nascimento de profetas, ideólogos (como Karl Marx), e subseqüentemente, toda a alteração que essas novas religiões e ideologias causam na humanidade.
Mas não é só isso. Ao mudar os princípios que regem a humanidade, altera-se todo o jogo de forças geopolíticas; logo, as Grandes Conjunções também indicam mudanças no poder mundial, a queda de 'dinastias' e o surgimento de outras, etc.
Nas democracias, as 'dinastias' não vigoram mais... ao menos, não como antes (lil' bit sarcastic...). No Maranhão, temos a Dinastia Sarney, há anos no poder mas, em tese, a cada 4 ou cinco anos, sobe um governante escolhido pelo povo.
O conceito de dinastia, porém, pode ser usado em muitos estados modernos, como a China, a Coréia do Norte, e durante muito tempo pôde ser usado para o Egito, que está nos holofotes atualmente e merece um artigo à parte.
Para prever essas alterações importantes, devemos analisar a carta de ingresso do Sol no primeiro minuto do Signo de Áries (Abu Ma'shar, Masha'Allah, Bonatti, Ali aben Ragel, etc.) ou a carta do eclipse mais próxima da exatidão da conjunção (Al-Battani).
Júpiter e Saturno se unem a cada 20 anos, mas não é toda a conjunção que deve ser importante a ponto de se criar uma nova religião ou ideologia.
Para um observador mais distraído, essas conjunções não seriam as melhores indicações de mudanças na ordem mundial, por ocorrem dentro um ciclo historicamente muito curto, de apenas 20 anos.
Por conta disso, muita gente recorre aos ciclos dos planetas Urano, Netuno e Plutão, percebendo a simbologia de certas fases dos seus ciclos com os eventos históricos que ocorreram simultaneamente.
Não estou na posição de criticar quem realiza esse tipo de Astrologia, mas sim de estudar como as mudanças mundiais eram percebidas pelos Astrólogos antigos.
Nunca vi criticarem a astrologia medieval por não usar os planetas além de saturno nos eventos mundiais mas, se acaso fosse, os ignorantes costumam ser maiores críticos e alegariam que nela não existe modo de se acompanhar grandes ciclos da humanidade porque, como foi dito anteriormente, Júpiter e Saturno se unem no mesmo signo a cada 20 anos, sendo esse um tempo muito pequeno dentro da história da humanidade.
Os ignorantes também costumam errar nas suas críticas.
As conjunções Júpiter-Saturno obedecem a um padrão geométrico-zodiacal interessante, que os leitores puderam perceber na figura abaixo, num dos posts anteriores:

O que percebemos na figura acima é que as conjunções de fato ocorrem a cada 20 anos, porém:
- A conjunção seguinte ocorre no nono signo do qual ocorreu a anterior,
- A conjunção seguinte não ocorre na mesma longitude que possuía no signo anterior, mas aproximadamente 3º à frente. Por exemplo, se a conjunção ocorreu em 20ºPeixes, ela ocorrerá daqui a 20 anos em 23 de Escorpião, aproximadamente.
- Seguindo o padrão anterior, há cerca de 12 ou 13 conjunções seguidas em Signos do mesmo elemento.
- Ainda seguindo as premissas anteriores, a série de 12 a 13 Conjunções permanecem no mesmo elemento por aproximadamente 240 anos, quando passam ao elemento (triplicidade) seguinte.
A cada 240 anos, portanto, ocorre um fenômeno importantíssimo, chamado de mudança de triplicidade.
Os astrólogos antigos analisavam a mudança de triplicidade das conjunções Júpiter-Saturno para prever as mudanças do poder geopolítico e das ideologias da humanidade.
Essas conjunções, porém, podem ser calculadas por dois parâmetros, que já foram vistos por aqui:
- Movimento médio, que não existe mas que é regular. Seria a 'velocidade média' dos planetas.
- Movimento real, aquilo que você tem no céu e o que todos os programas contém.
Steven Birchfield alega que Abu Ma'shar usava movimento médio para definir qual conjunção de movimento real seria a mais significativa, mas Al-Battani considerou uma conjunção real que não coincidia com o signo indicado pelo movimento médio.
Trata-se de uma questão polêmica, e que não convém aqui julgar qual lado é o correto, mas eu creio que o movimento médio não seja importante, e sim o real, portanto de hoje em diante considerarei as mudanças de triplicidade não no movimento médio, mas no real.
O post está ficando longo demais e, portanto, dedicarei ao próximo um estudo das mudanças de triplicidade no zodíaco sideral e tropical, pricipalmente no século XIX e XX.
02/02/2011
Continuando nossa análise das grandes conjunções, que começou aqui nesse link.
Falávamos do movimento médio e das suas implicações na escolha das conjunções, mas não entramos na interpretação destas.
Antes de interpretarmos (bota 'antes' nisso...) há que se fazer mais uma consideração:
Qual mapa devemos usar para interpretar uma conjunção Júpiter-Saturno?
