9 de nov de 2010

escolha o tema, depois interprete o planeta

Sendo um sistema de interpretação muito complexo, é surpreendente que dentro da Jyotisha você encontre simplicidade onde menos se esperaria, se compararmos com a técnica de interpretação Ocidental.

Aqui no ocidente, existem coisas misteriosas com as quais o astrólogo se depara todos os dias. Talvez um dos maiores mistérios corriqueiros da Astrologia Ocidental contemporânea seja a interpretação de um planeta. Os astrólogos pós-modernos encaram esse momento muito respeitosamente, uma vez que crêem na capacidade do indivíduo reinventar a expressão dos símbolos de sua carta natal. À parte de ser uma visão interessante, possível e provável, ela precisa de um preparo maior do que o estudo da Astrologia per se. Para os Astrólogos do front, que encaram vários mapas por dia incluindo cartas mundanas, essa consideração serve apenas para nos deixarmos inseguros diante do silêncio. A maioria dos praticantes, portanto, ignora tal consideração, usando em seus julgamentos aquilo que eles encontram com maior frequência.

A técnica de interpretação da Astrologia Ocidental - seja ela moderna ou clássica - é relativamente simples. Em verdade, o problema reside na subjetividade após aplicá-la. Não há problemas em escolher a casa que representa o assunto; em seguida, procede-se à misteriosa etapa da interpretação do planeta, que pode estar presente na casa ou a regendo. Em muitos casos, porém, a técnica de interpretação sequer se inicia pela escolha de uma casa, passando de imediato à interpretação do planeta. Isso pode ser mostrado nos boletins gerados automaticamente por alguns softwares de astrologia, que consiste unicamente em interpretar o mapa apenas pelos planetas. Apesar de ser gerado por um computador, algum ser humano que entendia de Astrologia o programou para ser assim, mostrando indiretamente o que algumas pessoas pensam como deve ser uma interpretação.

O grande problema de se interpretar um mapa pelos planetas é que um único planeta está conectado a uma série de assuntos, sendo que estes não necessariamente se relacionam entre si só porque um mesmo planeta se conecta com todos eles. Por exemplo: O fato de marte reger a casa 8 e estar conectado à casa dos irmãos não significará necessariamente que um dos irmãos morrerá. Assim sendo, interpretar um mapa a começar pelos planetas é como começar a se ler uma frase sem o sujeito e passar logo ao predicado, pois o planeta descreve e age sobre os assuntos indicados pelas Casas.

Dentro de qualquer tipo de astrologia - seja ela moderna ou clássica, indiana ou ocidental - o planeta seria o equivalente gramatical dos verbos, advérbios e adjetivos. Eles descrevem como e quando um assunto acontecerá, sendo preciso obviamente identificar o sujeito da oração que receberá os complementos da sintaxe - verbo, adjunto adnominal, adjunto adverbial, etc. Todos esses complementos são representados pelo planeta e pelos signos. Em verdade, o mais crucial de uma interpretação não seria o planeta, mas sim a escolha correta do nosso equivalente do "sujeito", a saber, as Casas.

As casas são moldadas, qualificadas, transformadas pelos planetas. Sem que se refira a uma casa, o planeta não passa de um qualificador sem um qualificado, como um adjetivo encontrado ao acaso num dicionário.

Enquanto na Astrologia Moderna o problema maior seja interpretar o planeta, na Astrologia Indiana a questão crucial reside na primeira etapa (ignorada por muitos astrólogos ocidentais): escolher a casa correta para o assunto que se deseja saber. Ao contrário da Astrologia Ocidental, esta etapa possui uma série de particularidades para cada assunto que se deseja saber. Para alguns assuntos, alguns planetas benéficos se tornam maléficos, e nem sempre há uma razão clara para entendermos essas exceções.

Após essa etapa, o que vem em seguida se torna mais fácil: os planetas configurados com a casa em questão fornecem seus significados mais óbvios possíveis para o tema, qualificando a experiência ou as pessoas representadas pela casa. As dúvidas a seguir, apesar de serem facilmente resolvidas por quem tem aguma experiência com Jyotisha são ainda difíceis para nós, então são importantes demonstrá-las.

A primeira dúvida que se tem é: o planeta configurado com um assunto será sempre bom/ruim para ele ou não? Como na astrologia ocidental, maléficos são quase sempre ruins e benéficos bons. Essa regra, porém, tem exceções surpreendentes. Por exemplo, se vênus aspectar as casas que significam irmãos, há uma chance grande da pessoa não tê-los. Esse exemplo é provocante porque contraria o senso comum de que os maléficos são maus e benéficos são bons. O benefício que vênus daria, nesse caso, é a exclusividade sobre a herança paterna, porém vênus sempre estará ligada a apenas uma das casas de irmãos, restando ainda a chance da pessoa ter irmãos mais novos (casa 3) ou mais velhos (casa 11). Mesmo havendo o benefício de um número menor de irmãos, já vi casos extremos de vênus na 11 (irmãos mais velhos), nos quais os irmãos nasceram e depois morreram precocemente. Diante do sofrimento dos genitores, há de se concluir que não houve benefício algum. Como explicar isso?

Não se iluda pensando que essa e outras dúvidas sejam mistérios insondáveis. Para mim e para muitos ocidentais, elas ainda são, mas os astrólogos indianos têm a seu favor mais recursos do que os estudantes da Astrologia Ocidental, seja ela moderna ou não. Em primeiro lugar, apesar de haver várias vertentes da Astrologia Indiana com pequenas variações dentro de cada, todas seguem Parasara e possuem um núcleo de conceitos invariável. Em segundo, a transmissão da Jyotisha teve continuidade ao longo dos séculos na Índia, então há séculos de experiência a frente da Astrologia do Ocidente. Finalizando, há muitos conceitos astrológicos que dependem da religião hindu e cujas razões se tornam claríssimas mediante o estudo desta. O que nós temos a favor é a generosidade desses astrólogos, que não adotam uma postura hermética ao divulgar o conhecimento da Astrologia.

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