30/03/2009
Vamos continuar aqui a segunda parte do artigo, tentando manter ainda a mesma objetividade e didática do anterior.

Como calcular sua Firdaria?

Se você não tem o Solar Fire (5 em diante) nem o Janus (3 em diante), a Firdaria é calculada inteiramente de graça nesse site:

http://firdaria.com/calculator.php

Basta colocar sua data de nascimento e dizer se você nasceu de dia ou de noite. Atenção redobrada se você nasceu quando o Sol nascia ou estava se pondo: nesse caso, veja se o grau do Sol está abaixo ou acima do eixo Ascendente-Descendente. Se estiver acima, você nasceu de dia; abaixo, de noite.

Mas atenção! Você se lembra de que existem dois tipos de Firdaria? Pois é, o site acima calcula somente a Firdaria ensinada por Bonatti, que coloca os períodos dos nodos sempre depois do período de Marte. Nada de Abu Ma'shar... E qual seria a diferença prática entre os dois tipos de Firdarias? A única diferença ocorre em mapas noturnos:
  • Na Firdaria noturna de Bonatti, os períodos dos nodos em mapas diurnos aparecem aos 39 anos.
  • Na Firdaria de Abu Ma'shar, os períodos dos nodos são sempre a partir dos 70 anos, seja o mapa diurno ou noturno.
Essa diferença gera uma discrepância que só mesmo a prática pode corrigir, mostrando-nos o que é certo. As concordâncias, porém, são muitas: se o mapa for diurno, tanto Abu Ma'shar quanto Bonatti são idênticos. Se o mapa for noturno, ambos concordarão até os 39 anos da pessoa. Assim, a única preocupação será com a pessoa que nasceu de noite e tem mais de 39 anos de vida.

Eu prefiro a Firdaria ensinada por Abu Ma'shar. Não é que eu seja chato por usar uma coisa que é difícil de se conseguir, mas eu considero que Bonatti entendeu as coisas de um modo errôneo. Entre acreditar num sucessor ou num predecessor, prefira o último.

Robert Zoller, porém, discorda de mim e crê que Bonatti está certo. Quem sou eu perante Zoller... São 30 anos de Astrologia contra apenas 6.

Passadas as observações metodológicas, vamos aprender a interpretar a Firdaria.


Como interpretar esse sistema?

Se você acha que eu aprendi a Firdaria no meu curso de Astrologia Medieval, está enganado. Eles dizem como funciona, mostram exemplos delineados em frases enigmáticas, mas não abrem muito o jogo, deixando o estudante meio desnorteado. Cabe a você perceber como a coisa é sistematizada, e aí é que são elas. Estudar a Firdaria é como observar animais selvagens na mata. Pouco a pouco, você consegue perceber alguma ordem no caos, e as coisas ficam mais domináveis. Evidentemente, nem todo o comportamento animal é previsível, e com a Firdaria é a mesma coisa.

A primeira coisa errada é pensar que a Firdaria Marte-Mercúrio terá os mesmos eventos da Firdaria Mercúrio - Marte. Aqui, a ordem dos fatores alterará o produto! Isto porque, em cada exemplo, os planetas assumem papéis diferentes.

Eu costumo chamar o planeta principal de "regente" e o outro de "participante". Isso é uma coisa minha, que tem uma função didática clara. Se eu chamasse os planetas de "Regente" e de "Sub-Regente", daria a impressão de que eles fazem a mesma coisa.

Quando eu digo "Marte-Mercúrio", quer dizer que Marte é o regente, enquanto Mercúrio é o participante. Em outras palavras: dentro do grande período de Marte, Mercúrio assume temporariamente a distribuição. Há uma "regra de nomenclatura" implícita no discurso da maioria dos Astrólogos Medievais de que o planeta que vem primeiro na frase é o Regente, enquanto o segundo é o participante. Parece boçal, mas vamos treinar um pouco:

Marte-Mercúrio
Regente: Marte
Participante: Mercúrio

Mercúrio - Marte
Regente: Mercúrio
Participante: Marte

Agora que vocês já sabem quem é quem, aí vai uma regra geral para Firdarias:

O Regente representa a matéria, que toma a forma pelo Participante.
Abstrato demais? Veja um exemplo do meu mapa, recente até.