Devido à lentidão dos trânsitos Júpiter-Saturno, era difícil saber a hora exata em que uma conjunção ocorria usando apenas tábuas de posições.
Hoje em dia, com nossos programas turbinados, basta calcular a conjunção exata de Júpiter com Saturno, mas essa não poderia ser a abordagem medieval pelo motivo já explicitado no parágrafo anterior.
Como a tradição conta com muitos exemplos de interpretação usando o método medieval, é preferível nos apegarmos a ela do que construirmos algo completamente novo, com o qual não sabemos lidar. Nosso Empirismo anda de mãos dadas com a experiência prévia dos autores como ponto de partida.
O importante é que funcione.
Os astrólogos medievais não usavam a hora exata da conjunção, mas sim dois momentos significativos, sendo o mais comum o primeiro da lista:
- Fazer a carta de ingresso para o Sol no primeiro minuto do primeiro grau de Áries (00°Ar01') no ano em que a conjunção ocorrer.
- Fazer a carta do eclipse mais próxima da exatidão da conjunção.
O procedimento número 1 é o preconizado por figuras como Guido Bonatti, Masha'Allah e o 'pica das galáxias', 'príncipe dos astrólogos' Abu Ma'Shar. É quase uma unanimidade...
...Quase. O procedimento número 2 é muito interessante e tem despertado meu interesse. Ele é preconizado por uma figurinha pouco expressiva da história da Astrologia, mas que tem sido um cara muito estudado nos últimos anos: al-Battani.
al-Battani registrou a sua versão da história do islã à luz da Astrologia. O cara mostra até o que seria um mapa do profeta Maomé! Curiosidades à parte, Al-Battani promove uma reflexão sobre o método ideal para as conjunções.
Segundo al-Battani, a carta de ingresso do Sol no primeiro minuto de Áries nunca foi preconizada por Ptolomeu;
Durante muito tempo, qualquer coisa que estivesse além de Ptolomeu não era respeitada e, baseado nessa cultura de 'preciosismo Ptolomaico' que al-Battani rejeitou o uso das cartas de ingresso.
Quem faz Astrologia hoje (e tem honestidade intelectual consigo mesmo) não dá mais a mesma importância a tudo que venha de Ptolomeu. É importante MAS há autores muito bons, com métodos diferentes. Portanto, não vai considerar o que al-Battani disse como algo 'escrito em pedra', a verdade absoluta. Até porque as Cartas de Ingresso funcionam, e como!
Mas, quanto ao que ele disse sobre Ptolomeu, tem toda razão:
Ptolomeu nunca citou o uso da carta de ingresso no primeiro minuto de Áries.O método Ptolomaico de previsões mundiais se baseava nos eclipses (Tetrabiblos, livro 2, capítulo 1)
Consideremos o que Ptolomeu disse não como uma lei a ser seguida, mas um conselho: por que não usarmos também as cartas de eclipse?
A conclusão no momento é que as cartas de eclipse e de ingresso, que são usadas anualmente, também devem ser usadas para entendermos como uma Conjunção Júpiter-Saturno funcionará.
Depois de escolhermos a técnica correta, resta saber como interpretar. Antes de interpretar o que vai acontecer, porém, ainda resta uma pergunta cabal para Astrologia Mundial: o mapa se referirá a qual país ou região? Esse é o objetivo do próximo post, junto a outros tão importantes quanto.
01/02/2011
A introdução de uma teoria das Conjunções Júpiter-Saturno na Astrologia não é Ptolomaica. Veio provavelmente do império Sassânico, e é por isso que não vemos nada do gênero até os autores persas, como Abu Ma'shar e Masha'Allah.
Em outras palavras: Enquanto Ptolomeu inicia seus trabalhos no segundo século depois de Cristo, só a partir do século VII d.C. que aparecem os primeiros registros dessa teoria.
Do que ela trata?
A teoria das Grandes Conjunções fornece um modelo para entendermos as grandes mudanças da história da humanidade, nos campos ideológico, político e econômico.
A teoria das Conjunções Júpiter-Saturno pode representar:
- O surgimento de religiões influentes como o Cristianismo e o Islamismo (esta última com inúmeros exemplos da literatura, pois os autores medievais influentes eram árabes):
- O surgimento de nações poderosas, ou o fortalecimento de uma nação;
- A ascensão de uma nova dinastia, que toma o poder de um determinado país e ganha força.
Mas nem tudo são flores...
Problemas técnicos
O modo chegamos a isso, porém, esbarra em inúmeras complicações.
Os problemas residem no método de cálculo dessas conjunções.
Criou-se uma discussão em torno da problemática do movimento médio dos planetas Júpiter e Saturno versus a posição real dos mesmos.
"movimento médio", como o nome diz, é a velocidade média do planeta.
