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Um planeta, vários temas.

São apenas sete planetas. Dependendo do modo pelo qual você vê a Astrologia, vai pensar que esses pontos não são suficientes para representar a vida do nativo. Daí vai começar a procura vertiginosa por Asteróides, Transneptunianos e estrelas fixas. Se você começar a enxergar da mesma forma que eu, já achará suficiente 7 planetas e todos esses outros pontos extras no mapa serão chover no molhado.

O planeta não representa somente uma coisa. Um raciocínio contrário a esse é comum entre iniciantes. Os juvenis no campo da Astrologia pensam que um planeta vai representar somente um único evento na vida da pessoa, o mais marcante. Outros pensam mais uma coisa errada: que uma casa astrológica vazia implica em não ter na vida os temas representados por ela. Se a minha 7 está vazia, então eu não me casarei?

O leitor desse blog já é calejado pra perceber que isso é uma inverdade. Basta se basear no conceito de regência, pois com a casa sete vazia, nos valemos da posição do seu regente para descrever o parceiro, onde quer que ele esteja no mapa. Apesar da experiência que meus leitores tem, é preciso detectar o fantasminha desse conceito errado que persiste até hoje em algumas mentes, porque foi assim na minha, e eu creio que passamos por estágios de desenvolvimento bem parecidos.

Depois do bê-a-bá de pensar que casas vazias não representam nada, passamos a ter uma visão geral através dos regentes. Aí entra um segundo erro conceitual, que tende a ficar mais entranhado nas nossas cabeças. Esse segundo erro é derivado da concepção super-herói do Astrológo, a de que podemos ver todos os pormenores da vida do nativo pelo seu mapa natal. Esse erro vai ser mais difícil de se descrever, mas espero que execute minha missão. Afinal de contas, como diria o comandante do Tropa de Elite, missão dada é missão cumprida (impagável...)

Quando eu analisava um mapa, me irritava o fato de um planeta reger duas casas. Eu só ficava satisfeito quando interpretava o Sol e a Lua, porque cada um rege uma casa apenas. Eu me irritava com o fato de um planeta dizer a mesma coisa para duas casas diferentes. Temia me repetir em algum trecho da interpretação. Posso dizer a vocês que suei muito pra abandonar esse conceito errôneo. Não fosse alguns autores, eu não estaria aqui pra contar a história.

O primeiro autor no qual achei uma resposta razoável para esse dilema teórico foi Morin de Villefranche. Ele dizia uma palavra o tempo todo, que ficava me martelando as idéias à medida em que lia seu livro XXI. "Analogia", ele repetia essa expressão vez ou outra, e eu quinhentos anos depois pensava que poderia dar certo.

O conceito funciona da seguinte maneira: supondo que eu tenha marte regendo o ascendente Áries e a casa 8, Escorpião. Ora, entramos no caso que todo iniciante teme: repetirei a mesma coisa para a casa 1 e 8 nos seus juízos? Morin via o mapa como indicador dos principais eventos do nativo, coisa que discordo hoje, mas vamos olhar o mapa dessa perspectiva. Se você pensa que o mapa indica os eventos mais importantes, é inevitável que esse marte pode nos enganar, já que ele é determinado à casa da vida e a casa da morte ao mesmo tempo. Mantendo a linha de raciocínio nessa perspectiva, pode ser que Marte represente algo muito grave para o nativo sem nos darmos conta. Se ignorarmos a casa 8, ele corre o risco de ter uma morte violenta; se pelo contrário, ignorarmos a casa 1, não saberemos o que ele viverá.

Não quero dizer que Morin está errado. Essa é apenas uma maneira de se ler o autor francês, e muita gente vai discordar de mim dizendo que nunca teve esse conflito na cabeça e que eu sou maluco. Antes disso ocorrer, leia o artigo até o fim e repare no mais importante.

Voltando ao raciocínio moriniano: para resolver o problema das duas casas, Villefranche se valia do conceito de Analogia. O planeta se inclinará para a casa que mantém maior analogia. Você precisa ser maldoso na aplicação desse ponto de vista. Tem que enxergar maldade onde nunca viu. Explicando melhor, morin dizia que esse marte do exemplo poderia representar uma morte violenta se estivesse em aspecto tenso com um maléfico e em mal estado cósmico. Esses são os empurrões que bastavam para que o planeta funcionasse mal, pois além disso, já havia desde o início uma tendência, uma pré-disposição: marte é considerado maléfico essencial.

Trocando em miúdos: se o regente da casa 1 fosse o mesmo regente da casa 8 e estivesse mal posicionado na figura, isso falaria a favor de descrever a morte do nativo. Você tem que favorecer a casa que tenha mais a ver com o planeta, possuindo mais analogias com ele. Marte tem muito mais a ver com desgraça do que com vida, então a casa 8 já ganha mais pontos que a casa da vida só por isso.

Esse conceito é interessante, mas acho que o mapa pode dizer muito mais coisas de um mesmo planeta ao mesmo tempo. Com o sistema de casas quadrantes, você pode ter o absurdo de um planeta reger três ou mais casas. Quando acontece isso, como você faz? Senta e chora?

