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Mostrando postagens de Janeiro, 2006

geometria analítica

Andando na calçada estreita seu pensamento entorpecia a sensação de andar. Quando se deparava, percebia que caminhara léguas. Milimetricamente, com a mesma precisão neurótica dos desenhos que esboçava, e da arrumação metódica dos artigos que imprimia em ordem temporal, da grécia clássica, passando da idade média ao contemporâneo, perguntava-se sobre o mesmo esquadro, se este o possibilitaria medir o grau de felicidade, a hipotenusa dos sonhos e esperanças.

De repente visou no meio da rua crianças sorridentes; focalizou no entre os vapores da chuva (sim, chovia) sorrisos, olhos e roupas furadas, costuradas e possuindo estampas de deputados federais da eleição retrasada. Condoeu-se das caixas de balas. Viu-se criança pegando uma bala dessas na loja com ar condicionado; viu-se com uma roupa escolhida pela mãe; viu-se ansioso por chegar em casa. Viu-se com pena de tudo. A velha pena se encontrava lá, a espreita.

A fortitude de seu gesto em ignorar as crianças vendedoras não passava de fraqu…
pouco a pouco reavivava em sua mente seu cheiro, mas ainda era muito mental. Sua espada era o desejo, cortava qualquer adversidade. Não haverá justificativas para o que se deseja, pensou ele. E tornava a rememorar aquele perfume.

O chão límpido do aeroporto lembrava um futuro silencioso em algum lugar. Num hospital, talvez, encontraria o mesmo chão, os mesmos tons pastéis, e a mesma sensação de funcionar. Porque achava que a seta do desejo tinha de passar por vísceras tortuosas dentro de si para que fosse finalmente regurgitada. Tudo isso era funcionar. Quando a seta perfurava-lhe a vesícula no meio do caminho visceral, cuspia bile por quarenta dias e quarenta noites, amargo do próprio sabor das carnes internas, com a seta congestionando-lhe o trânsito intestinal.

Mas um dia haveria de funcionar. Sua delicada matemática ansiava por esse momento inconsistente. E há de ser com ela, pensou.