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Sobre a frequência de acerto das técnicas

Quando se começa a praticar astrologia, erros de previsão recorrentes de uma mesma técnica podem fazer o estudante desanimar e procurar outras técnicas que funcionem melhor, mas nesse movimento o estudante pode perder uma técnica preciosa. É que nenhuma técnica funciona 100% das vezes e em 100% dos mapas.

Não há razões claras para justificar a afirmação acima. Poderíamos pensar que a técnica funcionou por duas ou três razões:
  • Foi praticada erroneamente, seja por erro/desatenção do astrólogo, seja pela falta de detalhes do texto que a descreve;
  • Foi praticada corretamente, mas existem exceções às quais o texto que a descreve não se refere;
  • Foi praticada de um modo completamente correto, mas misteriosamente não funcionou (isso pode ser mais comum do que você imagina).
Quem é profissional de astrologia pratica diariamente em mapas de clientes, e cria para si uma porcentagem de acertos para cada técnica que experimenta. Essa porcentagem tende a ser mais acurada quanto maior for a amostragem de clientes do astrólogo. Se você for um estudante e não pratica diariamente, pode achar que uma técnica não funcionou porque, na única vez em que a usou, as coisas não aconteceram conforme o previsto.

Por exemplo, Ernst Wilhelm diz que algumas técnicas funcionam apenas 40% do tempo. Só que ele é astrólogo profissional e tem quase vinte anos de prática. Quando um astrólogo assim diz que uma técnica funciona aproximadamente 40% das vezes, é muito provável que ele esteja certo, enquanto você, astrólogo por hobby sem dedicação exclusiva, quando diz que algo não funciona 100% das vezes, tem uma chance grande de estar sendo simplista e injusto.

40% de acertos, para nosso gosto exigente, é ruim; mas Ernst diz que os médicos ocidentais acertam apenas 30% dos diagnósticos, mesmo com todos os exames complementares e sem a pressão de fazer prognósticos. Eu desconfio que Ernst esteja errado (além de não ter citado a fonte) mas, caso contrário, é impressionante pensar que o melhor dos médicos não tem a acurácia da pior das técnicas preditivas astrológicas.

Quem eu chamo de simplista e injusto não é nenhum leitor em específico; por diversas vezes eu me coloquei nesse papel quando, ao não conseguir interpretar a Firdaria, a extirpei da minha prática, enquanto um astrólogo como Robert Zoller, com 40 anos de experiência, defende efusivamente seu uso no curso de astrologia que ministra.

Se um astrólogo afamado e experiente como Zoller defende uma técnica que não funciona bem na minha prática, antes de pensar que tudo é relativo e que realmente a estou aplicando corretamente, é preciso ser mais humilde e pensar que estou posso estar praticando-a com algum erro ou com alguma super expectativa, o que é também muito comum.

Sobre a super-expectativa: toda técnica tem o seu limite. Procurar entender pela Firdaria porque eu escorreguei na banheira num sábado chuvoso não é a melhor abordagem para julgar que a técnica não funciona, porque é capaz de você não vislumbrar isso pela técnica, mesmo depois do fato ter ocorrido. Se, por outro lado, você conceber a firdaria como uma disposição geral do período de vida do nativo, pode ficar satisfeito com o que ela pode lhe proporcionar.
A consciência de que uma técnica tem uma porcentagem de acerto gera, dentre outras coisas, humildade. Se um colega astrólogo errar uma previsão, não aponte todos os seus mísseis sobre ele, porque certamente amanhã será você quem errará.
É claro que existem dois outros fatores que não foram abordados até agora e que são importantes:
  • A adaptação do astrólogo à técnica;
  • A confiança em fontes mais experientes;
Existem técnicas poderosas, mas que você pode não gostar de aplicar, talvez por não ter se adaptado à sua lógica.

