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os cinco níveis de regencia

Com o boom da Astrologia Medieval e helenística, o papel dos regentes na Astrologia tem sido discutido com mais veemência nas últimas décadas. Morin de Villefranche, William Lilly e outros astrólogos a partir do Renascimento popularizaram o uso apenas do regente domiciliar, mas antes deles havia a prática generalizada o uso de cerca de cinco níveis de dignidade para cada grau zodiacal:
  1. Domicílio: 5 virtudes;
  2. Exaltação: 4 virtudes;
  3. Triplicidade: 3 virtudes;
  4. Termo: 2 virtudes;
  5. Face: 1 virtude.
Ao longo da idade média, criou-se a sistematização desses cinco níveis de dignidade num sistema de pontos, que pode ser conferido ao lado de cada uma delas, mas nem sempre foi assim. Robert Schmidt, um estudioso da Astrologia Grega contemporânea a autores como Vettius Valens e Ptolomeu, defende que cada nível de dignidade representa uma dimensão do assunto analisado. Isso entra em contraste com o que autores como Robert Zoller afirmam: segundo Zoller, todos os regentes da Casa ou Parte são importantes, e aquele que estiver em melhor estado no mapa será capaz de realizar os assuntos da Casa. Seguindo, porém, a visão de Schimidt, contra-argumentaríamos a proposição de Zoller afirmando que o regente domiciliar é o único que pode se submeter a esse tipo de análise qualitativa. Os outros regentes representariam descrições do assunto representado pela Casa, como apresentaremos ainda nesse artigo.

Fica muito difícil saber hoje qual seria a função de cada um dos níveis de regência mas, com o aumento das traduções dos textos medievais e clássicos, algumas funções de cada nível citado pode ser vislumbrado. Para cada um, publico qual seria a sua função.


Domicílio: Ele indica os assuntos com os quais a Casa ou Parte estão envolvidos; muitas vezes chamado de "Senhor da Casa", indica a prosperidade geral da Casa/Parte.

Ainda acerca dos regentes domiciliares, quando se estuda a saúde do nativo, Abu Ali al Khayyatt e Johannes Schoener dizem o seguinte (parafraseando):
A Lua e o Ascendente representam o corpo de um homem, enquanto seus regentes [domiciliares] falarão da sua alma. Assim, pois, se a Lua está em bom estado, porém não o seu regente, o nativo terá o corpo são, mas não a alma.
Nomes famosos da Astrologia, como Morin de Villefranche e William Lilly baseiam suas práticas sobre os regentes domiciliares. Esse tipo de regência ocupa um papel definitivo na Astrologia Horária, inclusive para descrever a forma da questão: se a questão for sobre um objeto perdido (Casa 2, objetos) e o regente da casa 2 for Vênus, pode ser algum utensílio de arte ou cosmético. Se for Saturno, alguma coisa antiga ou velha.


Exaltação: Abu Mashar, Bonatti e Abu Ali al khayyatt preferem o regente da Exaltação para representar pessoas importantes para o assunto estudado. Esse regente é mais usado em caso de questões envolvendo posições de autoridade, e tem um papel mais dinâmico que o regente domiciliar, até porque a expressão "exaltação" indica alguém que será subitamente elevado sobre os outros, escolhido ou eleito. Dentro desse contexto, o regente da Exaltação seria usado para questões sobre reinos, eleições políticas, vitórias, sucesso, etc.

O mais difícil mesmo é saber o que o regente da Exaltação representa para Casas que não tem nada a ver com fama e reputação. Acredito que o Astrólogo precisará de criatividade com essas casas. Por exemplo, uma pessoa que ganhe na loteria pode ter o regente da Exaltação da Casa 2 ou da Parte da Fortuna em bom estado, pois se trata de dinheiro envolvendo fama. é comum pessoas que ganham na loteria aparecerem na televisão.


Termos: Numa questão sobre objetos perdidos ou roubados, Bonatti diz que poderíamos saber de que material é feito o objeto analisando-se o regente dos termos. Voltando ao exemplo da Casa 2: se a cúspide da Casa 2 cai nos termos de marte, o material do objeto perdido pode ser ferro; se for Júpiter, ouro ou pedras preciosas.

