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O início

Num saber que depende de uma estrutura circular como a Astrologia, define-se arbitrariamente um começo, pela óbvia razão de que um círculo não tem início nem fim. Em algum lugar do zodíaco, o começo tem de ser fincado, a fim de tudo se referendar nele. E na Astrologia Mundial? Existe algum começo? Existe um mapa fidedigno para nos basearmos como um início?

Não há propriamente um mapa de início do mundo no qual podemos nos basear com segurança. Há sim, um mapa mítico chamado de Thema Mundi que, em latim, nada mais é do que o tema ou carta do mundo. Essa carta, longe de ser um registro celeste remoto, apenas contém inúmeras razões para se entender as relações entre os signos e dos planetas, coisa que não quero abordar nesse artigo. Mais interessante é perceber na Astrologia Mundial um começo do qual se parta para se tirar conclusões técnico-práticas, sendo esse começo escolhido sem uma razão claramente demonstrável nos textos, mas que é freqüentemente citado pelos autores.

Abu Ma'Shar, no seu Livro das Religiões e Dinastias, define um começo dos estudos Astrológicos acerca das coisas mundanas a partir de um evento de grandes proporções e que encontra indício em inúmeras culturas. Esse evento, longe de ser o começo do mundo, é tomado pelos astrólogos e pelas religiões - notadamente o cristianismo - como um "recomeço" da humanidade. Falo do dilúvio: período, segundo a Bíblia, de quarenta dias e quarenta noites de chuvas ininterruptas que inundaram o mundo conhecido, exterminando os animais superiores - incluindo grande parte dos humanos.

Sendo um saber cíclico, fica difícil estabelecer na Astrologia um começo sem que haja um grande ciclo marcado por algum evento celeste. Alguns autores usam esse argumento como prova de que não é possível fazer Astrologia Mundial sem os planetas Urano, Netuno e Plutão - dados os seus grandes ciclos - mas isso está longe de ser verdade. De acordo com os autores medievais, podemos escolher ao longo da história da humanidade qualquer evento de grandes proporções e com algum registro evidente de ter acontecido próximo ao retorno das conjunções Júpiter-Saturno no signo de Leão, o que ocorre em média a cada 960 anos.O dilúvio ocorre 247 anos após a grande conjunção Júpiter-Saturno em Leão de 3651 a.C.

Não sabemos muito acerca do dilúvio, a não ser que ele é descrito por inúmeras culturas do Norte da África, Mediterrâneo e Oriente Médio. Há inclusive historiadores cristãos que defendem registros do dilúvio entre os índios mesoamericanos. De qualquer forma, parece que Abu Ma'shar se fia nesse evento como um dos poucos marcos de um passado obscuro, sem registros. Antes do dilúvio, ele apenas cita a criação de Adão como um fato marcante! Nós, então, sabemos menos ainda, pois não se trata de colhermos dados numa história natural da Terra, e sim cultural, coisa que em culturas antigas era transmitido oralmente.

Parece que a maioria dos autores de astrologia atualmente ignoram a existência desse referencial primário da Grande Conjunção em Leão, mas Abu Mashar o leva em conta na hora de prognosticar, e ele o faz utilizando uma espécie de "profecção mundial" chamada de Dawr (palavra árabe que representa "revolução").

Para entendermos o Dawr, é necessário saber que ele é iniciado a partir de uma grande conjunção em Leão, mediante algum evento significativo que coincida aproximadamente com aquele evento celeste. Em tese, o Dawr começa no Ascendente da carta de ingresso da conjunção de Leão - um grande problema pois, em se tratando de um evento de proporções mundiais, qual seria o local para situar uma carta de ingresso? Abu Ma'Shar conta a Dawr a partir de Áries que, curiosamente, é onde ele crê que ocorre a conjunção.

Deixemos essa dúvida reservada para outro instante e nos voltemos para a Dawr. Assim como a profecção, ela se desloca pelos signos na sua ordem zodiacal conhecida, porém ao invés de dar a cada signo 1 ano (como na profecção natal), cada signo recebe 360 anos. Cada Dawr pode ser divida em 4 quartos, que Abu Mashar divide regularmente em 90 anos, mas as regras para se escolher um regente para essas quartos são confusas e pouco discorridas pelo autor.