A partir de 2007, eu passei a viver a Firdaria Mercúrio-Marte. No meu mapa natal, Mercúrio está em queda e em detrimento, na Casa 12 (internações) e rege as Casas 3 (vizinhos, amigos, estudos, viagem) e 6 (doença).

Marte no meu mapa está em detrimento e retrógrado na Casa 6 (doença), no sétimo signo, e rege as Casas 1 (meu corpo e minha mente) e 8 (angústia, inativação, morte).

Mercúrio é a matéria: conteúdos mercuriais serão materializados de uma forma provocada por Marte. Como Marte no meu mapa é significador claro de acidentes, ele faz com que Mercúrio tome uma forma conivente com a ação marcial - claramente agressiva. Assim sendo, Mercúrio virou internações e doença, porque ele ocupa a Casa 12 e rege a Casa 6.

A interpretação acima ocorreu quase ao pé da letra: no ano de 2007, eu me acidentei e, em decorrência disso, tive duas longas internações, decorrentes da infecção da fratura.

Entretanto, a Firdaria de Mercúrio não foi só desgraça. Ela pode, a depender do planeta participante, adquirir uma outra forma, mais branda e mais positiva. Se o participante for um benéfico em bom estado, ele vai causar uma expressão mais positiva no regente. Se o participante for um maléfico em mal estado, a coisa degringola como no meu caso, que foi extremo porque Mercúrio no meu mapa está bem fraco e de péssima qualidade, assim como Marte - e é claro que a força tanto do regente principal quanto do participante é importante!

Vamos dar um outro exemplo, para facilitar. Quando a Firdaria Mercúrio-Saturno ficou ativada, eu iniciei meu interesse por Astrologia e me envolvi com algumas mulheres de um modo mais intenso do que o "meu" normal. Isso porque Mercúrio está determinado a estudos (regente da casa 3) e ele adquire a forma de Saturno, sendo Saturno um importante significador de estudos no meu mapa (já que o regente da Casa 9 - Júpiter - não aspecta a Casa 9, enquanto Saturno o faz). Mercúrio-Saturno é uma combinação comum em mapas de Astrólogos tradicionais; embora eu não tenha esse aspecto no meu mapa natal, foi nessa Firdaria que me interessei por Astrologia.

E quanto às mulheres em Mercúrio-Saturno? Isso é mais fácil de explicar. Saturno no meu mapa está na Casa 7 (parceiras). A forma de expressão Saturnina no meu mapa fez com que a matéria mercurial se expressasse como intrigas, segredos e experimentação (mercúrio na Casa 12) ligados a relacionamentos (Casa 7). Quando ligado a sexo, Mercúrio quer experimentar (embora isso não seja um pressuposto para afirmar homossexualidade - um hetero tímido pode descobrir o sexo e isso ser uma experimentação pra ele, que sequer tinha coragem de mostrar seu desejo).

Existem outras dicas que eu dou sobre a Firdaria porque ela também consegue prever eventos bastante concretos, como o nascimento de filhos ou a morte de parentes. No primeito texto em pdf da série Achados na Prática eu mostrei um caso no qual eu consegui prever o nascimento de uma criança apenas com a interpretação natal e a Firdaria. Naquele texto, você notará que é importante saber a interpretação natal. Sabendo o que cada planeta representa com exatidão em seu mapa, fica mais fácil prever com a Firdaria. Portanto:

Sua desenvoltura com a Firdaria será tanto maior quanto for a sua habilidade na interpretação da Astrologia medieval Natal.

Se você ignora Astrologia Natal medieval, vai achar a Firdaria uma porcaria. Cada vez mais que eu estudo, consigo tornar a Firdaria mais e mais previsível. Existem casos excepcionais que eu falarei numa segunda oportunidade. Estou pensando em escrever outro artigo para complementar esse, mas a idéia central está aqui.

