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O zodíaco sideral

A grande diferença entre a astrologia védica e a ocidental é o zodíaco sideral, objeto de nossas reflexões nesse artigo.

O zodíaco foi criado baseado na maioria das constelações pelas quais o sol passa em seu trajeto, no qual o nosso ano de 365 dias é baseado. O nome da linha que o sol percorre se chama eclíptica. É claro que tudo isso é um fenômeno visual, pois sabe-se hoje que a Terra gira ao redor do sol. Mesmo assim, a astrologia lida com o visível, e vamos nos manter a esse dogma por praticidade.

A eclíptica foi dividida em 12 porções iguais. Cada porção é chamada de signo, e cada um destes recebeu o nome de uma constelação. Apesar dos signos receberem o nome das constelações, ele não é em si constelacional. Se ele fosse, a divisão por 12 não seria em partes iguais (pois algumas constelações são maiores que outras) e haveria um "vácuo" na eclíptica no trecho correspondente à constelação do Serpentário (ou Ofíuco).

Agora que você sabe o que é o zodíaco, vamos a polêmica que divide o mundo. Tanto o zodíaco sideral (usado pela astrologia védica) quanto o tropical (que grande parte do ocidente usa) consistem em divisões de 12 partes iguais da eclíptica, com os mesmos nomes e regências planetárias no esquema tradicional. Qual é a diferença? Toda a diferença é oriunda de um movimento do eixo de rotação da terra. Esse movimento é chamado de precessão equinocial.

A Terra gira de um modo complexo. Ela seria como um pião solto no espaço. Para nós no momento existem três movimentos importantes:
  • Ela gira em torno de si, o que gera os dias e noites (rotação).
  • Ela gira em torno do sol e isso gera o ano (translação).
  • Existe mais um movimento, importante para a astrologia: O eixo de rotação da terra gira em torno de um círculo imaginário (veja o círculo branco mais superior da foto). À medida em que o eixo de rotação da Terra gira dentro desse limite, o equinócio (início da primavera) acontece no mesmo tempo em que o eixo de rotação se alinha a diferentes estrelas com o tempo. A esse movimento, dá-se o nome de precessão.

Há cerca de dois mil anos atrás, a primavera do Hemisfério norte começava quando o sol entrava em conjunção com as estrelas que formam a constelação de Áries. Por isso se convencionou que Áries é o signo primaveril, o primeiro signo. Hoje em dia, a primavera começa quando o sol entra em conjunção com estrelas do início da constelação de peixes. Ao perceber que este movimento faz o ano começar cada vez mais para trás, deu-se a ele o nome de precessão.

De todos os três movimentos citados, o movimento de precesão é o mais demorado: dura cerca de 27.000 anos para que o eixo complete uma volta. Ele é o grande responsável pela diferença atual entre o zodíaco sideral e o tropical.

Agora que você sabe todo o processo, vai entender que dois grupos de pessoas lidam de modos diferentes com o mesmo fenômeno.

A maioria dos astrólogos que você conhece acham que o zodíaco só é importante por marcar eventos que acontecem na Terra, as estações do ano. Dessa forma, o zodíaco tropical se baseia nisso: Áries sempre será alinhado com a primavera, e não com as estrelas da constelação homônima.

Já os sideralistas pensam diferente: Áries, o signo, tem que se alinhar com a constelação sim, desprezando o referencial da primavera, e para que isso ocorra anualmente precisamos fazer cálculos para encontrar as posições planetárias corrigidas da precessão equinocial. Assim, para os astrólogos sideralistas, áries começa cada vez mais tarde no ano, porque eles escolheram ligar o signo a estrela que inicia a primeira constelação.

Talvez você esteja pensando qual é a implicação prática disso tudo. Simples. Se você tem o sol no signo de Áries, pode ser um pisciano para os sideralistas!

O mesmo fenômeno sofrerá todos os planetas de sua carta: ascendente, lua, marte, vênus, etc. Com a mudança (sempre para o signo anterior), mudam-se as regências planetárias, as regências das casas, e isso é muito importante para todo o tipo de astrologia que se pratica.

Os astropsicólogos baseiam suas interpretações em grande parte nos signos. Se eles mudam no mapa, todos os achados teriam de ser repensados.

