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Anacronismo na interpretação

O quarto, local subterrâneo.

Se benéficos possuírem autoridade sobre o
Horoskopos ou a Fortuna e estiverem presentes [neste local], tais [indivíduos] ganharão seu sustento de ofícios sacerdotais. E se aqueles que regem também tiverem regência sobre o Lote e ao mesmo tempo estiverem no local subterrâneo, receberão mensagens de visitas divinas e de fantasmas da imaginação.

E se a estrela de Ares estiver co-presente com eles enquanto estiver responsável pela Fortuna ou pelo Horoskopos, ele terá uma vida cheia de males devidos ao seu comportamento único e, depois de ter agido com vilania com outros, subitamente mudará suas circunstâncias e terá uma morte violenta.

Deve-se observar cuidadosamente que esse local causa a fama pós-morte e os legados de uma família. Quando acontecer dos maléficos estarem neste local, os [nativos] freqüentemente destinam suas propriedades a quem eles desejarem.


Antologia de Vettius Valens - livro II. Tradução para o inglês de Robert Schimidt. Project Hindsight, Golden Hind Press.

Acima, temos um trecho sobre a Casa IV. Os dois últimos parágrafos contam com as descrições normais dessa casa - o fim da vida e as propriedades; o que me impressiona é o primeiro parágrafo, no qual Vettius Valens expõe que esse local também possui conexão com questões espirituais.

Como seriam essas questões espirituais aplicadas hoje? Pergunto-me porque a Astrologia deveria ser um empreendimento sério bastante para se exigir uma pesquisa histórica em paralelo, a fim de se evitar anacronismos históricos. "Anacronismo" significa atribuir os mesmos valores e significados a um objeto, nome ou expressão em contextos históricos diferentes. Da definição da wikipédia (bem parecida com o que entendi pelas minhas aulas de história):

Anacronismo é a falta contra a cronologia. É um erro na data dos acontecimentos, consiste em atribuir a uma época, a um personagem da história, sentimentos, costumes que são de outra época. Falta de alinhamento, consonância com um determinado periodo de tempo , com uma época .

Não podemos cometer erros de anacronismo pois eles também comprometem a nossa interpretação. Um grego não concebia o termo "espírito" (pneuma) da mesma forma que um espírita kardecista do século vinte e um... Ainda que a descrição do conceito de espírito dada por um grego do século d.C. seja parecida com a de um espírita pós-moderno, este constrói o conceito inserido numa elaboração e contextos diferentes.

A conversa parece ter ficado complicada, porém isso tem implicações práticas revelantes. Será que Valens - quando usa o termo "visitas divinas" - estaria se referindo ao nosso conceito de divino na atualidade? Será que esses "fantasmas da imaginação" seriam simplesmente os espíritos que se manifestam aos médiuns hoje em dia? Ou estaria Valens se referindo simplesmente à descrição do que hoje concebemos como uma alucinação auditiva típica dos esquizofrênicos?

Fica difícil saber o que seria porque, historicamente falando, a esquizofrenia não existia na sociedade grega, da mesma forma que a tuberculose ou a AIDS. Todos esses nomes são soluções relativamente recentes para os problemas de saúde que se apresentam perante nós. Os gregos tinham soluções diferentes para essas questões. Algumas sociedades indígenas resolvem o problema que chamamos de esquizofrenia concebendo as alucinações auditivas como "visitas do divino". Então do que falamos? Do que Valens fala? E como evitar o anacronismo?

A meu ver, deveríamos testar esses aforismos em mapas de pessoas que imaginamos ter o que Valens descreve. Ou seja, a melhor resposta para o anacronismo na Astrologia é ser anacrônico num primeiro momento, para que em seguida a prática desconstrua essas idéias.

Também devemos saber quando o aforismo de Valens extrapola: ou seja, nem todas as pessoas que receberão visitas divinas e fantasmas da imaginação terão benéficos na Casa IV regendo a Parte da Fortuna ou o Ascendente. Outras configurações podem representar a mesma coisa. O aforismo é apenas um ponto de partida.

Aliás, acabo de cometer um anacronismo: para Valens, o termo "quarto local" pode ser tanto o espaço que conhecemos hoje como Casa IV (do fundo do céu até a cúspide da Casa V) quanto o quarto signo a partir do Ascendente. Aparentemente são coisas iguais, mas elas podem divergir: em alguns mapas, o Fundo do Céu pode estar no terceiro ou quinto signos a partir do Ascendente. Se isso não for levado em conta, comete-se um anacronismo, que é dar o mesmo nome a coisas diferentes.

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