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A ocidentalização do Mangá

Paira sobre alguns desenhistas brasileiros a crença de que a anatomia dos personagens de mangá reflete o biotipo da mulher e do homem japonês. Eu concordo em parte com essa afirmação, porque para que o leitor se identifique com a história você precisa recriar a figura do "homem comum", que represente as angústias e alegrias de seu país, sua geração, faixa etária ou de quem tem um problema, seja ele social, sexual, ou de saúde.
Na criação desse homem comum, estabelece-se um biotipo e uma indumentária peculiar, que reflita o grupo do qual ele pertence.

Como exemplo do que foi exposto podemos citar keitarô, o protagonista de Love Hina, que tem as características típicas da figura construída do japonês adulto jovem: franzino, cabelos lisos, óculos grandes e retangulares, roupas em tom pastel, geralmente calça e camisetas com ou em estampas.

Apesar de se buscar essa identificação, a cultura japonesa entra em interseção com culturas estrangeiras, estabelecendo uma teia de opções que possibilitam, ao jovem keitarô, tornar-se representativo do jovem mundial.

Evidentemente nós podemos achar ridícula a postura de keitarô frente ao sexo, pois os japoneses postulam uma conduta muito mais recatada socialmente para certos rituais que são triviais aos ocidentais, como o beijo na boca em público. Essa é a parte fora do conjunto interceptado de fatores das interculturalidades, uma peculiaridade que pode causar, a dois brasileiros diferentes, excitação e indiferença.

"Love Hina", a série de quadrinhos da qual se origina Keitarô, não possui só personagens com biotipo japonês, embora o autor se refira a todas as personagens, com exceção de duas, como japonesas; daí eu não concordar inteiramente com a assertiva do primeiro parágrafo. Apesar dessa construção inverossímil, há nessa configuração uma repercussão estética e outra sobre a cultura de massas da qual os quadrinhos participam.

A repercussão estética trata do elemento que todo desenhista busca constantemente: atrair os olhos do leitor. Isso é possibilitado pelo contraste gerado pela diversidade de alturas, cortes de cabelos, biotipos diferentes, estilos de moda diferentes, na construção de um grupo de personagens. Imagine, em um quadrinho em preto e branco, só desenhar personagens de cabelo preto e com poucas opções de corte de cabelo!

As influências culturais que permearam o Japão no pós-guerra trouxeram uma estética mais cosmopolita, incorporando conceitos de beleza estrangeiros, como o fetiche americano por seios grandes (às vezes gigantescos!). O homem japonês também prefere, então, se excitar com essa parte avantajada da anatomia tanto quanto o norte americano (e quiçá o brasileiro), criando mais uma interseção que possibilita às editoras de mangá a segunda repercussão que eu comentara anteriormente: a maior aceitação de seu produto no ocidente.

Finalmente, acima de qualquer padronização e/ou coletivização, está a preferência individual, que pode gerar a busca por elementos de outra cultura sem que o estrato social representativo possa eventualmente ter essa inclinação.

Apesar de ressaltar as semelhanças entre culturas diferentes, há muitas diferenças que impossibilitam a difusão do quadrinho em outros territórios, que aliás constituem grande parte do globo. Retratar o homem dos grandes centros em detrimento do homem rural pode concentrar a distribuição do quadrinho para áreas muito estreitas. O único preceito que antagoniza essa impopularidade é a questão individual, que fará com que uma criança do sertão que possua algum dinheiro busque um quadrinho para saciar sua sede de fantasia. E enquanto isso não acontece, o mangá encontra seu nicho predileto nas classes médias das metrópoles.

Para ampliar suas áreas de influência é que se sugere a inclusão de mais personagens negros e pardos no mangá, a fim de aumentar a representatividade do povo brasileiro. O número de personagens negros nos mangás sempre foi pequeno; o desenhista brasileiro precisa criar suas próprias referências para desenhar o negro brasileiro em mangá, dada a sua escassez. Não tenho uma resposta para a questão: se o japonês coloca tantos biotipos ocidentais (caucasianos e latinos) em suas revistas, porque não insere com mais frequência o negro e todos os subtons existentes?

Para o desenhista brasileiro, o desafio é retratar toda a beleza da etnia negra, adaptando-a ao mangá.

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