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Enfim, Sinastria!

"O homem é satisfatório para a mulher e a mulher para o homem se os ascendentes de ambos estiverem no mesmo ângulo.

Se os dois luminares ou um dos dois estiverem no ascendente ou no meio do céu [do outro], então também é satisfatório.

Semelhantemente [é satisfatório] sempre que [no signo onde está] a Vênus de um dos dois [os sócios de matrimônio], há a Lua do outro, ou onde quer que esteja a Lua de um dos dois, haja a Vênus do outro, especialmente se a Lua de um dos dois está em trigono com a Lua do outro.

Mas se há um maléfico onde quer que o luminar de um dos dois [os sócios de matrimônio] esteja, indica dano e pouco acordo, mas se há um benefico, ou todos o benéficos dos dois nativoa estiverem nos ângulos ou o lote [do casamento ou da fortuna?] de ambos estiverem no mesmo signo, indica acordo e conveniência."

Dorotheus de Sidon, Carmen Astrologicum. Astrology Classics. Traduzido por David Pingree.


Essa é uma das poucas referências nos textos clássicos sobre sinastria. Acredito que a razão para essa escassa produção seja a questão filosófica da confiança depositada sobre o destino do nativo somente no seu mapa natal e Revoluções Solares. O mapa da pessoa poderia ter boa sinastria co outro, mas se a natividade não prometesse casamento, de nada adiantava. Essa extrema confiança no mapa natal pode se dar de duas maneiras: eu posso crer que uma sinastria boa pode não dar em casamento porque meu mapa não promete tal destino, ou então da mesma forma posso crer que atraio sinastrias ruins devido a mesma razão. Pensar que um mapa promete casamento ou não é absurdo para o raciocínio contemporâneo, mas peço a você que deixe um pouco isso na hora de testar os textos antigos. Veja se é verdade, porque a prática pode simplesmente mudar seu panorama filosófico acerca da Astrologia, como tem mudado o meu. Há tempos atrás, eu acreditava que os textos antigos eram apenas relíquias inúteis, até que eu resolvi aplicá-los, dentro das devidas proporções e adaptações.

Os hindus tem uma visão holística de todos os ramos da ciência dos Astros: eles não acreditam que a Astrologia Mundial entre em contradição com a Astrologia Natal, como nós pensamos no ocidente. Por exemplo, se um país apresenta uma alta taxa de divórcios, os Astrólogos hindus acreditam que verão uma taxa maior de pessoas com sinais astrológicos indicando um casamento infeliz. Não há como comprovar isso, mas a nossa crença é de que diversas vezes a Astrologia Mundial pode contrariar os prognósticos de um mapa natal. Essa idéia é razoável para nós. Será que todas as pessoas mortas no ataque a Hiroshima e Nagasaki tinham sinais astrológicos indicando uma morte violenta e imprevisível? Será que todos as pessoas mortas no acidente com o AirBus da TAM tinham configurações Astrológicas indicando algo semelhante?

De qualquer modo, a sinastria tem sido verificada como confiável. Os aforismos de Dorotheus são bastante reais na prática - pessoas que tem os lumiares aflitos pelos maléficos (Marte e Saturno) do parceiro se sentem bastante restringidos. Certa vez tive um relacionamento no qual meu sol recebia uma quadratura de Saturno, e apesar das coisas boas que o relacionamento proporcionava, eu me sentia muito restringido e criticado por ser quem eu sou. Foi pesado.

Há uma idéia que Dorotheu não trabalha mais a fundo, mas que é interessante: será que pode haver recepção em Sinastria? Por exemplo, minha namorada tem Saturno em Virgem se opondo ao meu mercúrio em Peixes. Essa indicação poderia indicar graves desentendimentos e críticas intelectuais, o que tem se verificado muito pouco entre nós. De fato, temos algumas discordâncias, mas sinto que um aprende muito com o outro - ela aprende astrologia comigo, em retorno eu aprendo psiquiatria, e ninguém se sente restringido. Talvez o fato de Saturno estar no signo de Mercúrio reflita que há uma recepção, coisa que costumamos analisar apenas num mapa separadamente.

Como tudo na Astrologia Clássica, a Sinastria é feita visando ao desfecho do relacionamento. Ela não se preocupa muito com o tipo de relação que duas pessoas podem ter - seja ela uma amizade, profissional, sexual, casamento - mas sim se ela terminará bem ou mal, e normalmente o autor antigo se referirá sempre a casamento e namoro. Enquanto um Astrólogo moderno orientaria o casal quanto ao tipo de relacionamento, as diferenças e desafios, o Astrólogo Clássico perceberia se vai dar certo, coisa que muita gente não quer saber quando está apaixonado e procura um astrólogo.

Normalmente há muito pouco conteúdo de orientação na Astrologia antiga. Não quero dizer que isso é ruim: por mais que tivéssemos consciência de nossas diferenças e desafios, o relacionamento com a pessoa cujo Saturno quadrava meu Sol acabou. Alguns temas eram demasiadamente pesados para permitir a continuação. Depois do acontecido, qualquer opinião vale: Você pode confiar nas técnicas antigas e achar que não adiantaria nenhuma orientação para que o namoro perdurasse porque meu Sol fazia quadratura com o Saturno da menina. Há um segundo ponto de vista, mais recente, de que relacionamentos com quadraturas como o meu pode dar certo com trabalho dos aspectos difíceis. A escolha é sua.

Você pode pensar que as difere

Comentários

  1. Muito bom, Mestre Rodolfo, enfim um "love" medieval :P
    Será q existe algo similar ao mapa composto?

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  2. Oi Rodrigo, gosto muito desse blog, costumo vir aqui ler sobre a Medieval.

    Se vc me permite, gostaria de perguntar o que significa na Sinastria Medieval, uma oposição entre venus (dele) e saturno na casa 12 (dela) e um sextil entre o venus (dela) e o saturno (dele). São dois aspectos distintos no mesmo mapa.

    Ah sim, o venus dele ta na casa 6 e cai na casa 9 dela. O venus dela ta na casa 4 e cai na casa 1 dele.

    O saturno dela ta na casa 3 e cai na 12 dele e o dele ta na casa 11.

    Seria muito valioso pra minha compreensão geral de astrologia medieval! muito obrigada!

    ResponderExcluir

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