27/01/2009
O tema mais revelador da obra de Valens é o das mortes violentas. Neste tópico, Valens versa sobre as inúmeras configurações que representam uma morte violenta. Não sendo suficiente, Valens da´detalhes sórdidos como esses:

"Como uma ilustração, seja o Sol, Marte, Vênus em Câncer; Saturno e Mercúrio em Leão; Júpiter em Aquário; a Lua em Peixes; o Ascendente em Escorpião, o Lote da Fortuna em Leão, o local mortífero [oitavo signo a partir do Lote da Fortuna] em Peixes. Naquele local [isto é, o local mortífero] está a Lua, e Saturno está sobre o Lote. O Sol, Regente do Lote, está com Marte em Câncer, num signo úmido. Ele morreu, então, numa banheira, afogado. Marte estava em oposição à Lua Cheia; e Saturno, o Regente [da Lua Cheia], estava em aversão [ou seja, não aspectava o signo da Lua Cheia]."

Chocante e nas raias do patético, não? Eu não tenho problemas éticos em estudar um assunto como esse. Na verdade, qualquer oportunidade de ler um registro de interpretação de um mapa do período helênico já me deixa feliz. Como o capítulo sobre a morte está repleto de exemplos de interpretação, estamos diante de uma excelente oportunidade de entender como um Astrólogo helenístico analisava uma natividade. Tendo pudores, quem perde sou eu.

Eu não tenho nenhuma "tara" em ficar fuxicando a morte das pessoas. Depois de ler o trecho de Valens, é claro que me deu curiosidade. Pelo menos deu para descobrir que não será o meu caso, mas se releio esse capítulo é porque os frutos dessa leitura ultrapassam a mera previsão de morte e podem ser aplicados em outros tipos de análise natal. Por isso que estudo a morte com a maior paz desse mundo. Eu quero entender a técnica por trás disso tudo e aplicar o que pode ser aplicado em qualquer outro tema da natividade. Ao longo desse capítulo pouca ênfase será dada à morte e muito mais à técnica que está por trás da sua previsão.

Algumas pessoas podem dizer que as regras usadas para entender as mortes violentas não se adequam às outras regras de delineação das outras áreas da vida. Pode parecer opinião de maluco mas, existe uma coerência no texto de Valens que está presente em todos os tipos de análises: casamento, filhos, etc. É essa coerência que vamos dissecar um pouco agora. O tema da morte é interessante porque é um dos primeiros registros nos quais há vários pontos a serem analisados simultaneamente. Abaixo, eu listo os principais:
  1. Parte da Fortuna
  2. Regente da Parte da Fortuna
  3. Oitavo Signo da Parte da Fortuna (que Valens chama de "local mortifero")
  4. Lunação Anterior ao nascimento (cheia ou nova)
  5. Regente da Lunação Anterior ao Nascimento
Se você estuda Astrologia Medieval ou já leu esse blog antes, já reparou que esse padrão é familiar nos livros de Astrologia Árabo-Medieval. Quando Bonatti ou Abu Ali Al Khayyatt queriam estudar um tema específico no mapa, eles recorriam a vários pontos que tivessem relação com o assunto. Se queriam analisar casamento, olhavam para Vênus, a Casa VII, a Parte do Casamento, etc. O tema das mortes violentas de Valens é importante porque ele é o primeiro da Astrologia Grega no qual há vários pontos a serem analisados e o Astrólogo ao final tem de sintetizar o assunto, havendo com isso exemplos. Na obra de Valens, há temas de complexidade similar, mas não com tantos exemplos assim. Eis a maior razão pela primazia no estudo da morte na sua obra!

Com tantos planetas e locais a serem analisados, surge pela primeira vez o dilema que prosseguirá em toda a era árabo-medieval da Astrologia: afinal de contas, qual planeta é mais importante para descrever o assunto em questão? Vamos tentar entender como Valens respondia a essa pergunta.

Na previsão de morte, há sempre a hipótese do Astrólogo validada por uma interpretação do mapa natal. Os exemplos de Valens mostram planetas que corroboram com uma hipótese e um planeta que descreve a hipótese. Mortes violentas eram dadas pelo aspecto tenso ou conjunção de maléficos a todos aqueles pontos acima. Se todos os pontos acima estivessem aflitos, a morte violenta seria certeira, mas um deles teria a maior autoridade em descrever o modo como o nativo morreu. Estamos procurando por esse porque Valens não dá uma regra clara de achá-lo. Temos de ler mapa-a-mapa dos exemplos da Antologia para chegar a uma conclusão, por vezes nos indagando se Valens fez apenas um exercício de interpretar após o fato como muitos Astrólogos fazem hoje em dia... Se isso for verdade, mesmo assim vale a pena estudar pois Valens mostra um padrão de interpretação coerente.