A astrologia medieval depende em grande parte das regências planetárias. Se eu tenho o Sol em Áries, o sol é regido por marte, sendo este a causa das ações do sol. Com a precessão respeitada, meu sol seria em peixes. O que é Solar no meu mapa passaria a ter como causa júpiter, planeta regente de peixes!

Mas o que os astrólogos tropicalistas experientes dizem sobre o zodíaco sideral? As opiniões aparentam ser reações dogmáticas a uma teoria relativamente nova, como se eles tememessem entrar em contradição por sempre terem usado o zodíaco tropical. É muito difícil confiar nessas opiniões, pois grande parte dos críticos do tema possuem muitos livros publicados que usam como referência o zodíaco tropical. Afirmar um zodíaco em detrimento do outro implicaria no desuso de tudo que foi dito nos seus livros.

Já vi muitos astrólogos mudando de lado, do tropical para o sideral. O contrário eu nunca vi acontecer. Alguns permanecem até hoje num limbo de incerteza, ora usando técnicas védicas (siderais), ora técnicas ocidentais (tropicais). Frente a tudo isso, eu não poderia deixar de me manifestar.

O zodíaco sideral começou a ser investigado no ocidente pelo irlandês Ciryl Fagan. O 'sideralismo' - nome atribuído aos astrólogos ocidentais que usavam a precessão - teve colaboradores ativos até a década de setenta. Parece que grande parte dos astrólogos que defendiam o sideralismo foram absorvidos pela astrologia védica, levando esse movimento praticamamente a extinção.

Richard Houck foi um dos astrólogos ocidentais atraídos pela astrologia védica. Vejamos os seus argumentos sobre o zodíaco sideral, extraídos do livro "The Astrology of Death" (os negritos e chaves do texto são meus):

Após cerca de 15 anos de estudo intensivo eu concluí que, ao menos para os meus propósitos, o zodíaco tropical ou Ocidental é zodíaco errado, isto é, o menos produtivo. Hoje eu uso o zodíaco sideral em todas as minhas conclusões(...) Grosseiramente, esses dois zodíacos [o sideral e o tropical] se sobrepõem em 25% dos casos [o fim de áries, por exemplo, se mantém como Áries em ambos os zodíacos. A mesma coisa com todos os signos em seguida](...)

Na minha experiência, uma forte prova de que o zodíaco sideral é o seu consistente poder objetivamente demonstrado das posições de exaltação, domicílio e queda. Uma leitura atenta da literatura astrológica tropical mais comum revela claramente que há pouca consistência interpretativa do uso dessas qualidades práticas de poder [ele se refere às dignidades] pela simples razão delas não funcionarem tropicalmente de um modo objetivo e consistemente demonstrável - exceto quando eles se interpõem ao zodíaco sideral.

Por exemplo, Vênus em áries é supostamente um posicionamento detrimental, sendo oposto ao signo que [vênus] rege. Mesmo assim [no zodíaco tropical] é difícil de falar mal desse posicionamento de vênus porque, como questão prática, pessoas com esse posicionamento geralmente se dão muito bem com Vênus [isto é, com as coisas que ela representa no mapa natal] porque ela tem a chance de 75% de estar no signo sideral de Peixes. Não falo de estados de espírito ou temperamento que estejam sujeitos a percepção seletiva e interpretações suaves. Digo que esta função benéfica é claramente observável na sua vida diária por outros ao seu redor. A mesma coisa poderia ser dita de vênus nos primeiros 23 graus do [signo] tropical Escorpião, o qual é na verdade o tropical libra, e muitas outras combinações similares(...)

Minha decisão de usar o zodíaco sideral não é particularmente escolástica, histórica, pessoal ou filosófica. Ela é derivada da "escola de olhar ao redor".

No momento em que escrevo este texto não tomei uma decisão definitiva a respeito de qual zodíaco usar. Eu me enquadraria no "limbo" citado no início, que oscila entre astrologia védica e ocidental. Há ainda uma coisa que nunca vi astrólogo algum fazer, que consiste em interpretar um mapa feito no zodíaco sideral usando as regras da astrologia medieval. Teríamos êxito nesse empreitada? Será que a interpretação ficaria mais evidente? Com todas as evidências que coletei, seria um dogmatismo estéril não estudar o zodíaco sideral com mais atenção, e é isso que farei.

