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Direções Primárias: algumas observações.

Sabe uma coisa que possui excelente reputação, mas que você experimentou e não chegou a mesma conclusão do discurso do senso comum? Pois as direções poderiam se encaixar nesse perfil. Por mais que eu tente, não consegui diversas vezes encontrar nada de significativo nas minhas direções. Muitas pessoas contra-argumentam - e por várias vezes eu tentei me contra-argumentar e ainda fazer um voto de confiança as direções, com os seguintes contra-argumentos:
  1. Uso as direções erradas, pois as verdadeiras só são calculadas por um software de Astrologia chamado Placidus;
  2. Meu horário de nascimento está errado, então as direções não funcionam.
  3. Não sei interpretar direções.
As Direções Primárias constituem numa das técnicas mais antigas de previsão. Associada ao estudo do Hyleg e do Alcocoden, era usada para delimitar o Arcus Vitae, isto é, a duração da vida, delimitando com precisão o mês do óbito (e alguns dizem o DIA do óbito). Além dessa função importante, eram as direções que norteavam a interpretação de técnicas como os transitos e as Revoluções Solares. Morin é categórico ao afirmar que uma configuração astrológica presente na Revolução de um dado ano precisa ser confirmada por direções correspondentes em significação, caso contrário elas não terão significância. Ou seja, é implícito que as direções ocupam o topo de uma lista de técnicas usadas pelos astrólogos medievais. Abaixo eu dou uma sugestão de como seria essa hierarquia de técnicas. As primeiras da lista são as mais importantes, decrescendo em significância a medida em que a lista desce:
  1. Direções primárias;
  2. Direções por termos do Ascendente;
  3. Profecções
  4. Revoluções Solares
  5. Trânsitos ou ingressos de planetas.
Existem várias maneiras de se calcular direções que não são do escopo desse artigo. Programas como os da série Solar Fire e Placidus (desenvolvido pelo astrólogo Rumen Kolev) contém as direções (o solar fire a chama as direções de "Primary Mundane": procure por este termo na janela que gera uma listagem de transitos e progressões).

Por falar em softwares de Astrologia que calculam direções, existe uma lenda de que o Placidus é o único programa que as calcula corretamente. Para desvendar esse mito, pedi a Paulo Silva, Astrólogo medieval proprietário de uma cópia do Placidus, para que gerasse uma lista com as minhas direções in mundo e com proporção Ptolomaica (1 grau de arco de direção equivalente a um ano de vida). Em seguida, eu as comparei com a lista gerada pelo Solar Fire, calculada com os mesmos parâmetros de análise (proporção ptolomaica e in mundo) e, para meu espanto, ambas eram idênticas... Dessa forma, faço as minhas direções pelo Solar Fire Deluxe sem culpa alguma até que me provem que mesmo o Placidus está errado... Sendo assim, o contra-argumento 1 é furado. Além disso, o feedback que adquiri de alguns astrólogos possuidores do Placidus é de que nem com esse programa em mãos eles conseguem ver algo significativo nas direções primárias...

Resta derrubar os contra-argumentos 2 e 3. Como ainda não tenho experiencia para dizer que meu horário de nascimento é errado ou não, o contra-argumento 2 se mantém, mas com um porém. Segundo Robert Zoller, as direções não indicam eventos específicos, mas sim épocas da vida em que seus significados se mantém fortes e geram eventos com significados semelhantes, até que uma nova direção assuma. Esse tipo de visão concebe as direções como uma "Firdaria", que dá um certo período de tempo a dois planetas do mapa natal. Se esta concepção estiver correta, não é necessário um horário de nascimento obsessivamente correto - salvo para se saber o Arcus Vitae, creio eu.

Talvez a explanação anterior seja confusa, então eu a esclarecerei com um exemplo. Supondo que seu horário de nascimento seja parcialmente correto - uma margem de erro de dez minutos. Se você calculasse com esse horário de nascimento uma lista de direções, vamos supor que há uma direção do Sol em trígono com o Ascendente para o dia 22 de junho de 2006. Se o Sol rege a Casa V e você teve dois filhos em dois anos sucessivos (como aconteceu com meu sogro em 1980 e 81) em 2006 e 2007 , então apesar da direção acima poder ser corrigida para a data ou mês em que você soube da primeira gravidez, ela vale para a segunda também, pois voce descobrirá que não há nenhuma direção para a segunda. Esta direção Sol-Asc valem portanto até que o Sol e o Ascendente participem de outra direção.