Lendo todos os exemplos de Valens, o planeta que descreve a morte seria aquele que estivesse aspectando a maioria dos pontos acima, sendo preferido aquele que tivesse alguma autoridade sobre esses pontos. Em alguns trechos, Valens ignora o fato do significador da morte estar cadente ou até mesmo em combustão! Há razões para se entender isso, que serão explicitadas abaixo.

A principal razão para se ignorar a força de um planeta como determinante é muito simples. Imagine que você tem Júpiter forte na Casa X do seu mapa e todos os outros planetas são medíocres na carta. Se escolhêssemos sempre o planeta mais poderoso para um assunto, rapidamente Júpiter tomaria a frente de vários temas do mapa natal. Se você usar todas as dignidades menores e partes árabes que conhece, aposto que você conseguiria "enfiar" esse Júpiter em qualquer assunto da sua vida! Júpiter seria você, sua mulher, seus filhos, seu cachorro, sua Casa, seu carro e até onde você passaria as férias. Antes de você virar Júpitermaníaco, leia o recadinho de Valens:

Agora, como é possível para uma estrela, mesmo sendo a Regente, dar boa sorte à natividade em todos os aspectos, ou em oposição dar má sorte (em tudo)? É mais comum, em geral, o Regente do suporte original de nascimentos notáveis, mediocres ou desprezíveis ser encontrado de modos diferentes. Ou, de outra forma, ele supriria poder para os suportes restantes mas seria diferente dos regentes restantes. E nós encontramos alguns que são afortunados na sua vida e reputação e que são honrados com toda a pompa quando o Regente parece estar configurado congenialmente, mas desafortunado com suas crianças e mulheres, bem como se tornando licensiosos e vergonhosos e sujando suas vidas, sendo falados como indignos de tal suporte (de fama), e que mais tarde são reduzidos (na sua glória) ou têm uma morte violenta. O nativo, então, não se tornou afortunado, ou seja lá qualquer coisa consistente com o Regente, em todas as coisas, mas uma Regência diferente, por estar aflita, diminuiu a reputação pela introdução de muitas acusações.

Nós também compreendemos outros que foram de uma fortuna deprimida e sem reputação a um suporte inigualável e inesperado; e alguns que foram afortunados com suas crianças e mulheres, mas necessitados nos seus meios; e outros que são felizes na área de propriedade, mas sem reputação e até mesmo doentes; e outros que tem longevidade, mas mutilados e cheios de labores e alguns que têm muitas propriedades mas vivem pouco ou são consumidos, não estando aptos a partilhar do presente. [Nesses casos], o doador da vida, então, era um planeta, e o Regente da Existência e da Morte outros.
Valens disserta sobre a diversidade do destino para cada pessoa. Não existem pessoas completamente azaradas ou completamente sortudas. O menino que mora numa cobertura no Leblon pode ter problemas familiares e morrer cedo num acidente por ter dirigido bêbado a sua BMW; o morador do Vidigal pode trabalhar duro a vida inteira mas ter filhos saudáveis, estudiosos e famosos. O homem que foi discriminado a vida inteira por ser negro e louco pode um dia achar 500 reais na praia (isso aconteceu!). Valens dá uma palavra de ordem de que essas contradições entre diferentes áreas da vida têm de ser representadas pela Astrologia e portanto o tema não é simples, sendo necessário vários planetas em condições diferentes num mesmo mapa para descrever essas discrepâncias; caso contrário, vamos contar uma fábula ao consulente só porque ele tem Júpiter na 10!

Eis a razão para entender porque o seu Júpiter de Casa X não pode te garantir uma vida maravilhosa em todas as áreas. Ele será excelente para os assuntos do qual testemunhar; para os assuntos restantes, não. Valens não se diferencia dos Astrólogos Medievais nesse ponto. Ao contrário, ele têm o raciocínio embrionário que se desenvolverá nos séculos seguintes!

Os astrólogos árabes e medievais que sucederam Valens davam grande importância à força de um planeta no testemunho de um assunto, mas esse planeta deveria ter simultaneamente uma grande relação com o tema através de aspectos ou de regência. De nada adianta Júpiter estar angular na Casa 10 se eu o quero tendo alguma relação com meus irmãos. Se júpiter não reger a Casa III ou a Parte dos Irmãos, e não aspectá-las, o testemunho dele é pequeno para o tema e meus irmãos estão excluídos do "clube de vantagens" de Júpiter!