Para ilustrar isso: Um carro pode viajar a 20 km por hora em 2 horas (percorrendo 40km), depois viajar a 40 km/h em mais 3 horas (percorreu 120 km). A velocidade média será o quanto ele percorreu sobre o período de tempo, portanto 120km + 40km dividido por 5h, igual a 32 km/h.
Se o carro fosse um planeta, os astrólogos podem usar o movimento médio para saber em que altura da estrada ( isto é, em que signo) ele estará, mas isso vai diferir do movimento real do carro, isto é, o quanto ele percorreu.
No exemplo acima, em uma hora, com velocidade média, o carro percorreria 32 km, enquanto, pelo movimento real, o carro percorreu apenas 20 km na primeira hora!
Em outras palavras: pelo movimento médio, a conjunção entre Júpiter e Saturno pode diferir da posição real deles.
Entretanto, alguns estudiosos da Astrologia Medieval, como Steven Birchfield, afirmam que os astrólogos se baseavam no movimento médio de Júpiter e Saturno para escolher a conjunção mais significativa.
Não temos escolha. Tenho estudado a obra de Al-Battani, um astrólogo árabe, e infelizmente todas as conjunções listadas por ele tem o movimento médio coincidindo com a conjunção real. Ou seja: usando as conjunções do nascimento do Islã, não podemos inferir qual método de cálculo é o correto, pois ambos os tipos coincidem!
Por isso que a melhor maneira até agora é ir por esse viés:
A conjunção média que coincidir com a posição real é dita importante, uma vez que as outras aparentemente não eram consideradas.
Porém, à medida em que nos afastamos do nascimento do Islã, o movimento médio deixa de coincidir com o movimento real dos planetas, e as coincidências entre o movimento médio e o real persistem, mas diminuem.
Talvez a coincidência do real com o imaginário (mov. médio) seja algo criado pelos astrólogos islâmicos: talvez eles alinhassem o movimento médio dos planetas com o movimento real na altura da criação do Islã para justificar a importância do nascimento do seu profeta, já que a posição média é algo que não existe, sendo apenas uma inferência do raciocínio humano.
Essa é a principal dificuldade no estudo das grandes conjunções, e a resposta para esse dilema tem sido escolher a coincidência da média com o real.
Mas a pergunta que não quer calar:
Para que esse tal de 'movimento médio'?
O movimento médio é um facilitador dos cálculos. Em tempos sem computador e usando tábuas astronômicas, a melhor maneira de se saber sobre a época em que uma determinada conjunção cairia era através dele.
Mas ele não era fruto da ignorância dos astrólogos, pois já naquela época, as tábuas astronômicas chegavam a resultados parecidos com os nossos, efemérides da NASA.
Por já terem um grau avançado de precisão astronômica, os astrólogos já sabiam da irregularidade do céu, então o movimento médio deveria ter outra importância. Sem ele, esse belo desenho celeste não seria possível:

É pelo mov. médio que eu chego a aproximação do intervalo de 20 anos entre duas conjunções; ainda por ele, o mesmo elemento (triplicidade) tende a receber uma série de conjunções por 240 anos, quando ela passa à triplicidade seguinte.
A mudança de triplicidade, como veremos nos próximos posts, era algo muito importante, e os astrólogos precisavam do movimento médio para saberem quando isso aconteceria, uma vez que o movimento real tornava os padrões celestes menos regulares.
Pelo movimento real, a mudança de triplicidade poderia ocorrer antes do fim do período de 240 anos, porém logo na conjunção seguinte o padrão voltaria à triplicidade anterior.

Por exemplo, pela tabela acima, em 27 de julho de 769 d.C. houve uma conjunção real na Triplicidade de Fogo (Leão), que se seguiu à triplicidade de água, Escorpião, em 10 de dezembro de 749 d.C.
Ainda analisando a figura, a conjunção seguinte àquela ocorrida em Leão retomou à triplicidade anterior, se concretizando em Peixes no dia 18 de fevereiro de 789.
Finalmente, a triplicidade de fogo veio para ficar na conjunção de Sagitário, em outubro de 809.
Pelo movimento médio, a conjunção real em Leão seria menos importante do que a conjunção em Sagitário, porque esta ocorreu tanto na realidade quanto em movimento médio. Soma-se a isso que Sagitário ocorre numa mudança de triplicidade, e devido a isso pode mostrar o nascimento de profetas, de uma religião, teoria ou nova dinastia.
É por isso que nós, humildemente, consideramos o uso do movimento médio pelos astrólogos medievais como algo proposital, mais do que um cálculo seguido à risca e com a boa fé de que fosse fidedigno.
Há um argumento filosófico importante, e esquecido até agora. O céu era visto como algo perfeito e incorruptível, um pressuposto Aristotélico que valorizava a regularidade das formas e a inteireza dos números.
O movimento médio indicava a hora certa de se escolher algo significativo
No próximo post da série, vamos falar do que é preciso para interpretar as conjunções.
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