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Como analisar um planeta?


Tem gente que fala de como a astrologia medieval é complicada, e é mesmo, mas existem dois tipos de análise:
  • Análise Geral;
  • Análise específica.
A análise específica é realmente muito complicada, precisamos olhar o mapa todo em busca de um planeta que represente um assunto. Esse planeta dirá coisas importantíssimas. Se for dinheiro, ele fala o quanto a pessoa ganhará, os meios, se a fonte de renda é legal ou não, etc. Nem sempre a escolha desse planeta é óbvia, precisa-se conhecer os fundamentos da técnica. Realmente, é complicado...

A análise geral é mais simples, não precisa de nada disso. Nada de cálculos complicados de Almuten para realizá-la, nada de conhecer o "regente do termo do ascendente". Olhamos o planeta e as casas que ele rege, os aspectos que recebe, e construímos uma interpretação. É claro, essa análise não nos possibilita muitas coisas, como definir qual é o status do nativo, o quanto ganhará de dinheiro, etc. Eu diria que a análise geral é mais qualitativa do que quantitativa.

Por exemplo, a análise qualitativa não nos permite saber se uma pessoa é pobre ou não pelo seu mapa, mas revela conflitos que ela pode ter por dinheiro. Se eu lhe der dois mapas para analisar qualitativamente, você pode perceber que uma delas tem problemas financeiros decorrentes de saúde, enquanto a outra não tem indicações de muitas despesas, mas não terá a mínima noção se os dois mapas são de pessoas ricas ou não. Pode acontecer da pessoa com gastos por saúde ser muito mais rica! Enquanto a outra vive em paz com dois salários mínimos num barraco, a outra gastou muito dinheiro por contratar um cirurgião chinês para operar seu filho, tendo com isso de vender algumas coberturas suas no Leblon. A quantidade de dinheiro que cada um tem seria averiguada nos mapas através da análise quantitativa.

Se eu criasse um curso de astrologia, priorizaria a análise qualitativa, pois é a mais fácil e os alunos não se sentiriam frustrados. As pessoas querem sair da aula já interpretando o mapa, e nem sempre isso é possível, mas com essa técnica atinge-se mais rapidamente um nível razoável. Pode-se interpretar o mapa mais rapidamente do que alguém que faça análise medieval tradicional, calculando significadores para tudo. Evidentemente, não se aprende o que é mais misterioso, como o cálculo da expectativa de vida, mas muitas pessoas hoje fazem questão de ignorar esse cálculo e outros mais.

Nos próximos posts mostrarei dicas de como interpretar qualitativamente o mapa natal. Essa técnica foi estabelecida pelo astrólogo Morin de Villefranche, que viveu na França no século XVI.


Por que existem dois tipos de análise?

Certamente você deve ter feito essa pergunta. De fato, não fosse Morin, só haveria um tipo de análise até hoje, a quantitativa. O outro tipo ficava subentendido pelos manuais, e o astrólogo francês tem o mérito e expor as leis desse sistema.

Se você pegar um livro de astrologia anterior a morin, perceberá uma série de regentes além do regente domiciliar de um signo, uso de partes árabes, profecções, Hyleg, alcocoden... Termos que não carecem de explicação aqui, mas que revelam o complexo mundo que consistia na astrologia medieval.

Pois bem, Morin era um racionalista. A sua lógica não tolerava certos postulados astrológicos. Um deles era o uso de significadores essenciais. Essa técnica diz que em todos os mapas, o sol diz sobre a fama, e Júpiter sobre a riqueza, etc. Para Morin, isso não fazia sentido algum! Só pelo fato de Júpiter estar em Sagitário, como está agora e ficará por um ano, quer dizer que as pessoas que nascem nesse ano inteiro serão ricas?

Talvez você esteja pensando: "Se o Rodolfo usa Júpiter como significador de dinheiro em qualquer mapa, ele é um idiota. Morin está certo, não faz sentido". Não é bem assim. Os astrólogos contemporâneos que estudam os textos anteriores a Morin descobriram regras para se usar um significador essencial. Ele se aplica a alguns mapas sim, mas em condições específicas. Dá pra ver que Morin não leu a outra metade dos textos anteriores ao dele. Como se diz aqui no Rio de Janeiro, ele "pegou o bonde andando"!

Brincadeiras a parte, havia outra razão bem importante para Morin rejeitar muitas teorias anteriores a ele: o ódio aos árabes. A Europa sofria com a ameaça dos Turcos. A qualquer momento, poderia haver uma invasão. Constantinopla e outros centros do oriente médio estavam em franca efervescência bélica. A Grécia foi invadida pela Turquia. O islã competia pau a pau com o Catolicismo, numa mistura de religiosidade com expansão territorial, a "Guerra Santa". Não quero enfatizar uma bipolaridade que não existia, mas para que o leitor entenda, aí vai uma comparação: se você fosse um comunista ferrenho na Guerra Fria, aceitaria as teorias de um capitalista ou criaria as suas? Da mesma forma, Morin não quis nem saber dos árabes. Aliás, hoje em dia o preconceito com o Oriente Médio é muito similar ao que era na sua época: turco, libanês, sírio, muçulmano, era tudo a mesma coisa! Uma pena, pois ele refutou a astrologia mais sofisticada que já existiu.

O sistema vislumbrado por Morin é simples, mas não consegue visualizar no mapa se a pessoa está rica, quanto tempo viverá, etc. Talvez ele considerasse isso um absurdo, como a maioria dos astrólogos da atualidade acham impossível conceber um fato como esses através do mapa natal. Não há espaço para polêmicas aqui: eu registro nesse blog o que creio, e não reprimo ninguém de expressar sua verdade. Existem coisas que desafiam a nossa compreensão moderninha e sensata o tempo todo. Astrologia medieval é uma delas.


Comentários

  1. Kara, Rodolfo, você foi no ponto nessa sua última análise, hein? E nada mudou pelo visto. Dá uma olhada por aí, em alguns sites franceses, a coisa ferve e também por causa das eleições presidenciais na Francozida (c´est le petit-nom que j´ai invinté! hehe)

    Estou esperando ansiosa os outros posts! ;-)

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