O mapa todo em função de uma coisa só: esquecendo um pouco a tal "determinação local".

Aqui, uma contradição à teoria bonitiha de Morin de Villefranche, que virou um vício de quem (acha) que está usando regras muito antigas e corretíssimas: ao contrário de Morin, se você começar a ler Valens, perceberá um outro ponto de vista: nem sempre um planeta que está na Casa descreverá os assuntos dela!

O que o tio Morin ensina? Marte na 8 representa morte violenta. Ponto. A mesma coisa de Marte regendo a oito e aspectado por Saturno - e mais ainda se o regente do Ascendente estiver presente na configuração.

Morin confia muito nas Casas, mas neste artigo falamos de um tipo de Astrologia que ele desprezou e simplificou. Morin quase não usava Lotes no seu trabalho (que ele chamava de "Partes Árabes" e considerava uma "loucura dos árabes"). O problema disso reside no fato desses Lotes serem tão importantes quanto as casas dos mesmos assuntos que eles representam. A própria Parte da Fortuna era um ponto análogo ao Ascendente do nascido! Em outras palavras, estudar o signo Ascendente e desprezar a Fortuna era fazer metade do serviço!

Segundo o approach de morin, o marte da figura descrita acima não está na Casa VIII, tampouco na Casa 8 a partir do Lote da Fortuna. Ele também não tege esses locais. Se fôssemos descrever a morte do rapaz, começaríamos pelos planetas regentes da VIII ou seus ocupantes. Por esse viés, seria mais difícil chegar a marte. Se escolhêssemos o planeta mais forte, com certeza ele não seria Marte, porque ele está numa Casa Cadente (a IX) e muito próximo do Sol. como então marte poderia estar determinado à morte? A questão toda é que marte rege alguns pontos importantes do tema de morte e aspecta outros Regentes importantes do mesmo tema. Em outras palavras, Marte "está em todas". Um planeta assim com certeza descreve melhor os temas do que outros porque ele testemunha a todos.

Se você estudar melhor o mapa acima, perceberá que estou simplificando um pouco. Na verdade, marte está em conjunção com Vênus em signo aquoso. Marte e Vênus juntos explicam bem a morte do nativo - uma morte violenta (marte) num local onde ele se limpava e se perfumava (Vênus)...
22/01/2009
Existem alguns assuntos cruciais dentro da Astrologia Tradicional, daqueles que ninguém tem um consenso muito claro. O papel do regente de um signo é um deles.

Eu vou repetir aqui o que falei em vários artigos. O que eu sempre entendi acerca da teoria que Masha'allah defende nos seus livros? Um esquema no qual o planeta que rege o signo tem que aspectá-lo para representar seus assuntos. Se Marte não aspecta Escorpião, então tudo aquilo que o Escorpião representa passa por necessidades (do inglês "needy"). A solução para essa falta de aspecto entre o regente e a Casa é usar um outro planeta que tenha autoridade sobre a cúspide da Casa (uma regência menor, seja de termo, triplicidade ou até mesmo face) e ao mesmo tempo que a aspecte. A teoria é muito bonitinha, mas observar isso fica difícil.

Eis que descubro o tratamento que Vettius Valens dá aos regentes. O terceiro livro da Antologia de Valens discorre sobre mil e uma maneiras de saber quantos anos a pessoa viverá. O primeiro método consiste em encontrar o Predominador, que pode ser um Luminar ou o Ascendente. O Predominador nada mais é do que o Hyleg da Astrologia árabe, mas Valens dá a ele um tratamento levemente diferente. Uma vez encontrado o Predominador, Valens dizia que devemos ver se o regente dos termos do Predominador o Aspecta e se ele está forte na figura. Caso positivo, esse regente dá ao nativo os anos que ele representa (mercúrio 76, Vênus 84, etc.). Na Astrologia Árabe, não é bem assim que funciona: o Hyleg-Predominador também deve ter aspecto de um regente, mas pode ser qualquer regente dos mais fortes - domicílio, exaltação, triplicidade, termo. Mesmo assim, a maioria dos autores davam preferência ao regente do termo, da mesma forma que Valens.

Voltando a Valens, ele nos dá as instruções para casos nos quais o planeta regente dos termos não aspecta o Prdominador. Quando isso acontece, o Predominador está a mercê do que encontrar no seu caminho, mesmo com um regente forte na figura. Nesse caso, qualquer planeta maléfico em aspecto com o Predominador por direções primárias pode matar a pessoa antes dos anos prometidos pelo planeta. Em outras palavras: na ausência de aspecto entre o luminar/Ascendente e o seu regente, os anos de vida prometidos pelo regente não valem de nada. Valens chamava o regente dos termos do Predominador de "Senhor do Mapa". Nessas situações, Valens dizia que o mapa não tinha um Senhor.

