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Alguns autores de Jyotisha I - Satyacharya


Vamos começar uma série apresentando alguns autores de Astrologia indiana para vocês se orientarem na compra ou download dos livros. Como sempre existirá autores de jyotisha que não conheço, dos recônditos de uma região qualquer da Índia, o título "alguns autores" será modesto e realista. Apresentarei, a priori, os autores mais citados entre os astrólogos contemporâneos. Um desses autores famosos, sem sombra de dúvida, é o sábio Satyacharya.

O tradutor do sânscrito para o inglês não situa bem a época do autor do manuscrito. De fato, há duas prováveis origens: uma que o conhecimento dele é derivado da escola de Jaimini e a outra que Satyacharya é um monge budista versado em Astrologia. De qualquer forma, ele é citado inclusive pelo eminente Varahamihira (autor do Brihat Jataka, que mais cedo ou mais tarde aparecerá nessa série também).

É de Satyacharya um dos mais famosos e completos tratamentos das constelações indianas, os Nakshatras. Ele também cita que devemos começar os períodos planetários (Dasas) da Lua ou do Ascendente, aquele que estiver mais forte - um conselho que não se restringe ao autor e que é seguido por escolas respeitadas de Jyotisha, como o Sri Jagannath Center (SJC).

O tratamento dele sobre cada casa do mapa não é muito extenso e não varia muito em relação a outros autores famosos, como Vyankatesh Sharma, autor do Sarvartha Chintamani. De fato, esses autores tem em comum uma simplificação em relação a Parasara e Jaimini. Enquanto eles não citam outros tipos de períodos planetários, (somente o difundido Vimshottari Dasha) o tratamento que cada um dá às casas tende a ser mais simples do que em Parasara e Jaimini.

O interessante na Astrologia Indiana é que os autores mais renomados são os que apresentam em suas obras uma maior complexidade, visível no maior número de conceitos expostos se comparados a outros autores. Parasara e Jaimini, quase unanimidades, são complexos e desafiadores. Muitos ainda tem dúvidas sobre como aplicar alguns conceitos por eles expostos, como o Argala. Enquanto isso, se compararmos à Astrologia Clássica do Ocidente, o nosso Ptolomeu - considerado o patrono da Astrologia no Ocidente - expõe uma versão singela do quadro que se desenvolvia no mundo Helênico e o que se seguirá no mundo árabe medieval. Valens é muito mais complexo que Ptolomeu, entretanto foi pouco citado entre autores da era medieval até hoje. Na contemporaneidade, foi redescoberto nos anos 90 do século XX pelo Project Hindsight.

Justiça seja feita, Satyacharya é menos vasto que Parasara e não à toa ser menos citado, porém ele dá um tratamento mais aprofundado ao menor número de conceitos da sua obra. Isso é verdadeiro quanto ao capítulo das constelações e da interpretação do Vimshottari Dasha - a técnica preditiva mais difundida entre os indianos.

Quanto à interpretação das casas, Satyacharya é um autor ordinário. Na sua interpretação, não há nada de hermético no entendimento dos slokas (aforismos) sobre cada casa. PORÉM, ele dá as interpretações de cada regente de casa em cada casa - sim, leitor, as 144 combinações. Vou reproduzir uma aqui (página 58):

"Se o regente da casa 6 estiver no lagna (Ascendente), o nativo será valente, um comandante. Sua tia materna viverá em sua casa. O nativo terá muito poder. Ele será empregado no governo e terá muita autoridade. Ele pode ser encarregado de prisões. Os efeitos, porém, hão de diferir de acordo com a natureza do yoga (combinação) presente. Havendo yoga benéfico, bons resultos se seguirão. Se maléfico, ele será perturbado por doenças e será um ladrão."
A figura acima é o meu mapa natal. Note que o Regente da Casa 6 (Sol - "Su" na figura, no quadrado superior à extrema esquerda) está no Ascendente, aspectado por dois maléficos (Saturno e marte), o que é um yoga maléfico. O aspecto de marte ao sol não é tão ruim porque ele uma casa boa da figura (9, escorpião) e outra neutra, que adquire as tendências da outra casa do planeta que a rege (2, Áries); por outro lado, Saturno representa casas ruins (11 e 12).

O aspecto mútuo (oposição) do Sol a Marte pode ser considerado um yoga benéfico porque marte rege casas boas da figura e é amigo do Sol; o aspecto de Saturno, por outro lado, é péssimo para os significados do Sol e do Ascendente.

No dasa Sol-Saturno (Vimshottari Dasa tradicional, iniciado pela Lua), eu sofri um acidente no qual tive uma fratura de tíbia direita. Passei por uma operação para corrigir o problema e, no mês seguinte, comecei a apresentar febres altas: tinha me contaminado (provavelmente durante a cirurgia) por uma bactéria e desenvolvi osteomielite (infecção da medula óssea por bactérias). Tive de ser internado novamente, para me submeter a um tratamento de 28 dias de antibióticos, pois o osso é uma estrutura de difícil acesso pelos antibióticos e requer um tratamento mais demorado. Após a alta, em março de 2008, tive outra agudização da osteomielite no início de junho. Fui internado novamente, para mais 28 dias de antibioticoterapia.

Após todo esse tormento, a fratura ainda por cima não teve a consolidação adequada, ficando torta. No ano seguinte (2009) - já sobre um outro dasha (Sol Mercúrio), tive de fazer uma cirurgia corretora com a implantação de um fixador, com o qual fiquei por cerca de seis meses. Todo o processo ligado à fratura só veio a terminar dois anos depois, no dasa Sol Ketu, no qual eu também me casei.

Esse exemplo mostra que Satyacharya é simples, mas correto. O regente da Casa 6 no ascendente com yoga maléfico produziu coisas ruins ligadas ao significado da Casa 6, manifestadas no dasa Sol-Saturno - os dois planetas envolvidos na configuração.

Outra coisa notável é que o dasa da Lua funcionou melhor do que o dasa contado a partir do ascendente, do que se pode deduzir que a Lua é mais forte que o Ascendente por ser aspectada (oposição) por Júpiter e Mercúrio, sendo este último o significador da alma (Atma karaka). O Ascendente, por mais que possua mais planetas envolvidos (Sol, Marte, Saturno e ketu), todos eles são maléficos. Uma regra simplificada para saber qual planeta é mais forte consiste em escolher o planeta que receber mais aspectos de benéficos ou que estiver em aspecto ou associação com o Atmakaraka, pois este é significador da alma e indica eventos pelos quais obrigatoriamente teremos de passar para evoluirmos espiritualmente.

Satyacharya é uma literatura adequada para os iniciantes, antes de irem para as grandes referências da jyotisha mais complexas: Parasara e Jaimini.

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