Ao contrário da profecção, a Dawr não tem como regente o senhor domiciliar do signo. O regente é dado pela ordem caldaica a partir da primeira Dawr, contada em Áries. Em outras palavras, a Dawr começa com Áries - Saturno e vai na seguinte ordem:

  • Áries - Saturno
  • Touro - Júpiter
  • Gêmeos - Marte
  • Câncer - Sol
  • Leão - Vênus
  • Virgem - Mercúrio
  • Libra - Lua
  • Escorpião - Saturno

...e assim sucessivamente. Para que Saturno - Áries se repita novamente, são ao todo mais de oitenta combinações.

Abu Ma'Shar crê que a grande conjunção ocorre em Áries a cada 960 anos, sendo que ele começa o Dawr a partir de Áries, o que está muito longe da realidade constatada em qualquer zodíaco, incluindo os siderais. Umar é mais consistente nesse ponto e afirma o que nós sabemos ao consultarmos as efemérides da NASA.

Não sabemos se há no discurso de Abu Ma'Shar uma falha teórica ou se é proposital que se parta de Áries o Dawr. Eu prefiro pensar que sim, pois Abu Ma'Shar era um excelente Astrólogo e Umar foi anterior a ele e sabia que a grande conjunção parte de Leão.

A regra teórica para o Dawr depende, portanto, de se considerar o ano da conjunção que representa o dilúvio - que ocorreu mais de duzentos anos antes da enchente - como um início de um ciclo que perduraria até hoje! Entretanto, na prática, Abu Ma'Shar não usa a conjunção representante do dilúvio como um recomeço, pois ele dá a essa época uma Dawr diferente de Saturno-Áries, que seria teoricamente a primeira. Abu crê que a Dawr ativada no dilúvio era Saturno-Câncer, a sexagégima Dawr a partir de Saturno-Áries! Em outras palavras, Abu Ma'shar considera que houve um evento mais importante do que o dilúvio, no qual ele se baseia para contar um ciclo de Dawrs que passa pelo dilúvio e vale até a ascensão da religião islâmica, no século quatro depois de Cristo!

Depois do dilúvio, houve outras conjunções em Leão, mas o autor árabe não as leva em conta. Ele analisa a ascensão do Islam ainda levando em conta a conjunção do dilúvio! Se levarmos em conta que Abu Mashar praticamente ignorou as conjunções em Leão/Áries (como preferir) que se sucederam àquela do dilúvio como princípios do dawr, porque temos de considerá-las?

A consequência mais séria do uso da conjunção do dilúvio é a definição de um planeta que represente o Islamismo. Por Vênus reger a Dawr do momento em que o Islã surge, ela é o planeta escolhido. Algumas pessoas acham que Vênus não pode representar o islã porque ela é um planeta feminino e o Islã é reconhecido por reprimir o feminino, se o compararmos à cultura ocidental. O problema é que a escolha de um significador na Astrologia Medieval tem como razões questões meramente técnicas, sendo somente a partir dessas questões é que podemos chegar a alguma interpretação. Logo, a única e suficiente razão para Vênus ser a significadora do Islamismo é o fato dela ser a regente do Dawr que opera no momento da ascensão do Islã, partindo como base de cálculo o 64° Dawr de Saturno em Câncer, aquele do dilúvio.

Mais estudos sobre Astrologia Mundial vêm por aí...

Comentários

  1. A quanto está o livro das religioes e dinastias?

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  2. Vale a pena ter. Melhor do que ficar dependendo das interpretações de terceiros, mesmo que esses terceiros sejam bons como o Steven.

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  3. é, eu quase comprei, mas dai preferi comprar 7 livros pela metade do preco....

    quando eu passar o rio eu xeroco sua copia
    ;-)

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  4. O problema é que sete livros nem sempre terão o que esse tem. Eu também posterguei muito para comprá-lo...

    Acho que Bogotá - Rio - Bogotá e mais a xerox vai ficar mais ou menos o mesmo preço, salvo se você tiver milhagem, aí você descola uma passagem de graça, ficando bem vantajoso. Passa no Rio e leva os livros de Clássica e medieval que eu não tenho que a gente faz um troca-troca. De xeroxes, claro, rs.

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