Interpretando a Firdaria corretamente, com apenas uma folha de papel você dirá ao seu cliente a biografia dele. Esse é o poder da Astrologia Medieval: numa época na qual os cálculos matemáticos eram mais simples e maçantes, construía-se sistemas poderosos, não dependentes de matemática avançada, capazes de prever a vida inteira da pessoa usando apenas a figura natal. Nada daqueles relatórios enormes de trânsitos, progressões secundárias e Revoluções Solares.
25/03/2009
Os aspectos são um item da Astrologia que pode ser consideravelmente fácil ou consideravelmente difícil. Eu sugiro que você comece pelo mais simples e depois complique. Tomemos um aspecto como exemplo:

Vênus em trígono com Saturno.

Em primeiro lugar, um aspecto nem sempre é recíproco. No aspecto acima, Saturno pode aspectar vênus, mas o contrário pode não acontecer. Dependerá da distância que há entre um planeta e outro. Se a distância que Vênus tiver de Saturno for superior a orbe de Vênus, então dizemos que Vênus não está unida (do inglês "joined to") a Saturno. Simultaneamente, se a distância entre ambos for inferior à orbe de Saturno, dizemos que Saturno está unido a Vênus.

Como pode um planeta se unir a outro, enquanto o outro não se une a ele?! Na Astrologia Medieval, cada planeta tem a sua orbe, e é ela quem determina a influência de um planeta sobre o outro. Depois de um certo tempo, passou-se a considerar as orbe dos dois planetas em aspecto, mas isso não era a teoria inicial.

O que é uma orbe? A grosso modo, uma orbe é um "halo de luz" que circunda o grau exato do planeta. Abaixo eu indico as orbes mais comuns de todos os planetas:

  • Sol: 15 graus atrás, 15 graus a frente.
  • Lua: 12 graus atrás, 12 graus a frente.
  • Saturno e Júpiter: 9 graus atrás, 9 graus a frente.
  • Marte: 8 graus atrás, 8 graus a frente.
  • Vênus e Mercúrio: 7 graus atrás, 7 graus a frente.

Diante desses valores, voltemos ao aspecto de trígono Vênus-Saturno. Um trígono exato tem 120 graus; isso aconteceria se Vênus e Saturno estivessem no mesmo grau e minuto absolutos, como por exemplo, Saturno em 9 de libra e Vênus em 9 de Aquário, porém as orbes de ambos possibilitam uma tolerância maior a distâncias maiores os graus exatos de um aspecto. Num trígono, Saturno ainda aspecta quem estiver num intervalo de distância dele entre 111 e 129 graus (120 + ou - 9); Vênus, por outro lado, tolera menos: 113 a 127 graus (120 + ou - 7) .

Usando as margens de tolerância acima, vejamos se Vênus estivesse a 17 de Aquário e Saturno estivesse ainda em 9 de Libra. Nesse mesmo exemplo, Vênus é influenciada por Saturno de maneira irrecíproca, o que faz com que voltemos à provação do início do artigo:
  1. A distância entre Vênus e Saturno é de 128 graus. Nessa distância, Vênus ainda está na orbe de luz dianteira de Saturno, que mede 9 graus (128 é contido em 129).
  2. Por outro lado, Saturno não está mais na orbe de luz traseira de Vênus, que mede apenas 7 graus, ultrapassando-a em 1 grau (128 é maior que 127).
  3. Diante do exposto, podemos concluir que, no exemplo acima, Saturno é unido a Vênus, porém Vênus não está unida a Saturno.
Talvez você esteja se perguntando a relevância prática disso. É simples. Se o exemplo acima estivesse num mapa à sua frente, toda vez que você analisasse uma casa regida por Vênus, a influência de Saturno não seria notada, já que no caso acima Vênus não está unida a Saturno. Por outro lado, nas Casas regidas por Saturno, notaríamos uma influência Venusiana pois a orbe Saturnina faz com que este se una a Vênus.

O parágrafo acima dá a dica sobre o melhor modo inicial de ver os aspectos: ignore detalhes de aplicação e separação e se concentre nas orbes. Deixe isso para um segundo momento (logo logo, isso lhe será quase instantâneo). Por intermédio das orbes, veja qual planeta está unido a qual. Depois de fazer isso, quando você analisar uma casa, saberá qual planeta influencia o regente dela. Use a princípio os significados essenciais do planeta, e misture-os à casa que ele influencia.

