Pular para o conteúdo principal

O eixo VI - XII

Como é vulgarmente sabido em astrologia, se tomarmos a sétima casa a partir de uma casa qualquer, esta será de alguma forma oposto complementar daquela. Se a casa 1 é o "Eu", a casa 7 é "o outro". Essa relação é bastante difícil de ser percebida no eixo 6-12, mas John Frawley nos dá importantes esclarecimentos.

A casa 6 se refere a tudo que o mundo faz para nos agredir. Tomemos esse mundo como o mundo das idéias e das relações sociais ou mundo orgânico, com seus vermes e animais peçonhentos.

Se tenho a minha integridade física e moral, meu sistema de idéias e valores, este pode ser "lesado" por relações nas quais sou hierarquicamente inferior. Se tenho um corpo físico, este pode ser lesado por excessos de comida e bebida (júpiter ou vênus nesta casa) ou mesmo por doenças infecciosas, ou doenças decorrentes do trabalho (lesão por esforço repetitivo, LER).

Dessa forma, a casa seis não poderia se referir a uma ação pessoal, mas sim ao que ingerimos ou sofremos do mundo, mesmo que esse sofrimento tenha origem nos nossos atos, como um signo masculino na cúspide dessa casa poderia sugerir (casas com signos masculinos dizem que somos produtores do bem ou do mal da casa em questão).

Quando iniciei meus estudos de astrologia, fui ensinado de que este setor trataria do ambiente de trabalho, do aspecto entediante, da rotina. Estes significados decorrem de uma incompreensão da referência clássica a servidão e seus servos, mas minha opinião hoje é a de que esta casa não pode se referir ao trabalho per se. Realmente, o significado de "nossos empregados" que essa casa também aporta não tem relação com as "lesões que o mundo nos causa". Isto por que as casas possuirão significados diversos a depender das relações derivadas que a casa tem com as outras do sistema. Assim, a casa dez representa a fama e a profissão pois é a casa mais elevada do mapa, mas pode representar a mãe, pois é a sétima casa a partir da casa do pai, e no entanto, até a astropsicologia de Liz Greene e Howard Sasportas, fama e profissão nada tinha a ver com os progenitores...

Voltando a questão da servidão, é preciso sondar o que representava esse conceito na era medieval, onde floreceu a astrologia e grande parte dos significados atribuídos as casas.

Quando se era servo de alguém, não havia somente uma fidelidade trabalhista. Se hoje eu posso defender uma crença diferente da ideologia do meu patrão, não se esperava isso em épocas medievais. As leis trabalhistas e os direitos individuais foram esboçados a partir do Iluminismo, "a idade da razão". A casa seis, portanto, abriga todo esse peso da servidão não enfatizado nos manuais, um peso que escraviza o corpo e a alma, e que todos desejam manter distância de suas vidas. Qual não seria a razão da aflição de um benéfico nessas casas, senão essa? Aqui, Júpiter, o grande libertador de restrições, tem de se dobrar em sujeição servil dos assuntos que rege. Dessa forma, as restrições são apenas amenizadas, mantém-se uma bela coleira de ouro, com água e comida ao redor.

A servidão, apesar da origem diversa do significado, acaba por lesar a dignidade do nativo, uma lesão ideológica, mas hoje as abstrações às vezes são mais importantes do que a vida.

Diante de tudo que foi exposto sobre a casa seis, concluo que ela pode representar o trabalho, não em sua dimensão qualitativa (o que a pessoa faz, a descrição do seu ambiente de trabalho), mas sim em toda a sua sujeição, seja ela ideológica, moral ou física. Abrigar-se-ia nesta casa, portanto, a dimensão restritiva à individualidade no trabalho, algo muito comum ainda hoje, quando vemos pessoas que não podem mostrar a sua opinião dentro da empresa, ou são assediadas sob o risco de perderem o emprego.