Em primeiro lugar, devemos pensar que o mapa natal representa uma estrutura de vida, e não eventos isolados e impactantes. É evidente que só criamos uma estrutura de vida com eventos que a determinam, mas o contrário não acontece.

Darei um exemplo aqui do que seria uma "estrutura de vida". Repare na vida do seu irmão. Se você perceber, notará padrões que sempre se repetem na vida dele, com pessoas diferentes. Talvez você note que seu irmão, sem ser interesseiro, vive cercado de gente famosa e bem sucedida. Essas pessoas sempre o ajudam a sanar as merdas que ele faz. Isso se trata de uma estrutura de vida, que você percebe porque vários eventos da mesma natureza se sucederam. Para que você taxasse o seu irmão de papagaio de pirata de gente famosa, é porque aconteceu mais de uma vez. Pois são exatamente as coisas repetitivas que constam no mapa natal, e não as inéditas e súbitas. Dentro dessa perspectiva, pensar no mapa como representante de eventos singulares é subaproveitar um valioso instrumento.

Como esse modo todo de ver o mapa responde à questão do planeta reger duas casas ao mesmo tempo? Pois é, leitor, ele não responde, mas eu não te enganei, porque o artigo continua.

Os autores medievais não eram fominhas. Eles não queriam saber tudo de uma vez, como nós queremos hoje. O mapa natal era como uma refeição à francesa, com drink, antepasto, salada, prato principal, sobremesa, cafezinho e licor. Uma coisa de cada vez. Ninguém queria comer o Peru ao mesmo tempo que a salada. O que estou querendo dizer com essa comparação ridícula? Na interpretação medieval, um assunto de cada vez é analisado, e eu não estaria errado em admitir que nesse processo você esquecia as outras áreas momentaneamente para se concentrar somente numa. Até porque, pensar em tudo ao mesmo tempo é meio caminho para a loucura.

Por exemplo, quando Ptolomeu analisa o casamento de mulheres, é importante ver a posição do Sol. Se antes disso você ler no Tetrabiblos o tópico sobre a família, vai perceber que o sol também é importante para descrever o pai em mapas diurnos, mas quando você quer analisar o sol enquanto marido, esquece momentaneamente do sol enquanto pai. Esse exemplo foi o mais simples que encontrei, mas ele se aplica a qualquer planeta do mapa! No mapa medieval, quando se analisa um assunto de cada vez, é comum dois ou mais planetas se voltarem para aquele tema, e cada um diz alguns aspectos do assunto.

Já deu pra perceber a essa altura do artigo que um planeta são muitas coisas ao mesmo tempo que podem ou não ter relação entre si. Se tiverem alguma lógica conceitual que encaixe essas coisas, você poderá criar uma interpretação inteligente e coesa, mas isso requer tempo. Exemplificando: a minha lua está na casa 2, em Touro, exaltada. Ela é a segunda regente da triplicidade da casa 2, representando finanças no segundo terço de vida, entre 25 e 50 anos aproximadamente. Além disso, a Lua rege a casa 4 e é a terceira regente da triplicidade da casa 4, as terras e imóveis da família. Com tudo isso em mente, podemos até pensar que o nativo lucrará com o imóvel do pai, pois todos os assuntos abordados são regidos pelo mesmo planeta. Isso funciona em alguns casos, mas só quando há nexo entre todos os significados do planeta. Se você não vê facilmente, não force a barra, pode ser que se dê mal.

Para finalizar, acredito que a melhor resposta à questão levantada no início do artigo seja pensar que apenas um regente não dirá tudo sobre a casa. Se você pegar um bom livro de Astrologia Árabe, perceberá que os autores analisavam um assunto de cada vez profundamente. Não se baseavam somente no regente da casa. Eles se detinham também nas partes árabes relativas ao tema estudado e nos regentes da triplicidade do elemento da cúspide da casa. Com todos esses elementos a serem analisados, você perceberá que a única coisa que duas casas podem ter em comum é o seu regente, enquanto o resto será absolutamente diferente, pois cada casa tem partes árabes e regentes da triplicidade diferentes. A pergunta do iniciante perde completamente o sentido dentro desse contexto. Estudando autores assim, você nunca dirá a mesma coisa para duas casas. A origem do problema é o lado ruim da obra de Morin de Villefranche: ele simplificou muito a arte, rejeitando o uso das partes árabes e dos regentes da triplcidade, dando a nós uma astrologia altamente simples e que baseia seus julgamentos quase unicamente no regente domiciliar da casa.

Tarefa de Casa (sua casa, e não a Astrológica):

Pra você perceber o quanto a Astrologia pode ser complicada (embora seja flexível a ponto de ser simplificada), vou postar aqui os links para que você baixe os dois livros de Astrologia natal de Ali Ben Ragel. Eles estão em Espanhol arcaico. Longe de ser um problema, é mais parecido com o Português. Eu não tive muitos problemas em lê-lo, mas se você não entender tudo, não se exija tanto. Fiz isso só para você perceber como um Astrólogo Medieval analisava um assunto da vida do nativo. Perceba que ele não focava somente na casa correspondente ao assunto.


El libro complido de los iudícios de las estrellas, de Ali Ben Ragel

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