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Astrologia e Anatomia

Ando meio sem condições de escrever aqui com regularidade, entretanto apresentarei algumas noções de Astrologia Médica.

A Iatroastrologia - também chamada do nome empregado no primeiro parágrafo - consiste em vários segmentos da nossa medicina - pode-se diagnosticar partes do corpo suscetíveis e até mesmo sugerir como algumas doenças podem ser curadas. Neste artigo, tratarei do primeiro item e o mais importante a meu ver - saber onde acontecerá a doença no corpo do nativo.

As maneiras de dividir o corpo na Astrologia são comumente três: divisão do corpo pelos signos, pelas Casas ou pelos planetas. A duas primeiras, porém, tem alterações entre os diferentes autores.

A primeira correlação da divisão zodiacal com anatomia conhecida na história é o que se chama de melothesia zodiacal. Trata-se de uma divisão simples e muito difundida: Áries representa a cabeça, Touro o pescoço, etc. É impressionante o quanto essa divisão é difundida por todas as Astrologias conhecidas - da Jyotisha até a Ocidental - sem grandes alterações na sua estrutura. Em todas essas linhas de Astrologia, as atribuições não mudam muito.

A segunda maneira de se dividir o corpo nos céus apresenta as maiores discrepâncias entre diferentes autores e escolas: a atribuição das Casas a partes do corpo. Existem três formas de se distribuir as partes do corpo humano pelas Casas, sendo a mais difundida aquela que concebe a Casa um como equivalente a Áries e prossegue as Casas como os signos a partir do primeiro: assim sendo, a Casa II equivale a Touro e representa o pescoço, etc. Encontramos essa distribuição na Astrologia Jyotisha e na obra de William Lilly.

A segunda forma de divisão das Casas é mais rara, sendo proposta por Vettius Valens, que concebe a Casa I a partir do Lote da Fortuna como as partes do corpo referentes ao signo de Câncer e prossegue a contagem equivalendo a ordem das Casas a ordem dos signos. Assim, a Casa II equivale a Leão e rege o coração, etc. É importante citar que esse esquema é tratado como secundário no livro II da Antologia de Valens. Devido a atenção que o autor da Antologia dedica a essa parte, podemos concluir que a divisão mais importante para Valens é aquela proposta pela melothesia zodiacal: ele dá grande importância ao signo em que a fortuna ocupa como a parte do corpo mais suscetível no indivíduo. Com algumas singelas alterações, Valens dá aos signos quase as mesmas partes do corpo que outros autores dedicam nos seus textos.

Finalizando as representações corporais das Casas, temos a distribuição proposta por Richard Saunders no seu "Astrological Judgement and Practice of the Physick", que difere de todas as outras. Por exemplo, enquanto Lilly considera a Casa V como representante do Coração (p0ois equivale ao quinto signo, Leão) Saunders considera a mesma como sede do Fígado e da "virtude expulsiva" (um conceito galênico).

O terceiro e último modo de divisão apresenta maiores discrepâncias a depender da escola seguida, porém ainda se percebe nela muitas semelhâncias entre as diferentes escolas. Trata-se de correlacionar os planetas a partes do corpo. O Sol, por exemplo, se refere ao coração, marte ao sangue, Saturno aos ossos e ao ouvido direito, etc. Essa correlação é mais inespecífica e suscitou questionamentos por parte de Morin de Villefranche - ora, o Sol em oposição a Saturno indicaria problemas cardíacos. Isso significa que várias pessoas nasceriam com problemas do coração só porque nasceram enquanto esse aspecto ainda estava em orbe?

Quando o estudante se depara com tantas divisões, é natural se confundir e até mesmo fazer juízos de valor baseados em premissas falsas, como Morin. O entendimento de Morin a respeito do uso dos significadores essenciais era parcial. Na verdade, um significador de uma parte do corpo aflito só indicará doença nesta mesma parte do corpo na presença de outros testemunhos dentro do mesmo mapa. Por exemplo: ter um maléfico no signo de Câncer não é suficiente para que a mulher desenvolva um carcinoma mamário: seria interessante ver o planeta que representa as mamas (suponho que seja a Lua) e verificar se ele está aflito. Outrossim, um estudo da Casa 4 - representante das mamas - seria igualmente elucidador. Poderia-se ver se a Parte da Fortuna está aflita no signo de Câncer - o que a experiência ensina que em muitos casos representa doenças. No final dessa análise, ao percebermos uma grande quantidade de sinais a favor da mama, aí sim poderíamos ter algum receio substancial de que a mulher dona do mapa desenvolverá tal patologia.

Estudar astrologia médica é a melhor maneira de esclarecer as outras áreas dessa ciência, pois aprendemos a raciocinar com a quantidade de testemunhos, e não dar o mesmo valor a cada sinal isolado que apareça. Algumas dúvidas comuns do estudante - fora da iatroastrologia - se dissipam facilmente ao se dedicar ao estudo das doenças no mapa natal. Por exemplo, é comum ter dúvida quanto aos sinais indicados pela Casa V: ela representa crianças, viagens medianas e embaixadas. Ora, quando um maléfico aparecer nesta Casa, a pessoa terá dificuldades com crianças ou com viagens? Devemos observar não somente a Casa, mas as partes árabes ligadas aos diversos temas dessa Casa e aos significadores essenciais desses mesmos temas. Júpiter é significador essencial de crianças, ao mesmo tempo que Marte é significador essencial de viagens e peregrinações; ora, se há um maléfico na Casa V e Júpiter estiver em bom estado - bem como a Parte das Crianças e seu regente - é menos provável que as crianças sofram. Por outro lado, se no mesmo mapa no qual a Casa V estiver aflita Marte estiver em péssimo estado, é muito mais provável que o nativo tenha problemas sérios nas suas viagens. Proceda da mesma forma com todas as Casas para ter uma visão bastante razoável do indivíduo a sua frente.

Comentários

  1. Hi Rodolfo,

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