Onde quero chegar com essa discussão? Sobre o papel de um regente, independentemente do ponto analisado. Qualquer coisa dentro do mapa terá um regente porque qualquer coisa do céu se projeta sobre o zodíaco.

Quando um regente aspecta seu signo, as coisas que estão dentro do signo tem um vir-a-ser claro. Se Saturno rege a minha Casa X e ao mesmo tempo lança raios para essa Casa, Saturno tem um projeto definido sobre o que essa Casa terá ao longo da vida. Pouco-a-pouco, Saturno modelará a Casa X para se manifestar de acordo com o que ele representa no meu mapa. No meu mapa, Saturno na Casa VII pode indicar que a minha carreira estará ligada à minha parceira.

Se não houvesse aspecto entre Saturno e a Casa que ele rege, eu não teria um projeto de vida claro para a Casa X. Minha carreira, minha mãe - ou qualquer coisa representada pela Casa X - estariam a mercê de coisas boas ou ruins que encontrassem pelo caminho, tomando as formas dessas coisas. Nesse caso, o "projeto" que Saturno descreve no meu mapa para a minha carreira não valeria de nada. Se seguirmos o raciocínio de Valens, uma Casa, planeta ou Parte que não aspecta seus regentes é como uma pessoa sem um projeto de vida claro. Ela é abalada por tudo que acontecer a ela, tanto para o bem quanto para o mal. A realização final prometida pelo seu regente não está garantida, e o ponto analisado ganha os contornos daquilo que encontrar pelo caminho.

Esse papo está muito metafísico porém ele comporta todo o raciocínio que Valens usa para o predominador e seu regente. Talvez você ainda não tenha percebido, mas estamos falando de algo com implicações práticas na delineação. Essa teoria dos regentes não é somente para o Predominador. Ela abarca qualquer ponto que se projete no Zodíaco, seja ele um planeta, uma Casa ou uma Parte Árabe.

Como seria uma pessoa com o Ascendente sem o aspecto do seu regente? Seria alguém que, a cada mudança nas técnicas preditivas, mudasse radicalmente o seu foco de vida. Isso porque o regente do Ascendente não pode ditar a forma que sua vida tomará. Para ilustrar isso, nada melhor do que considerar dois casos de exemplo: um com o regente do Ascendente em aspecto ao Ascendente, e outro não.

No primeiro caso, o regente do Ascendente promete uma manifestação da pessoa. Quando o Ascendente, por técnicas preditivas, sofrer mudanças, essas mudanças não serão tão radicais se entrarem em conflito com o que foi prometido pelo regente do Ascendente. No caso de não haer aspecto entre o Ascendente e o seu Regente, a cada mudança que o Ascendente sofrer em técnicas preditivas, a pessoa reorienta toda a sua vida para as coisas indicadas pelo planeta que aspecta o Ascendente na técnica preditiva.

Recentemente fiz um mapa de uma mulher cujo regente da Casa X (marte) estava em aversão - ou seja, não aspectava o signo da X. Tomei a iniciativa de falar da sua carreira antes que ela me dissesse algo (coisa que qualquer Astrólogo deve fazer para evitar "previsões" após o fato). Disse a ela que sua carreira não tinha um foco definido e que não sabia o que fazer da vida, fazendo escolhas conforme as circunstâncias.

Após essa introdução, ela me confirmou que no ano do término da sua faculdade de medicina, estava completamente perdida e resolveu fazer uma residência médica em clínica médica. Segundo ela, foi um ano terrível, porque estava fazendo uma coisa que odiava. Nesse momento de crise, ela decidiu que faria outra especialização. Esses problemas se deram na Firdaria Mercúrio Marte, sendo mercúrio o significador profissional dela e marte o regente da X. Uma pessoa que vai experimentando as coisas até encontrar uma que goste é uma boa descrição para um regente em aversão ao seu domicílio. Nesse processo de experimentar coisas, ela pode encontrar uma que lhe cause sofrimento.

Todo esse nosso papo aqui já foi uma reflexão profunda de outros Astrólogos. Um deles - não me lembro quem - trouxe de volta as mesmas metáforas que os gregos usavam para explicar a Astrologia: um signo que não é aspectado pelo seu regente é como um barco à deriva, sem destino certo. Pode ser que um bom vento leve o barco a uma ilha paradisíaca; ou a uma tempestade tropical.


