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repensando conceitos: a orientalidade

Existem algumas coisas que só são encontradas na Astrologia Medieval e Clássica, como o conceito de Orientalidade. Confesso que nunca consegui aplicá-lo devidamente: o que ele representa na prática?

A grosso modo, um planeta está oriental se ele estiver atrás do Sol (em graus zodiacais) e suficientemente distante para não ser queimado pelo luminar. Dentro de alguns dias, Saturno se enquadrará nesses critérios, e o efeito mais notável disso será a sua aparição a leste quando o Sol estiver nascendo. Mas o que fazer com isso?

Um planeta oriental é considerado forte, mas isso em geral não deve mudar as outras coisas que ele representa no mapa. Um planeta oriental em casas cadentes, por exemplo, não deve se contradizer, e cada uma das suas informações deve dizer algo particular a seu respeito. Mas ainda não sei direito como seria um planeta oriental na prática.

Algumas coisas podem nos ajudar a saber. Milhões de pessoas nascem com planetas orientais: isso não é um fenômeno que seja específico do local e do momento onde a pessoa nasceu. Assim, não podemos inferir coisas muito importantes com base nele. De qualquer forma, ter um planeta oriental é considerado algo bom, por ser considerado forte.

Algumas palavras-chave pipocam a minha mente quando penso nesse conceito: prontidão, agilidade, força, eficácia, juventude. Todas essas palavras se devem aos livros que eu li nos quais o conceito é citado. Por ser um conceito que representa força, ele é neutro: planetas maléficos podem ser orientais terem muita força e rapidez na sua manifestação.

Acho que a melhor maneira de sabermos melhor o que representa o conceito é irmos até fontes alternativas da astrologia. O conceito de orientalidade não tem precedente na Astrologia Indiana, mas existem outros que partilham uma coisa em comum: o fato de serem comuns a muitas pessoas. É o caso do Shad Bala.

Na Jyotisha há um sistema de pontos para averiguar as diferentes forças de um planeta, chamado de Shad Bala. Dentro desse sistema, que visa somar seis forças diferentes para se chegar a uma síntese, existem algumas forças que não dizem respeito somente ao mapa da pessoa: muitas pessoas que nasceram no mesmo dia e na mesma época terão esse mesmo tipo de força com o mesmo valor em pontos. É o caso do Chesta Bala, que mede a força oriunda da velocidade do planeta.

Um planeta lento recebe mais pontos no Chesta Bala que um planeta rápido, e esse tipo de força não se restringe somente ao mapa da pessoa: milhares de pessoas que nasceram na mesma época terão seus planetas com valores de Chesta Bala muito parecidos. Isto porque a velocidade de um planeta não muda muito rapidamente. Portanto, chegamos à mesma conclusão do conceito de orientalidade: quando o astrólogo interpreta o que representaria o valor de Chesta Bala do planeta, não dá pra dizer uma informação muito específica da pessoa cujo mapa se analisa. De qualquer forma, tanto o Chesta Bala quanto a orientalidade do planeta representarão alguma coisa na vida dela pois, se fosse algo tão inútil, não seria citado por tantos e tantos livros.

Talvez você esteja pensando que não adiantou essa pequena excursão à Índia, mas eu não terminei. Meus professores mais recentes desenvolveram maneiras consistentes de avaliar o Shadbala e eu me inspirarei nelas para entender como seria praticado o conceito de orientalidade.

O Shad Bala não mede o grau de sucesso de um planeta. O sucesso dele depende de fatores muito específicos do mapa individual, particulares à hora e ao local de nascimento: as casas e as dignidades em mapas divisionais, que mudam muito mais rapidamente do que as dignidades dos signos (Rasis): Enquanto Saturno demora dois anos e meio para percorrer um signo, ele demora apenas 15 dias em média para sair de uma shashtiamsa, dignidade que seria a metade de um grau zodiacal. Se é rápido assim, imagine com os outros planetas.

Portanto, o Shadbala não deve indicar sucesso, mas talvez uma outra qualidade. E os autores mais recentes de jyotisha concordam que essa qualidade, embora não tão definidora do destino individual, seja muito presente na vida da pessoa: a competência do planeta na sua ação.

Planetas com Shadbala baixo (o sistema é medido em pontos) indicariam planetas incompententes nos seus significados essenciais. Por exemplo: pessoas com mercúrio com shadbala inferior a 100% (como é o meu caso) são desatentas e trocam as informações o tempo todo.

Ernst Wilhelm tem também Shadbala inferior a 100% e quem teve a oportunidade de ouví-lo percebe que ele se perde muito mais nas suas aulas do que qualquer outro astrólogo que tive o prazer de ouvir. Entretanto, ter ShadBala baixo não impede mercúrio de indicar êxito nos seus empreendimentos: Mesmo se enrolando todo durante as aulas, Ernst consegue fazer um dos melhores e mais claros cursos de Astrologia indiana que já tive o prazer de conhecer. Talvez porque a qualidade dos seus escritos, a preparação do material didático e outras coisas mais - que são importantes para o sucesso - não dependam apenas do 'mercúrio' de Ernst.

É incrível como há pessoas nesse mundo que chegaram aos píncaros da fama e que não possuem competência no que fazem. Tome por exemplo as celebridades instantâneas de internet. Essas pessoas podem ser exemplos de nativos com um alto grau de sucesso mundano (planetas em boa condição de dignidade e em boas posições de casas) mas com pouca ou nenhuma competência (o que seria indicado pelo Shad bala fraco).

E é baseado nessa conclusão do Shab Bala que eu me inspiro para entender o que seria um planeta oriental. Planetas nessa condição seriam robustos, fortes, indicariam coisas com viço natural, juventude. Tudo isso ajuda a realização do planeta mas não é a coisa mais importante para que o planeta indique sucesso, êxito ou grande força. Na Astrologia Medieval, o conceito mais importante para se definir força depende da posição dos planetas nas Casas, porque isso depende do horário de nascimento. Quanto mais específico, mais importante.



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