Parece que os termos e o regente do domicílio possuem entre si uma relação de matéria e forma: assim, a cúspide da Casa 2 em Libra (signo regido por Vênus) mas nos termos de marte, poderia indicar alguma coisa ligada a arte/estética (Venus) feitas de materiais marciais (agressivos, duros, resistentes). Assim sendo, se o regente dos termos da questão estudada estiver em bom estado no mapa que analiso, provavelmente o material do assunto - seja ele concreto ou abstrato - será excelente.


Triplicidade: Talvez essa seja a dignidade mais confundida: era usada desde os autores gregos para se estudar a qualidade e a quantidade de uma questão ao longo do tempo. Durante a era medieval, porém, foi usada simultaneamente para se analisar a matéria da mesma forma que o regente domiciliar.

A Triplicidade funciona da seguinte forma: para cada elemento (fogo, terra, ar água) há três regentes. Cria-se para os três regentes de um dado elemento uma ordem de regência, a depender da parte do dia em que o mapa foi levantado. A seguir, dá-se a cada regente um terço da vida do nativo. Cada regente dirá a qualidade da manifestação dos eventos relativos a casa no seu terço correspondente. Os regentes da triplicidade representam, portanto, a qualidade dos tempos, e não da matéria.

Por exemplo: se a minha Casa 2 cai no signo de Gêmeos e o meu mapa é noturno: mercúrio é o regente noturno da triplicidade de ar, então ele é o primeiro planeta da ordem. Em seguida, Saturno assume a regencia. Finalizando, Júpiter rege a última parte do período de tempo analisado por ser regente participante da triplicidade de ar (e o participante sempre vem por último).

Se eu viver 75 anos, divido essa idade por tres e atribuo cada terço de vida a um regente da triplicidade na ordem que foi dada para mapas noturnos. Cada planeta - mercúrio, Saturno e Júpiter - vai dispor de 25 anos sobre questões financeiras. Assim sendo, se mercúrio está em mal estado, os primeiros 25 anos serão ruins para dinheiro; se Saturno estiver bem, a partir dos meus 25 anos terei melhorias no dinheiro; Júpiter finaliza a análise dizendo pelo seu estado como será o fim da minha vida em se tratando de recursos.

O regente da triplicidade é muito importante para se analisar a dimensão temporal, mas também para se conhecer assuntos diferentes regidos por uma mesma casa. Ibn Ezra, Alchabitius e Ali Aben Ragel apresentam listas nas quais se descreve o papel de cada regente para cada casa. Por exemplo, a Casa VII representa casamento, parcerias e inimigos declarados: assim sendo, o primeiro regente da triplicidade representará a esposa, o segundo as associações e o terceiro os inimigos.


Face: esta dignidade, que no esquema medieval vale apenas uma virtude, talvez por já naquela época um papel desvalorizado na interpretação. Ainda hoje ela é a mais desvalorizada e quase em desuso, embora talvez seja uma das mais antigas: a divisão do zodíaco em três partes já era habitual no Egito antigo e tinha conotações religiosas.

Talvez a expressão usada para escrever essa dignidade seja a pista que precisávamos para saber sua função: na idade média, Ali Aben Ragel e Abubater defendiam o uso das faces para descrever a aparência do nativo, de um modo quase literal - Abubater dizia que a dignidade de face do ascendente descrevia a face da pessoa!

O uso da Face para descrever a aparência é defendido por Bonatti em algumas questões. No sexto Tratado do Liber Astronomiae (sobre Astrologia Horária), no capítulo sobre objetos roubados, o autor italiano descreve a aparência do ladrão pela Face que ocupa a cúspide da Casa 7. Para esse uso, existe um porém: no mesmo capítulo, Bonatti descreve as 36 faces do zodíaco. As descrições de cada uma geralmente não coincidem com as qualidades do planeta que a rege. Por exemplo, a Face de Saturno poderia representar sempre uma pessoa de má aparencia, mas no esquema de Bonatti algumas Faces de Saturno representam pessoas belas e bem vestidas. Qual seria a razão para essa divergência? As descrição das Faces por Bonatti é claramente mitológica, e não planetária. Esse mesmo tipo de descrição aparece em textos indianos mais antigos, reputando as Faces a figuras complexas, como "um homem segurando uma faca na sua mão direita".

Existe um livro que descreve as imagens representadas por cada um dos graus zodiacais. Trata-se de um texto medieval recheado de imagens, que pode ser encontrado no site World Astrology.

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