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Rio Nilo, berço do zodíaco (e da confusão)

A economia do Egito antigo dependia imensamente do Rio Nilo. Sua enchente era fundamental para as populações, as quais encontravam ali alimento farto. A enchente era o impulso primordial para todo um ciclo econômico. Os passos seguintes a ela consistiam num desdobramento da enchente: envolvia a fertilidade da terra, o crescer dos gêneros agrícolas, a colheita e o comércio destes. Este ciclo, segundo Ciryl Fagan, é dividido em 12 etapas. Simplesmentes esses '12 passos' constituem num embrião do zodíaco, delineado no Egito antigo e que se espalhou e sofreu modificações em diferentes culturas, cuja disseminação se deve em grande parte a Alexandre.


Temos aqui ainda um zodíaco sem as qualidades ditas essenciais de cada signo, hoje consolidadas na nossa cultura ocidental. Um exemplo bastante didático disso seria o signo de Aquário. No momento em que se estabeleceu o zodíaco egípcio, a ascensão acrônica (quando a constelação ascende no horizonte em oposição ao sol que se põe) de uma determinada constelação coincidia com a enchente do Nilo. Houve portanto a construção de uma relação entre os eventos celestiais e terrestres. Construiu-se a imagem da constelação similar a de um homem carregando uma ânfora cheia d' água. No Egito, é representado por Hapi, o deus jovial do rio Nilo, que jorra água de suas duas urnas, representando a enchente do Rio que inunda as terras do Baixo e do Alto Egito. Aquário, nesse contexto, se identifica com o rio em questão, e Ptolomeu - segundo Fagan - diz que este signo rege locais perto de rios. No ano de 1000 antes de Cristo, a estrela Sirius ascende acronicamente no momento em que há a enchente. Esta estrela se situa hoje na altura do signo tropical de Câncer. Como o sol está em oposição a constelação de aquário, isso implica que o astro rei está em Leão, e o evento ocorria em meados de Julho.


O que foi exposto acima pode se constituir num excelente argumento a favor do zodíaco tropical. A enchente do Nilo até hoje acontece em Julho, com eventuais atrasos ou adiantamentos, mas isso se mantém constante ao longo dos séculos. Se o zodíaco sideral estivesse certo, a enchente do Nilo aconteceria sempre em sincronia com o alinhamento do sol em oposição à estrela Sirius, que devido ao movimento de precessão equinocial se encontra agora em câncer. Ou seja, a enchente do Nilo teoricamente ocorreria quando o sol estivesse em Capricórnio, quando ele se opõe a Sírius! A enchente ocorreria em dezembro ou Janeiro, e não mais em julho!


Dessa forma, se utilizarmos o zodíaco como um reflexo dos eventos periódicos terrestres, o estabelecimento de um zodíaco fixo se encaixaria melhor nos seus propósitos. Conclui-se então que as estrelas fixas não teriam relação com o zodíaco, como acontece hoje e se mantém desde a astrologia medieval.


Apesar desse elegante argumento a favor do zodíaco tropical, existe o outro lado, o contra argumento dos sideralistas. Se o zodíaco deve refletir o que acontece na terra, então devia-se inverter a ordem dos signos no hemisfério sul, pois assim teríamos o signo do verão alinhado com o verão em si! Existe até mesmo um dessa posição que volta e meia posta em comunidades do orkut, mas que infelizmente não consegue muitos adeptos.


Algumas idéias são tratadas como grandes heresias a priori. Perde-se muito quando não as testamos por mero dogmatismo, mas também muitos astrólogos tem posições sociais importantes a perder caso entrem em contradição com suas publicações astrológicas do passado. Com o passar dos anos, Saturno cristaliza as convicções, como diria Raul Pompéia, ossificando-as na espinha inflexível do caráter.


Com tantas contradições entre os diferentes zodíacos, porque a astrologia funciona? Existe um sistema de coordenadas no qual grande parte dos astrólogos baseiam suas previsões, que divide o céu em 12 casas. Esse sistema é em média muito homogêneo nas diferentes escolas de astrologia. Tanto um hindu quanto um americano interpretará o mesmo mapa como possuidor de marte na casa sete, porém um dirá que esse marte está em libra, enquanto o outro dirá que ele se encontra am virgem. A primeira parte da delineação (posiçao do planeta nas casas) atinge um consenso que se dissipa na segunda parte, quando se aplica os diferentes zodíacos utilizados pelos dois astrólogos. Segundo a teoria astrológica, o planeta dentro de um signo possui um determinado dispositor que indicaria a causa deste. A cúspide de uma casa obedeceria à mesma dinâmica: seu regente indicaria como os assuntos dessa casa se misturam com outra. Com a mudança de signo pela troca de zodíacos, há uma clara troca de regentes. Se no zodíaco tropical áries rege a minha casa 2, no zodíaco sideral ela é regida por Peixes. A mudança de Áries para Peixes implica na mudança de Marte para Júpiter, ou seja, as finanças tomam rumos completamente diferentes! Por isso que estudar o zodíaco é fundamental para atingirmos uma representação mais verossímil dos eventos terrestres.


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