Comentários

  1. Caramba, Rodolfo, esse teu texto tinha passado despercebido pra mim. Adorei e faz muito sentido tudo isso, até porque outro dia eu confundi (por data mesmo) uma Vênus de uma colega, porque acreditava que, pelo comportamento dela, seria em Peixes (já há casos de outras em Áries que são Áries mesmo ou seriam por outros planetas).. Bizarro isso. No caso, adorei o meu mapa sideral (fiz rapidinho mentalmente..). ;-))
    Agora como a gente faz isso, em que site, qual gráfico?

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  2. Acabei de ir no Astro e eles mostram essa opção, do Fagan. Mas o meu Sol e minha Lua continuaram no mesmo signo. O resto mudou. Rodolfo, faça um post com um mapa tendo como método esse sideral junto da Astrologia Medieval, como você fala aí no último parágrafo. Gostei bastante. Mas tenho uma dúvida: não tem nada a ver então o fato de termos nascido no hemisfério sul? Teríamos que usar o "tropical" ou tô falando besteira? ;-)

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  3. gostei da explicação da diferença das duas astrologias.

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  4. Muito legal o seu blog! entrei depois de encontrar a sua biblioteca no scribd! parabens!

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  5. Poxa, isso que o Richard Houck menciona a respeito das dignidades não serem tão objetivas no sistema tropical eu tinha percebido mesmo. Inclusive um dia estava falando pra um amigo que Marte em Touro não é uma posição ruim, pois no sideral ele tende a cair em Áries, enquanto que o Marte em Libra tende a ser pior pois cairá em Virgem, signo inimigo do mesmo. E eu por exemplo sempre tive um comportamento um tanto jupiteriano e só depois de utilizar o zodíaco sideral é que fui perceber o porque, meu Júpiter em Leão passa pra sua exaltação que é Câncer e isso me explicou muita coisa. Além do que o MC cai em Peixes com o Arudha Lagna lá, tudo fez muito mais sentido pra mim dessa forma. Mas não menosprezo o tropical, sem dúvida, sei que funciona, mas concordo com a visão do Houck e me alegra ver que minha idéia não é infundada e já foi mencionada por um estudioso. Ótimo texto Rodolfo, parabéns e obrigado!

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  6. É Guilherme... Quando escrevi este artigo, estava em dúvida entre escolher um ou outro zodíaco. Estou longe de decidir sozinho essa questão, pois isso requer experiência. Por isso é preciso confiar numa pessoa mais experiente enquanto você não se decidiu, pois a indecisão pode acabar com sua confiança. Seja usando o zodíaco sideral ou tropical, nós precisamos estar seguros da nossa escolha e deixar a intuição fluir, porque independente do sistema escolhido, é notório que tanto tropicalistas quanto sideralistas conseguem uma boa acurácia preditiva, se usar tudo que é necessário além do zodíaco - os aspectos dos planetas, o shad bala e outras coisas independem do zodíaco empregado.

    Por hora, estou satisfeito em usar o zodíaco tropical. Essa questão de um planeta funcionar muito melhor no sideral pode ser enganosa porque você só está vendo o mapa natal. Existem 16 mapas divisionais citados por Parasara e o estudo de todos usando o zodíaco tropical pode ser mais revelador do que ler somente o Rasi no sideral. Quando for estudar algo assim, tente englobar o máximo de princípios possíveis antes de concluir qual zodíaco funciona. Uma afirmação baseada na observação dos princípios incompletos pode te levar a uma solução errada.

    Outra prova de que o zodíaco tropical pode funcionar muito bem está na afirmação de um dos astrólogos indianos mais "casca grossa" da Índia, K. N. Rao: Astrologia ocidental não é muito preditiva, mas astrologia horária deles funciona. Com o detalhe: a horária ocidental depende muito das regências zodiacais...

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  7. É verdade Rodolfo, você está certo. Eu pensei depois a respeito e de fato, não é nem questão de zodíaco, mas sim de englobar as técnicas. Grato pelo 'sermão' kkkkk

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  8. "Dessa forma, o zodíaco tropical se baseia nisso: Áries sempre será alinhado com a primavera"
    Primavera europeia, é bom lembrar.
    Todos sabemos que áries no Brasil é alinhado com o outono.

    Mas Rodolfo, eu queria te perguntar uma coisa, você tem noção de como são feitos os cálculos para se determinar a posição dos planetas?
    Vênus passa pela constelação de Escudo, por exemplo. Tanto no sideral como no tropical, como eles determinam a posição exata do planeta num caso como esse?

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