Há um relato no qual se interpreta o tempo de duração de uma direção por informações contidas na própria natividade. Abaixo temos um fragmento de um astrólogo medieval que provavelmente viveu no califado de al-Mutawakkil. A figura analisada tinha marte em Câncer na Casa IX em quadratura com o Sol em Libra na Casa XI e no décimo segundo signo. O autor delimita a idade em que a direção de ambos acontecerá e o tempo de duração dessa direção:
Nós nos voltamos agora ao tratamento das dignidades e vemos aquele Marte sobrepujar ao Sol. Isto aponta um acidente sério para o pai, de forma que sobrevirá grandes desarranjos, pensamentos de morte e perdas dos bens por causa de alguma dissensão com exército ou com os comissários de polícia por causa da revolta contra os princípios [porque marte está na Casa 9, que representa a lei, enquanto o sol é o significador essencial do pai]. E isto acontecerá ao redor do décimo ano: quando a direção do lugar do Sol chegará ao lugar de marte [na verdade, a distancia entre o sol e a quadratura com marte equivale a dez anos de vida do nativo]. Termina o acidente à conclusão do décimo ano, pois Marte está em signo tropical e em casa cadente.
Essa maneira de se delimitar o tempo de uma direção é bem similar aquela utilizada em Astrologia Horária para saber quando a questão acontecerá ou quanto tempo ela durará. Casas angulares e signos fixos prolongam o tempo do evento; casas cadentes e signos cardinais dão pouca duração ao evento. Signos mutáveis e casas sucedentes são um meio termo entre esses dois extremos. Como sol em quadratura com marte ocorria em Casas cadentes e em signos cardinais, o autor concluiu que os efeitos dessa direção durariam apenas um ano. Em verdade, nunca vi delimitação do tempo das direções semelhante em qualquer trabalho de astrologia medieval.

Com o argumento 2 suficientemente respondido por ora, resta-nos o último deles: o contra-argumento que defende as direções dizendo que nós não sabemos interpretá-las. Tenho descoberto que esse argumento pode ser definitivamente a causa do insucesso das direções na nossa prática atual. A experiencia tem me mostrado que os aspectos formados numa lista de direções não deve ser interpretado da mesma forma que nos mapas natais e horárias. Em contraste com esses tipos de mapas, a qualidade do aspecto - se ele é trígono, sextil, quadratura ou conjunção - tem sua importância demasiadamente diminuída nas direções.

Por exemplo: eventos violentos são normalmente mostrados em Revoluções por quadraturas e oposições de maléficos ao regente do ano, como ocorreu comigo em 2007; esperar que essa mesma lógica funcione em listas de aspectos de direções pode lhe deixar a ver navios. A cada dia em que estudo autores defensores das primárias, percebo que os eventos - mesmo sendo traumáticos - podem acontecer com aspectos ditos "suaves" e entre planetas benéficos - porque nas direções, o mais importante é a regência que um planeta tem sobre uma Casa, e não seu significado essencial. Assim sendo, sol em trígono com Júpiter pode representar um evento trágico se Júpiter estiver determinado a morte no mapa natal, seja por posição ou regência. Adicionadas a essas informações, Morin de Villefranche diz que a determinação dos planetas dirigidos na Revolução Solar dos anos em que elas se mantém ativadas pode ser determinante para se saber como a direção se manifestará.

Vivo no momento uma direção primária do Sol em trígono com Júpiter, ativada em 2007. O Sol é Almuten do meu ascendente, então direções solares dizem muito a respeito de coisas que me acontecerão diretamente. Júpiter rege as Casas IX (universidade, viagens) e XII (sufocos, internações), além de estar posicionado no oitavo signo (morte, tribulação) e na Casa VII (casamento). O dispositor de Júpiter é marte, determinando-o mais ainda a acidentes e a doença, uma vez que marte está na Casa VI do meu mapa. As desgraças marciais, porém, levam a livramento e a um tratamento médico de luxo, porque marte dispõe de Júpiter no signo de Escorpião. Júpiter também é regente da exaltação da Casa IV, então é importante para assuntos domésticos, como mudança de residencia.
Uma simples direção como essa se alinha com diversos eventos significativos na minha vida - todos acontecerem em 2007 e no início de 2008 e seus desdobramentos se mantém ainda hoje, com exceção do meu diploma e da venda da casa:
  • Atrasos na entrega do meu diploma (universidade e frustrações, casa IX e XII em combinação);
  • Mudança de residencia e venda da minha casa antiga, com atrasos marcantes na negociação;
  • Preparativos do meu Casamento, com a mudança de residencia da minha noiva para o Rio de Janeiro (coisa inesperada que foi essencial para que o casamento ocorresse);
  • Queda de um muro, rendendo uma fratura de tíbia e fíbula direitas (aconteceu em 18 de novembro de 2007) com posterior osteomielite (janeiro de 2008). Operei duas vezes num dos melhos hospitais de traumato ortopedia do Brasil e até a presente data estou me recuperando com fisioterapia;
O fato do aspecto entre o sol e júpiter ser um trígono não despertaria um alerta vermelho no astrólogo que analisasse minha lista de primárias - não despertou em mim. Pensei que teria muitas coisas boas oriundas dessa direção - de fato, se casar e ter um salário bom para padrões de solteiro (devido a graduação de médico) são coisas excelentes, mas por reger uma casa ruim da figura Júpiter também tem a sua medida de fel na interpretação, a despeito do trígono.

Espero que esse artigo tenha esclarecido algumas dúvidas sobre essa técnica. A cada dia em que eu a estudo, percebo que ela funciona mesmo. Gostaria de ouvir o feedback dos leitores pelo meu e-mail astrosfera@gmail.com







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