Mais cedo ou mais tarde eu teria de escrever sobre conceitos de Astronomia aqui, pois começaria a ficar bem difícil de explicar algumas coisas sem essa introdução.


A Esfera Celeste


O céu é desenhado como uma esfera; no centro dela, está o nosso planeta, pois a Astrologia tem uma observação geocêntrica do céu.

Os planetas e as estrelas estão em algum lugar da "parede" dessa esfera... Sendo assim, devemos criar uma maneira de mensurar a posição destes pontos. Nesse sentido, existem três sistemas de coordenadas mais populares:
  • em relação ao horizonte do observador,
  • em relação ao Equador Celeste,
  • em relação ao Zodíaco.
O céu poderia ser medido apenas com um desses sistemas porém a relação entre dois deles será importante em algumas técnicas, principalmente quando falamos de direções primárias. É fundamental conhecer os nomes dados às distâncias dos três sistemas para você saber onde está pisando. De qualquer forma, dentro da Astrologia o sistema baseado no horizonte do observador não é muito usado e não discorrerei sobre ele nesse artigo.

Cada um desses sistemas depende de um círculo que corta a esfera celeste ao meio. Deste círculo, partem outros infinitos, paralelos ao primeiro, para cima ou para baixo daquele, que apresentam tamanhos menores do que o círculo inicial, que também é chamado de grande círculo.

Como os três sistemas medem da mesma forma, os grandes círculos de cada um cortam a esfera celeste ao meio. Até aí tudo bem. Seria muito fácil se os três grandes círculos fossem alinhados, mas não... E aqui começa a jornada do homem rumo ao entendimento de um bicho de sete cabeças chamado trigonometria esférica... Os grandes círculos de cada sistema cortam o céu ao meio, mas de pontos e ângulos diferentes. Para você ter uma idéia do que falo, olha o diagrama abaixo:


A esfera acima é o céu. Na figura, o céu visível é mostrado pela cor preta; tudo que está em verde não era visível no momento do mapa em questão, o que nos faz concluir que a linha do horizonte é a linha verde-clara entre as duas zonas preta e verde-escura. Essa linha verde-clara é o Grande Círculo do horizonte, que depende da latitude terrestre do observador.
Talvez você esteja percebendo uma linha rósea no meio do desenho. Ela é nada mais do que o Grande Círculo do Zodíaco, ou simplesmente Zodíaco ou Eclíptica. Aqui, o zodíaco está aparentemente perpendicular ao horizonte mas cuidado! Na Latitude em que esse mapa foi feito, calhou do Horizonte ser perpendicular ao Zodíaco, mas isso depende da latitude do local e em outros locais o ângulo entre o horizonte e o zodíaco não será o mesmo.

Os 360 graus zodiacais são chamados de Graus de Longitude Zodiacal.

Finalizando, temos uma linha oblíqua, de cor azulada, que assim como as outras, também corta a esfera ao meio. Trata-se do Grande Círculo do Equador, ou simplesmente Equador. A Terra gira em torno de um eixo que sai nos pólos norte e sul. O Equador fica na metade desse eixo, perpendicular a ele, e também se projeta no céu.

Os 360 graus do Equador são chamados de graus de Ascensão Reta. Guarde bem esse termo porque ele "pipocará" em vários artigos.

Em outro artigo, falaremos melhor da "Ascensão Oblíqua", mas ela já pode ser adiantada por aqui. Essa distância era chamada pelos antigos de "Ascensões da Região" e, como o nome bem diz, dependia da latitude do observador, que era chamada naquela época de "clima". Nada mais é do que a distância do planeta contada de zero de Áries até o grau do horizonte. Devido a isso, a Ascensão Oblíqua tende sempre a ser menor do que a Ascensão Reta. A diferença entre ambas é chamada de "diferença ascensional". O desenho abaixo, de Rique Pottenger, pode ser útil para entender essas distâncias:


Assim como no zodíaco, os 360 graus do Equador são contados a partir do Grau zero de Áries, chamado de Ponto Áries ou Ponto Vernal, que marca a interseção dos dois Grandes Círculos. Devido a isso, zero de Áries sempre tem também 0 graus de Ascensão Reta.

Talvez você esteja percebendo também uma distanciazinha pequena entre o Grande Círculo do Zodíaco e o Grande Círculo do Equador. Essa distância é determinada por um ângulo, chamado de obliquidade da Eclíptica, que poderia ser chamado também de "Ângulo do Grande Círculo do Zodíaco em relação ao Grande Círculo do Equador". Esse ângulo, ao contrário do ângulo entre o horizonte e o Zodíaco, é constante em qualquer lugar do mundo. Ele mede aproximadamente 23 graus. e pode ser percebido com maior facilidade no ponto Áries.