Todavia, cristalizar a ligação do profundo significado da casa seis ao trabalho, como é feito comumente, leva a falta de escopo na interpretação. Qualquer dimensão de vida pode nos lesar, física ou moralmente, e a posição do regente desse assunto nesta casa pode nos dizer isso. O regente da casa seis em boa posição mundana pode mostrar a importância que tem as condições limitantes tem na vida em questão. Como provável manifestação, temos um médico, ou um psicólogo.

Enquanto a casa seis fala das lesões que o mundo nos causa, a casa doze representa coisas que causamos a nós mesmos, daí a sua relação contemporânea com o inconsciente, com a auto-sabotagem, quando o que desejo é inconsciente e contrário às situações que mantenho, sejam elas ideológicas ou materiais. Os aprisionamentos e exílios são reflexos dos nossos atos. A relação dessa casa com os inimigos secretos também não possui ligação com esse significado, pois todos nós possuímos antagonistas, seja cometendo erros, seja praticando atos dignos. Morin de Villefranche, ao interpretar seu próprio mapa, relega a si mesmo o malogro de sua profissão e se justifica pelo fato do regente da casa X se encontrar na XII, e além disso, ser um maléfico (Saturno). Isso mostra por quanto tempo a casa XII pareceu às mentes astrológicas infelicidade sem uma justificativa plausível. Todavia, por derivação, a casa XII fala das doenças do outro, pois é a sexta casa a partir da sétima, e podemos arguir ao nativo com planetas aqui presentes se ele nutre algum interesse pelo tema. E pensamos se Morin, ao escolher a medicina, não fez algo contra si mesmo.

Comentários

  1. "Aqui, Júpiter, o grande libertador de restrições, tem de se dobrar em sujeição servil dos assuntos que rege. Dessa forma, as restrições são apenas amenizadas, mantém-se uma bela coleira de ouro, com água e comida ao redor"

    Dessa parte que me toca, eu deixei de fazer coisas achado que iria ter mais liberdade, mas depois achei que se tivesse feito a teria..
    Em fim até hoje não sei bem o que é liberdade...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Como interpretar uma Revolução Solar?

No post anterior eu comecei a falar sobre o método de previsão mais popular da idade média e renascença: direções primárias + revolução Solar. Também lancei no ar uma frase não-tão-enigmática assim:
Na revolução, qualquer coisa que signifique o nativo deve estar em contato com qualquer coisa que signifique o evento Neste artigo, vamos decifrar a frase acima: você aprenderá a interpretar uma revolução solar de um modo minimamente decente pra você já fazer alguma previsão.

Para ter um entendimento satisfatório desse artigo, você precisa saber alguma coisa de astrologia: o que cada casa e planeta podem representar, o que são partes árabes, e o que são aspectos/conjunções. É um artigo para os já iniciados, mas você que está começando agora pode consultar outras fontes pra entender o que falo aqui - com a internet, não será difícil.

Como nascem os eventos? As aulas de astrologia horária que você anda fazendo com o tio William Lilly deveriam te levar a mais além de encontrar seu cachorro. E…

As Casas da Morte.

Quando se pensa em morte na Astrologia Moderna, após uma série de desculpas e desembaraços para se lidar com o tema, vem a nossa mente a Casa VIII. Na Astrologia Medieval, essa também é a Casa usada para a questão, porém existem mais duas que tem participação na delineação da morte: As Casas IV e VII. Como muitas coisas dos livros antigos, elas são citadas porém não são explicadas. Tal qual um rabino dedicado ao estudo do Torá, temos de buscar algum sentido para aquilo se quisermos "digerir" os aforismos. Caso contrário, estes passarão incompreensíveis ao nosso entendimento.

A Casa VII é o lugar onde os planetas se põem, e portanto guardam uma representação simbólica de morte. Autores gregos também consideram planetas na VII como representantes de eventos que acontecerão no fim da vida do nativo.

A Casa IV marca o fim de um ciclo, pois a partir dela o planeta volta a "subir" rumo ao Ascendente. Muitos autores usam a Casa IV para simbolizar as coisas que acontecem ao …