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A Carta de início do Brasil.

Qual seria o mapa que representa o Brasil? Com inúmeros momentos de importância histórica, fica difícil num primeiro momento identificarmos o instante ideal que marca o nascimento da nação brasileira.

Essa dificuldade é muito maior em se tratando da astrologia moderna, pelo que parece. Persegue-se com avidez o instante inicial de um país, cidade ou estado. Lembro-me de uma palestra na qual o Astrólogo relatou que teve de consultar o Arquivo Geral da Marinha para saber qual era a luminosidade do Sol no instante em que Estácio de Sá chegou na Baía de Guanabara, a fim de saber qual seria a hora certa em que o desbravador vislumbrou pela primeira vez o território carioca. Os antigos, por outro lado, tinham uma maneira mais simples de ver as coisas.

Independentemente da hora em que foi fundado o país, a Carta de Ingresso do ano em que o país foi criado deve ser consultada. Chamaremos esse mapa de Carta de Início. Ela é a raiz de todas as outras cartas que se seguirão a esta, e será utilizada para se saber quais serão os significadores de cada componente do país: o governante, o povo, os ministros, comerciantes, artistas, etc. Esse procedimento é muito importante porque em alguns continentes (como a Europa) os países são muito pequenos e acabam por ter no mesmo ano Cartas de Ingresso anuais muito parecidas, pois não se muda muito a latitude. Esses países, porém, foram criados em épocas diferentes e, com isso, terão Cartas de Início radicalmente diferentes.

Além do mais, dentro das Cartas de Início há uma preciosa informação. São nelas onde nós devemos procurar qual é o signo que representa o país ou nação. Esse signo é tão simplesmente o Ascendente da Carta de Início.

Alguns autores entram em contradição com essa regra (mesmo defendendo-a nos seus escritos) e consideram o Ascendente da cidade ou país como sendo aquele do instante que o "rei senta no trono" ou outra coisa equivalente a essa. Por exemplo, no blog do yuzuru você verá o mapa da fundação de Bagdá. Esse mapa representa o instante em que a cidade foi fundada, fruto de uma eleição astrológica. Os autores consideram o signo que representa Bagdad como sendo Sagitário porque esse era o Ascendente não da Carta de Ingresso, mas sim da eleição astrológica. Essa, contudo, parece ser uma exceção à regra estipulada por Abu Ma'shar e outros.

Além do signo que representa um país, é necessário sabermos o planeta representante da nação. Esse não será necessariamente o regente do Signo Ascendente da Carta de Início, e sim "o planeta mais proeminente nos locais mais importantes da figura". Aqui alguns autores consideram essa descrição como sendo o já conhecido Almuten Figuris, cujo método pode ser encontrado no site de Paulo Silva. Com base nesses dois princípios, vamos postar aqui a carta de ingresso do ano em que o Brasil se viu independente, com localização na então capital desde que a corte aqui chegou, em 1808: o Rio de Janeiro.



Se os autores medievais estiverem certos, o signo que representa o Brasil é Capricórnio. O planeta mais importante do mapa - obtido pelo cálculo do Almuten Figuris - é Saturno. Aqui pode soar uma coincidência, mas nem sempre o regente do signo Ascendente será o planeta representante do país.

Tendo dito essas tortuosas linhas acima, vamos entrar na polêmica. A primeira delas é considerar errado o que se diz em Astrologia Medieval porque contraria as concepções da típicas da Astrologia Moderna. Veja o que eu quero dizer em algumas paráfrases do que leio na internet:

"O Brasil é um país com um povo criativo, mas ao mesmo tempo com baixa estima. Essas coisas são melhor representadas pelo signo de Virgem, domicílio onde o Sol se encontrava no instante da Independência."

"Eu acredito que Peixes seria o melhor Ascendente do Brasil porque é um país com misticismo, compreensão, criatividade, emocionalismo etc."

"Eu acredito que Aquário é o Ascendente do Brasil porque temos tolerância às diferenças e o país sempre foi vanguarda artística e em algumas tecnologias, até mesmo se comparado a alguns países desenvolvidos"

Esse é o senso comum astrológico acerca do Brasil. Diante desse modo de produção de conhecimento Astrológico, é claro que o Ascendente Capricórnio detectado na Carta de Início proposta é um absurdo. Vejamos a reação que essa proposição pode causar:

"Nossa, Capricórnio! Não tem nada a ver com o Brasil! Signo austero, fechadão... Nada a ver! Capricórnio tem mais a ver com a Inglaterra, Alemanha... Brasil não!"

O eterno choque entre as técnicas modernas e medievais pode ser evitado se considerarmos que cada uma busca coisas diferentes. Abu Ma'shar e outros Astrólogos não estavam preocupados com a identidade de um povo ou esses conceitos abstratos que povoam a Astrologia Mundial contemporânea. O que eles queriam era descobrir qual signo e qual planeta deflagrariam eventos na nação com sua mudança de estado celeste! Se Capricórnio e Saturno estiverem aflitos, será que o Brasil sofrerá?

Pouco importa a identidade do país pelo signo que o representa! Esse conhecimento tem como única importância saber quando o país será afligido ou bonificado. Talvez essa identidade seja descoberta na Carta de Início do país, quando analisada completamente. Aí saberemos as tendências dos governantes, reis, ministros, da classe intelectual, etc. As tendências mostradas na Carta de Início serão marcadas de um modo indelével na identidade do país - nossos políticos safados que o digam.

Grande parte da minha decepção com a Astrologia Moderna teve início na área Mundana. Nos meus cinco anos de estudo, encontrei poucos Astrólogos se engajando em fazer previsões - sejam elas acertadas ou não. A prática usual é descobrir configurações celestes que representam aquilo que já aconteceu. Astrologia Mundana moderna tem sido apenas uma linguagem: não tem demonstrado grande potencial preditivo, fica restrita àquilo que ela consegue ver: os ciclos de Urano, Netuno e Plutão.

Comentários

  1. Hello Rodolfo,
    I don't post here frequently, but I'm between your readers.

    And yes we have the same in Italy, every modern astrologer says a different sign for my country: in every case I'm lucky because we have a proper traditional sign both for Italy and Roma, Leo and Libra.
    Unfortunately not all ancient astrologers were in agreement, so for example for Teucer the right sign was Scorpio.

    You see, nothing new under the Sun
    margherita

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  2. Thank you for your answer, Margherita. There is so much to learn about ancient Astrology... I have never heard of a single book of Teucer of Babilon. Italy must have a more variegated collection than english books.

    I am looking foward Asu Mashar's Great Introduction (Ysagoga major, I think).DO you know how can I order this book? Thank you.

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  3. It's not Italian, it's Holden English translation of Rhetorius, which incorporated a text from Teucer, the one about paranatellonta.

    And I'd like to have Great Introduction too, but maybe it's not still in print, I don't know.
    Last year I met Burnett in a congress and I asked him about this book, and he told me he was still working.
    I hope we will know when it's ready, I tried to find the Abbreviation and I could not find.

    Margherita

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  4. Artigo muitíssimo interessante. Vai ter continuação sobre o mesmo tema?

    Adoraria saber como é a visão do Brasil pela astrologia medieval.

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  5. escreverei mais, Malkav. Obrigado pelo retorno, é sempre estimulante.

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  6. Muito obrigada pela sua partilha. Bem haja!
    Manuela

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  7. Não entendi ao certo - no mapa, está citado um retorno solar, mas qual o parâmetro para usar para estruturar ele como uma carta de início ?

    Queria montar uma para a cidade onde moro, Bauru SP, fundada a primeiro de agosto de 1896.

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