Diante de tudo que foi exposto, já deu pra perceber algumas coisas estranhas. Vou começar a dissipar confusões mostrando o mesmo mapa acima, mas desenhado da forma mais comum de ser encontrada por aí. A única observação necessária para entender que ambas as figuras retratam o mesmo momento é que na figura anterior, o Ascendente está no meio da figura. No mapa abaixo, ele está à esquerda como sempre.Trata-se do meu mapa natal, que volta e meia sempre retorna aos posts desse blog, mas aposto que na figura acima ele estava irreconhecível para você...


Os mapas que vemos na Prática Astrológica omitem algumas informações do céu em prol de outras. Essa omissão implica uma percepção distorcida dos céus. É o caso da minha figura natal. Parece que todos os planetas estão colados ao zodíaco, mas isso não é verdade aqui e nunca será em mapa nenhum. A distorção fica maior em se tratando das estrelas fixas: Note na esfera abaixo o quão distante Formalhault está a direita da linha rosa do Zodíaco. Quando aprendemos sobre as estrelas fixas, porém, as pessoas dizem que a estrela Formalhaut fica atualmente no início do signo de Peixes. Isso somente é verdade se projetarmos uma linha imaginária da estrela até o zodíaco:

A tal "linha imaginária" que liga Formalhaut ao Zodíaco (linha rosa) aqui é chamada de "linha Z" e tem cor vermelha. Graças a essa linha, sabemos que Formalhaut fica no Zodíaco na altura do Signo de Peixes. Da mesma forma, outras linhas imaginárias ("E" e "H") podem ser usadas para sabermos a quais graus do Equador e do Horizonte Formalhaut se alinha.

Parece que os Astrólogos Clássicos e medievais estavam mais interessados em medir as posições dos Astros dentro de apenas dois Grandes Círculos, a saber: o Zodíaco e o Equador mas, como todo o sistema de coordenadas, eles são bidimensionais e, por serem assim, podem ser construídos como um gráfico abcissa/ordenada. A diferença aqui, em se tratando dos céus, é que esse gráfico bidimensional simples é projetado numa esfera. Até agora, falamos apenas da reta de medida horizontal desses gráficos. Agora está na hora de apresentar as "ordenadas" desses gráficos:

A distância que um planeta possui da linha do zodíaco é chamada de latitude zodiacal. No exemplo da estrela Formalhaut, a Linha Z é a latitude zodiacal da estrela.
Da mesma forma, a distância que um planeta tem em relação à linha do Equador Celeste é chamada de Declinação. No exemplo de Formalhaut, a Declinação seria a Linha "E".

O Sol sempre tem latitude zodiacal zero
porque ele está sempre dentro da linha do Grande Círculo do Zodíaco. Afinal de contas, a idéia do zodíaco foi derivada da observação do Sol ao longo do ano, sendo o zodíaco o caminho percorrido pelo Sol. Por outro lado, a Declinação do Sol oscila ao longo do ano, o que
produz a sensação de termos dias mais longos que as noites e
vice-versa, a depender da estação do ano.A Latitude Zodiacal e a Declinação dos outros planetas, porém, varia, enquanto a Latitude Zodiacal e a Declinação de uma estrela fixa tende a ser constante - não a toa elas serem chamadas desse modo!


Latitude: uma complexidade desnecessária?

A medida da "Latitude" foi alvo de uma das maiores complicações da Astrologia no Renascimento. Placidus de Tito criou um sistema de direções primárias que lidava com a latitude dos planetas em relação ao horizonte local, o que complicou enormemente o já complicado cálculo das primárias. Antes de Placidus, a maioria dos Astrólogos não se importava com a latitude zodiacal de um planeta nos cálculos das direções primárias.

Falar sobre a latitude das direções é um tema complicado para uma introdução como essa, mas agora você já tem conhecimento suficiente para entender algumas objeções minhas às direções primárias criadas por Astrólogos Renascentistas ou da Baixa Idade Média: a maioria desses Astrólogos levaram em conta a latitude e a declinação dos planetas no cálculo das direções. O princípio que uso para refutar tais idéias é simples: o principal sistema de referência da Astrologia é o zodíaco.

No exemplo de Formalhaut, quando quisemos determinar a longitude zodiacal dessa estrela, traçamos uma linha imaginária que passava perpendicular ao início de Peixes. Graças a essa linha, sabíamos que Formalhaut estava na altura do início de Peixes. Qualquer planeta que passasse por aqueles graus estaria em conjunção corpórea zodiacal com a estrela, independentemente das latitudes do planeta e da estrela.