Por exemplo, se estou analisando as casas de Saturno, Vênus influenciará os assuntos Saturninos com questões ligadas a mulheres, sexo, ornamentos, beleza, estética, cuidados maternos. É claro que isso não mudará completamente a Saturno, porque ele é um maléfico que, a depender do mapa que você analisar, representará coisas diametralmente opostas a Vênus. Na verdade, a melhor coisa é analisar o que é gerado pela "mistura Vênus-Saturno", que produz coisas que no final não são inteiramente Venusianas, tampouco inteiramente Saturninas. Todas essas coisas serão ligadas à casa regida por Saturno, e portanto devem ser adaptadas ao que a Casa representa.

Ainda no exemplo acima, se quiséssemos analisar as Casas regidas por Vênus, não levaríamos em conta o que Saturno representa, uma vez que Vênus não está a unida a Saturno. É assim que os autores antes da Renascença viam as orbes, e parece um pouco chocante para o raciocínio contemporâneo.

Esse artigo se concentrou no mais difícil, mas é claro que muitos aspectos são recíprocos. É o que aconteceria no exemplo acima, se Saturno estivesse na orbe de vênus e vice-versa.
19/03/2009
A Firdaria consiste numa divisão de 75 anos de vida a cada um dos sete Planetas e os nodos lunares. Uma vez completada essa divisão, repete-se o esquema desde o início até a morte da pessoa.

A diferença entre a Firdaria e os outros tipos de divisões dos tempos é que a nela há uma ordem fixa para dois tipos de mapa:

  • Para mapas diurnos (Sol acima do Horizonte), inicia-se a disposição dos anos com o Sol.
  • Para mapas noturnos (Sol abaixo do Horizonte), inicia-se a disposição dos anos com a Lua.

Depois de cada um dos luminares dispor da infância, a disposição planetária se segue nessa ordem:

  • Mapas Diurnos: Sol > Vênus > Mercúrio > Lua > Saturno > Júpiter > Marte > Nodo Norte > Nodo Sul.
  • Mapas Noturnos: Lua > Saturno > Júpiter > Marte > Sol > Vênus > Mercúrio > Nodo Norte > Nodo Sul.

Perceba uma coisa: a ordem dos planetas é fácil de ser entendida: eles aparecem numa ordem decrescente de velocidade e de distância da Terra - o que é tradicionalmente chamado de "ordem Caldaica". Quando a divisão chega no astro mais rápido - a Lua - ela imediatamente segue com o astro visível mais distante da Terra, Saturno.

Há uma outra distribuição além desta, mas eu optei pela Firdaria acima ensinada por Abu Ma'shar. De qualquer forma, aí vai as duas:

  • A Firdaria ensinada por Bonatti tem sempre os períodos do nodos lunares fixados depois de Marte.
  • A Firdaria ensinada por Abu Ma'shar coloca os nodos sempre no final de cada distribuição dos outros planetas. em outras palavras: os nodos só assumem sempre depois que todos os planetas visíveis já foram ativados.
Mais uma coisa: cada grande período de um planeta é dividido em subperíodos, que seriam melhor chamados de participantes. O primeiro participante sempre é o regente principal da Firdaria, e os outros planetas se seguem na ordem caldaica. Por exemplo: o período de Marte inicia-se com o Mesmo Marte sendo ao mesmo tempo Principal e Participante. Quando esse subperíodo se acaba, quem assumirá a Firdaria de Marte é o Sol, imediatamente inferior a ele na tal ordem Caldaica, e assim sucessivamente até Marte acabar com a distribuição. Pra você entender, ficaria mais ou menos assim:
  1. Marte-Marte
  2. Marte-Sol
  3. Marte-Vênus
  4. Marte-Mercúrio
  5. Marte-Lua
  6. Marte-Saturno
  7. Marte-Júpiter
Já deu pra ver que os nodos lunares não entram como participantes... Eles só entram como Regentes Principais.

Com base no que foi exposto, só nos resta entender como a Firdaria funciona, a parte mais difícil do texto.