Por exemplo: Eu sei interpretar Revoluções solares conforme ensina Morin de Villefranche, e nas poucas vezes em que a usei eu fiquei impressionado com o quanto eu pude prever; mas não foi para mim uma experiência agradável: se analisar apenas um mapa já é deveras difícil, quiçá dois mapas separadamente e unidos por interaspectos! Por isso que, antes de desenvolver uma enxaqueca crônica, eu desisti de incluir a técnica de Morin na minha prática.

O segundo ponto acima é óbvio. Se eu gosto de aplicar uma técnica que funciona apenas 40% do tempo mas um astrólogo experiente e honesto usa outra técnica que ele julga ser mais poderosa (capaz de acertar em 80% das vezes), é um atestado de insanidade que eu permaneça a mercê do acaso a praticar uma técnica fraca se eu posso aprender a técnica que funciona melhor (desde que ela se adeque ao meu modo de pensar).

O grande problema é que os astrólogos experientes e professores transmitem subliminarmente aos alunos que os símbolos astrológicos sempre se manifestarão de alguma forma e se esquecem de que os meios de se chegar á interpretação dos símbolos podem ter lapsos em alguns (ou muitos) mapas. Esquecem do sujeito que está por trás da interpretação e fazem um julgamento preto e branco sobre as técnicas: se funcionou uma vez, funcionará 100% das vezes e, quando não funciona 100% das vezes, é porque o aluno errou ou a técnica não funciona 100% das vezes e, portanto, deve ser descartada. Esse pensamento é transmitido aos alunos subliminarmente e tem várias implicações.

A primeira implicação possível desse preciosismo é o aluno de astrologia começar a 'procurar cabelo em ovo': quando ele errar uma previsão, vai querer procurar a razão para entender porque a técnica não funcionou, só que geralmente essa razão foge à linha de pensamento da técnica e portanto ele nunca faria assim a priori, mas somente o faz agora porque sabe do desfecho. Se, ao reaplicar a técnica, ele se certificar de que não estava errado e de que a técnica ainda assim não funcionou, a simples conclusão de que nenhuma técnica funciona 100% das vezes poderia consolá-lo.

Por exemplo: o aluno pode ter aprendido que o regente do signo da profecção (técnica preditiva medieval e indiana) será sempre o regente do ano (o planeta que resume os principais acontecimentos do ano) mas, em determinado ano, ele pode concluir que o regente do ano não teve importância nenhuma na vida do cliente. Achando que a técnica não presta, ele pode criar um raciocínio para explicar porque o regente do ano não funcionou para descrever o ano do cliente, raciocínio este que ele só criou porque já sabe como o ano se processou. Certamente ele não usaria do mesmo antes do ano acontecer. Toda essa racionalização poderia ser evitada se ele tivesse a serenidade de reconhecer que nenhuma técnica funciona 100% das vezes. No ano seguinte, talvez ele obterá resultados excelentes usando a profecção como lhe foi ensinada e apagando da sua mente as teorias mirabolantes dos casos onde ela não funcionou.

A segunda implicação possível é o estudante que vaga de técnica em técnica, de escola em escola, sem paradeiro, porque testa todas as técnicas possíveis e imaginárias mas não se detém em nenhuma delas, porque nenhuma delas funcionou de primeira ou em todos os mapas. Mais uma vez, a afirmação de que nenhuma técnica funciona sempre poderia confortar esse estudante e fazer com que ele definitivamente escolha uma escola de astrologia para investir seu tempo, pois invariavelmente uma dessas técnicas e escolas funcionarão numa porcentagem satisfatória de mapas.

Sugiro aos leitores que nos livremos dessa perspectiva tudo-ou-nada comum na astrologia e que consideremos as miríades de nuances entre o absolutamente errado e o absolutamente correto, pois estas nuances são mais comuns de ocorrerem no quotidiano da nossa prática astrológica. Um erro de previsão nunca deve esmorecer o astrólogo aprendiz e apenas as falhas recorrentes que devem nos alertar.



Comentários

  1. Olá Rodolfo!

    Sou sua colega no Personare! : )

    Muito bacana seu blog, com informações muitos profundas sobre a astrologia. Gostei!

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