Se Formalhaut fosse um planeta, sua projeção no início de Peixes faria aspecto com a projeção de outros planetas no zodíaco (não uso aspectos com estrelas fixas, apenas a conjunção!). Os aspectos dos planetas nada mais são do que ângulos que acontecem não entre os corpos dos planetas, mas sim entre as suas projeções no zodíaco porque, como você viu muito bem com a estrela Formalhaut, dificilmente um planeta estará exatamente conjunto ao Grande Círculo zodíacal. Por essa e outras razões que as direções primárias ptolomaicas são mais simples do que as placidianas, pois elas não levam em conta a latitude e a declinação dos planetas e estrelas em seu cálculo.

Placidus propôs chamar as direções Ptolomaicas de direções in zodiaco
porque elas lidam com a projeção do corpo do planeta em um determinado
grau zodiacal. As direções placidianas que levavam em conta o corpo do
planeta - aonde quer que ele estivesse - eram chamadas de direções in mundo.

Ignorar a latitude no cálculo não implica desprezá-la completamente
. Dorotheus de Sidon, em seu Carmen Astrologicum, diz que a latitude zodiacal de um planeta serve para sabermos a força de uma direção. Se o significador fosse dirigido a um promitor com a mesma latitude que ele, o efeito seria mais intenso. O trecho de Dorotheus, porém, não é suficiente para concluirmos que a latitude zodiacal de um planeta deveria ser levada em conta no cálculo das primárias. Para mim, além de serem mais simples, as direções ptolomaicas aparentam também ser as mais certas, mas isso vai requerer mais experiência da minha parte.

Nesta introdução à Astronomia, vimos que as estrelas fixas e os planetas nunca ficam exatamente no zodíaco; isso é uma ilusão que o desenho da maioria dos mapas lhe propõem. É claro que alguns planetas não se distanciam muito do zodíaco e não tem uma latitude tão absurda quanto a da estrela Achernar, que está no exemplo acima. Achernar tem latitude zodiacal e declinação absurdas!
09/01/2009
Temos vários modos de analisar uma revolução Solar mas este artigo vai se concentrar naqueles mais reconhecidos pela tradição. Fundamento minhas proposições no livro de Morin sobre o tema e o sexto livro de Ali Aben Ragel. Inicialmente, abro o artigo com uma reflexão sobre a nossa falta de conhecimento acerca de nossos próprios mapas.

A tradição clássica e medieval enfatiza que a Revolução Solar traz novos eventos ao nativo, porém deixa igualmente claro que esses novos eventos nunca entrarão em contradição com os significados natais. Essa frase é dificilmente questionada e eu a interpreto mais como um desafio do que um mandamento fácil de ser seguido. Ela me incita a mesma coisa que a famosa frase "conhece-te a ti mesmo". Para perceber se uma coisa contradiz o mapa natal, é preciso conhecer a figura natal em profundidade. Um bom trabalho preditivo implica estudar uma figura natal ad nauseum e isso muitas vezes fica fora das possibilidades de hoje em dia, quando temos cada vez menos tempo para cada vez mais atividades. Essa falta de tempo entra em contraste com o que uma disciplina como a Astrologia requer de nós.

Conhecer a figura natal é mais do que saber onde ficam e como estão suas partes árabes; implica eleger os melhores significadores de cada tema, as promessas que não são facilmente reveladas pelo simples olhar. Eu estudo Astrologia Medieval e sei de cor no meu mapa a posição de vários Lotes; mas confesso que nem sempre sei a importância deles na minha vida e tampouco ainda elegi o melhor significador para cada assunto.

Não sei se estou criando mistério onde não se deve; coincidentemente, a tradição astrológica é repleta de mistérios pela dificuldade na transmissão de conhecimento; há mistérios propositais e mistérios acidentais, sendo os últimos devido à perda de manuscritos que revelariam técnicas muito proveitosas. Esperemos por mais material: esse ano, Benjamin Dykes pode lançar um dos poucos livros com textos que discorrem sobre o tema da Revoluções Solares. Algumas lacunas serão preenchidas.

Em se tratando da técnica interpretativa, queria compartilhar alguns insights com o leitor. O primeiro é que a figura da Revolução sempre foi considerada como um apêndice do mapa natal. Em outras palavras, segundo Morin de Villefranche:

A Figura natal precede a Revolução Solar em tempo e em significância.