Como isso tudo funciona? É o que veremos no próximo post.
A série "Achados da Prática" consiste em relatos de Casos nos quais vemos o funcionamento da Astrologia Medieval.

Aqui, eu disponibilizo o primeiro estudo em PDF do caso de uma nativa no qual acertei a data da concepção do seu filho. Trata-se de um rico estudo com esclarecedoras notas de Rodapé nas quais eu sistematizo o procedimento para se prognosticar filhos com base no mapa natal.

O Download pode ser obtido no título ou na frase abaixo:


14/03/2009
Para mim, os aspectos astrológicos sempre foram como um flerte com uma mulher. Seus sinais me eram difíceis de serem decifrados. Hoje nem tanto, mas ainda persistem dificuldades nesse jogo de sedução. Digamos que eu esteja numa certa altura da noite na qual já sei que foi uma cantada e consegui beijar a moça, mas ainda não sei até onde devo ir no primeiro encontro: essa é a minha principal pergunta hoje, mas creio que pouco-a-pouco essa dúvida não persistirá.

Saltando do erotismo para a dúvida de um nerd Astrológico: é relevante considerar numa leitura aspectos com orbe (muito) larga?

Há uma resposta fácil para essa pergunta: sim. O grande problema é saber como. Muitas respostas não acabam com os problemas que as originaram...

Em primeiro lugar, deixe-me ser bem claro: falo de aspectos daqueles encontrados em natividades. Se você pensa que os aspectos são tratados mesma forma tanto em horária quanto em natal, pode estar perdendo uma boa oportunidade de explorar as curvas dessa mulher que é o mapa natal.
Nessa altura do campeonato, percebo que o post está bem chauvinista. Desculpas às leitoras (e leitores gays) fiéis. Tentem inverter o gênero ao lerem, por favor.
Pode ser absurdo para muita gente mas alguns autores interpretam os mapas natais de um modo diferente das horárias, especialmente no que tange ao tema dos aspectos. Em comunicação recente com Steven Birchfield, (após oferendas e preces a Lorde Ganesha para que Steven tire um tempinho livre para tirar uma dúvida) ele deu uma olhadinha no meu mapa e interpretou aspectos de um modo curioso.

Talvez o leitor esteja se indagando porque cito tanto o nome de Steven nesse blog. Na verdade, ele é um dos Astrólogos mais generosos e mais práticos que existem na cena da Astrologia Tradicional atual. Ele aplica teorias de livros de mil anos atrás nos mapas de pessoas que vivem hoje em dia e quase tudo funciona tão claro como cristal. Não seria insensato eu me refendar a ele nos meus momentos de dúvida...

Mais uma vez, minha natividade.


Minha dúvida se originara de uma confusão. Eu queria interpretar meu mapa como se fosse uma horária: só a aplicação mais imediata de um planeta para o outro era válida. Por esse viés, vejamos como seria.

Comecemos pela minha Lua em Touro, que nunca me decepcionou. A aplicação mais imediata da minha Lua seria com Júpiter em Escorpião. Como Júpiter está retrógrado, ele retorna a luz da Lua a ela mesma e, como o retorno ocorre nos ângulos, ele é com benefício.

Depois de Júpiter retornar sua luz, a Lua continua sua trajetória à procura da próxima aplicação. Antes de conversar com Steven, eu já fazia isso porque considerava que o retorno de luz nos ângulos como algo que possibilitasse um novo encontro. de planetas . Depois de Júpiter, a lua lançará seus raios a Vênus, que a receberá em seu signo, Touro.

Após a recepção de Vênus à Lua, eu achei que a questão acabava por aqui. De acordo com Steven, não. Como sou nada imprevisível, talvez você esteja pensando que eu concordei com ele. Na verdade, eu não sabia no que acreditar, até que, um dia desses, meditabundo como eu, tive um insightzinho mixuruca que talvez tenha valido a pena.

Quando nós estudamos uma horária, há uma finalidade clara no mapa em questão. Se eu quero saber se vou me casar, o mapa deve responder claramente. Essa resposta clara implica interromper em algum momento a análise da figura horária! Caso contrário, observe como seria a consulta:

Astrólogo: Bom, você é a Lua. Ela se aplica ao regente da casa 5 em mal estado: não há casamento...
Cliente: (snif).
Astrólogo:... Mas depois da Lua se aplicar ao regente da Casa 5, ela se separa dele e se aplica ao regente da Casa 7! Você vai se casar!
Cliente: Nossa! Que bom!
Astrólogo: Mas, espere! Após se separar do regente da Casa 7, a Lua muda de signo e se aplica ao regente da Casa 12, então você não se casará!
Cliente: (visivelmente aborrecido).

Por questões de espaço, a conversa foi editada e acaba por aqui.

No julgamento de uma horária, os Astrólogos Clássicos procuravam por métodos de finalizar uma questão. Caso contrário, eles nunca saberiam qual seria a resposta certa para a pergunta do cliente - coisa que poderia render pena de morte em alguns reinos...

Eis que encontro Steven interpretando aspectos mapas natais de um modo diferente. Demorei a perceber o porquê, mas agora ficou mais claro. Depois da Lua ter sido recebida por Vênus, ela vai se aplicar a Mercúrio.

Interpretar tudo isso pode ser até fácil. No meu caso, a Lua tem a ver - dentre outras coisas - com finanças. Suas sucessivas aplicações a Júpiter, Vênus e Mercúrio refletem momentos diferentes nos quais meu dinheiro pode ter aumento ou diminuição. Tudo depende dos planetas envolvidos. No último caso, Mercúrio em Peixes em queda e em detrimento na Casa 12 é ruim para meu dinheiro. Posso ter muitos gastos com internações (casa 12), mas também com irmãos, vizinhos e a aplicação da Lei (casa 3, regida por mercúrio), doenças e pessoas pobres (casa 6).

Apesar dessa técnica levemente diferente, Steven e muitos outros astrólogos ainda usam a aplicação mais evidente - aquela que vai acontecer logo no céu - entre dois planetas como sendo a mais importante da vida de uma pessoa. Essa técnica exposta mostra apenas todas as aplicações possíveis que um planeta pode fazer ao longo da vida de alguém.

Uma horária tem uma finalidade clara. Um mapa natal, não. Aliás, saber qual é a finalidade do mapa natal é tarefa do Astrólogo, e pode demorar a vida inteira para que o dono do mapa descubra...
09/03/2009
Tenho o prazer de informar aos amigos leitores que estou em casa novamente. Não tive osteomielite. Sinto dores em toda a minha cintura escapular devido às muletas, pois perdi o costume de usá-las. Devido a isso, caminhar pequenas distâncias é difícil porque minhas costas doem. Nada que um relaxante muscular não dê jeito. Longe disso ser uma reclamação, apenas expressa meu alívio em perceber que a área da cirurgia está livre de qualquer complicação terrível. Assim que puder, postarei uma foto para que vocês entendam que diabos foi a minha cirurgia.

Vivo um período da minha vida que serve para aprender o quão difícil pode ser um período planetário de dois planetas maléficos em detrimento e cadentes dos ângulos. Vivo a Firdaria Mercúrio-Marte e senti no rasgar da minha carne o quanto a Astrologia Medieval é competente para descrever as circunstâncias de vida e do meu corpo físico. Essa Firdaria terminará aproximadamente em junho. Do jeito que as coisas funcionaram, talvez acabará com ela o meu martírio de internações, antibióticos e junto disso tudo toda minha lassidão - provocada, segundo a medicina chinesa, por quatro cirurgias em um ano aproximadamente.

O que gostaria de falar é uma dica rápida - que poderia ser dada pelo podcast - mas tenho vontade de escrevê-la.


O mapa todo está certo.

Quando comecei a estudar Astrologia Clássica, percebi inúmeras indicações contraditórias da mesma coisa. Num mesmo mapa, percebi que Vênus dava apenas um Casamento, enquanto a Lua ou o regente da Casa VII possibilitavam três. Diante desse quadro, vinha a mim a pergunta: qual sinal é o mais correto? Da Lua, de Vênus, do Regente da VII ou do regente da Parte do Casamento?!