Logo, a RS tem de ser interpretada em função do mapa natal. Morin fala isso com base na lógica: se a Rs fosse mais importante que o mapa natal, então todos os anos haveria uma chance das nossas circunstâncias de vida mudarem radicalmente para sempre, padrão esse que não se sustenta ao vermos na prática o que acontece.

Dentro de uma RS, os planetas guardam uma memória do que eles significavam no mapa natal, mas essa memória se mistura com novas configurações do mapa revolucional, o que gera a simbologia de novos eventos.


Por exemplo, Marte no meu mapa natal rege o Ascendente e está na Casa 6; , portanto o meu envolvimento em doenças, miséria e trabalho árduo; a oposição ao Sol nos signos angulares promete acidentes, de acordo com Ptolomeu.


Na Revolução de 2007, Marte estava em Aquário na Casa 10 em oposição a Saturno. Diversos autores clássicos assinalam que Marte em oposição ou em conjunção a Saturno nos ângulos indica o risco de acidentes, principalmente se eles estão na Casa X e IV; em outros mapas, isso não seria verdade mas, como o Marte rege o meu Ascendente natal, os significados tendem a envolver o meu corpo físico. Outras pessoas poderiam ter o mesmo mapa Revolucional mas, não possuindo o mesmo Ascendente que eu, não tiveram as mesmas questões. O resultado de toda essa interpretação foi que eu fraturei a perna após uma queda de um muro de 3 metros de altura.

O segundo insight, ainda embrionário, deve ser pensado melhor e comprovado; em todo o caso, ei-lo aqui. Morin dizia que o retorno de um planeta (que não fosse o Sol, obviamente) ao seu signo natal na RS ratifica as promessas indicadas por esse mesmo planeta no mapa natal. Essa observação contém mais informações do que aparenta. Ela traz implícita o conceito de aspecto e testemunho, que já falamos por aqui. Sintetizando:

Para que um planeta tenha testemunho no signo, ele precisa aspectá-lo.


Isso carece de comprovação, mas vale a pena especular. O conceito de testemunho tem aparecido mais como um princípio universal da Astrologia do que uma técnica a ser aplicada em mapas específicos: se ela é empregada pelos autores medievais em horárias, mapas natais e mundiais, porque ela não funcionaria nas RSs? Com esse raciocínio, começo a questionar também o testemunho de um planeta na RS.

Talvez um planeta na RS em aspecto com o seu signo natal (ou seja, os domicílios que ele regia e ao mesmo tempo o signo que ele ocupava) seja um forte testemunho de que ele pode ser usado esse ano para representar a mesma coisa que indicava na natividade; caso contrário, seu testemunho é pequeno e ele deve ser desprezado. Considerar essa possibilidade - para em seguida confirmá-la com a prática - já facilitaria muito a interpretação.

Por exemplo, na minha Revolução de 2007, Marte em Aquário na Casa X não teve muita relação com a minha carreira. Tive demora para entrar no mercado de trabalho devido aos problemas com o atraso da minha formatura, mas conheço as manifestações marciais suficientemente bem para concluir que isso foi muito fraco em se tratando do que marte é capaz de fazer quando fica angular. Já vi casos de marte na X nos quais a pessoa se sente difamada por um escândalo ou fofoca de um superior, o que em seguida acarreta prejuízo profissional sério e sabotagens. No meu caso, não houve problema algum de infâmia e de queda de status, coisas comuns de se esperar com um maléfico fora de séquito na Casa X.

Poderíamos simplesmente crer que seria um erro de previsão contra o qual não há argumentos prever que esse Marte indicaria problemas profissionais, mas ainda acho que é melhor aprender com nossos erros. Marte na X funcionou muito mais para indicar a minha queda do que para os temas de infâmia e calúnia e uma justificativa para isso pode se encontrar no conceito de testemunho. Marte em Aquário não aspecta o décimo signo do meu Ascendente natal - Capricórnio - que trata das honras, logo, o testemunho para fama é pequeno. Em outras circunstâncias, quando marte estiver na X da Rs e ao mesmo tempo aspectar a X natal, talvez ele será uma indicação mais evidente de que posso sofrer infâmias. Por outro lado, Marte em Aquário está em sextil com Áries, em quadratura com Escorpião e em trígono com Libra, a maioria dos signos que guardam relação com ele no mapa natal por virtude de regência e de posição, sendo que todos os signos citados possuem relação com o corpo do nativo (Áries na 1), doenças (Libra, local natal de Marte) e angústia da mente (Escorpião na 8).

É claro que essas duas proposições não são suficientes, restando a nós levarmos em conta outras maneiras de se analisar a figura. Quando tiver em mente outras hipóteses, vocês saberão.

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