Eu demorei a perceber que todos os sinais eram corretos! Uma pessoa com todas as configurações acima não se restringirá a apenas um Casamento!

Interpretar o mapa assim fica mais divertido porque nós gastamos considerável energia mental em perceber o que é o correto. O grande problema nisso é que o mapa todo é correto, e não apenas um pedacinho dele. Não devemos crer que o mapa é contraditório porque tudo que estiver escrito nele há de acontecer, ainda que por pouco tempo. Pensando desse modo, a neurose obsessiva de "filtrar a informação correta" vai embora. A interpretação vira um passeio no parque.

Vejamos um exemplo. Uma pessoa pode ter Vênus em signo fixo, mas cadente e aflita por maléficos; por outro lado, ela pode ter o regente da Casa VII em bom estado e numa Casa angular. Longe de termos de escolher entre um e outro, Vênus dirá acerca de um relacionamento (pois está em signo fixo) que pode durar pouco tempo (signo cadente) e que não foi oficial (maléficos em aspecto com Vênus em Casa cadente). Por outro lado, o regente da Casa VII em excelente estado sugere que, em algum momento da vida desse nativo, houve um casamento bom e lucrativo. Um casamento nos moldes ditos "oficiais" da sociedade e com o qual ele lucrou e foi feliz, posto que o regente da Casa VII está numa Casa angular e domiciliado/exaltado.

Na verdade, essa combinação aparentemente "contraditória" pode se manifestar de um modo diferente na vida do cliente mas, só de você percebê-la valerá a pena. Com o tempo, os clientes lhe revelarão como posicionamentos como esses podem acontecer, mas em tempo algum você fará "previsões depois do fato" se levar em conta que todos os fatores acontecem sem se anularem. Essa pessoa pode ter um bom casamento mas em alguma época da sua vida ter cometido adultério, ou simplesmente ter passado por um período com um relacionamento polêmico que não durou muito.

Perceba nessa abordagem que todos os planetas representam alguma coisa em algum tempo da vida. Para saber quando eles acontecerão, usamos de alguns parâmetros. Um planeta oriental ao Sol geralmente representa coisas mais cedo na vida. Um planeta ocidental ao sol, coisas mais tardias. Com esse simples método podemos posicionar grosseiramente quando os planetas acontecem na vida da pessoa. A "sintonia fina" do método é dada pelas técnicas preditivas.

Falamos de Casamento, mas a mesma coisa pode ocorrer em se tratando de crianças. Ptolomeu e Paulus Alexandrinus propõem que benéficos nas Casas IV, V, X e XI representam crianças para o nativo se estiverem em signos férteis, mas isso não acontece em vários mapas de pessoas com filhos. Nesse caso, o que ocorre? Simplesmente existem outras técnicas além dessa... A seguir, apresento algumas alternativas:
  • A Parte dos Filhos pode fazer aspecto com algum planeta benéfico, ainda que este não esteja numa das Casas citadas (IV, V, X, XI). Já vi benéficos na 12 representarem filhos para uma pessoa porque todos eles faziam uma quadratura com a Parte dos Filhos. Como eles estavam numa das piores Casas do mapa, o nativo viu a morte de alguns filhos. Sinais aparentemente contrários revelam uma história muito mais complexa do que simplesmente dizer que um anula o outro!
  • O regente da Casa V (que representa crianças) pode simplesmente fazer aspecto com um benéfico. Quanto mais fértil o benéfico for (e isso depende do signo no qual ele se posicionar), mais filhos ele representará. Benéficos em signos de água geralmente dão filhos pra caramba, principalmente se for Júpiter. Aliás, Júpiter é exceção a regra: na maioria dos signos, ele dá filhos pra caramba. Certo professor meu tem Júpiter em trígono com a Parte dos Filhos e tem cinco filhos, um número crítico pra nossa sociedade de natalidade controlada.
Essas foram algumas dicas que podem ser usadas para qualquer área da vida. Quando você pegar um bom livro de Astrologia Medieval, há de entender o porquê desse post. Os autores costumam usar de várias técnicas e significadores para o mesmo assunto. Apenas faça como eles e não se restrinja.

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